Há um momento no luto em que a vida deixa de parecer uma estrada conhecida e passa a ser uma enorme tela em branco.

Não porque nos faltem sonhos.

Mas porque deixamos de acreditar que somos capazes de voltar a pintá-los.

A perda tem essa capacidade de nos roubar a confiança. De repente, tudo aquilo que dávamos como certo desaparece. O futuro, que antes parecia cheio de planos, transforma-se num espaço vazio onde reina a insegurança.

Perguntamo-nos se voltaremos a sorrir sem culpa.

Se um dia conseguiremos fazer planos sem sentir que estamos a trair quem partiu.

Se ainda faz sentido sonhar.

É uma das maiores mentiras que o luto nos sussurra: a de que a nossa história terminou.

Mas não terminou.

Mudou.

A tela continua diante de nós.

É verdade que já não terá as mesmas cores. Há tonalidades que desapareceram para sempre. Há espaços que ficarão eternamente reservados à saudade. E haverá dias em que a única cor possível será o cinzento da ausência.

Mas uma tela em branco não é um fim.

É um convite.

Não para esquecer.

Não para substituir.

Mas para descobrir que o amor pode continuar a pintar a nossa vida de outras formas.

Cada pequeno passo é uma nova pincelada.

Cada gesto de coragem acrescenta uma cor.

Cada sorriso que regressa sem culpa desenha um novo horizonte.

E, pouco a pouco, percebemos que viver não significa apagar aquilo que fomos. Significa integrar essa dor na obra que continuamos a construir.

A insegurança continuará a visitar-nos. Haverá dias em que voltaremos a duvidar de tudo. Dias em que o medo de voltar a ser felizes parecerá maior do que a vontade de continuar.

Mas talvez a coragem nunca tenha sido a ausência de medo.

Talvez a coragem seja pegar no pincel com as mãos a tremer e, mesmo assim, decidir pintar mais um dia.

Porque a força não está em nunca cair.

Está em acreditar que ainda existe beleza para criar, mesmo quando o coração conhece a dor mais profunda.

Quem amamos deixou marcas na tela da nossa vida que jamais desaparecerão.

Elas não estragam a pintura.

Dão-lhe significado.

Hoje compreendo que a minha vida nunca mais voltará a ser igual.

E não precisa de voltar.

A tela que agora pinto é diferente daquela que imaginei.

Tem lágrimas misturadas com esperança.

Tem saudade misturada com gratidão.

Tem silêncio, mas também amor.

Sobretudo, tem a certeza de que a perda mudou as cores da minha história, mas nunca apagou a capacidade de continuar a criar.

Porque enquanto houver amor dentro de nós, haverá sempre uma nova pincelada à espera de nascer.

E talvez seja essa a maior vitória sobre o luto.

Não pintar uma tela perfeita.

Mas ter a coragem de continuar a pintá-la.

Rute Reis Figuinha

💙 

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