Há uma verdade de que quase ninguém fala.

Nem todos os pais enlutados querem sentir-se melhor.

Não porque gostem de sofrer.

Mas porque, durante muito tempo, a dor parece ser o último lugar onde o filho ainda existe.

É difícil explicar isto a quem nunca perdeu um filho.

As pessoas dizem-nos que precisamos de seguir em frente, de voltar a viver, de recuperar a alegria. Dizem-no com boa intenção. Querem ver-nos bem.

Mas, dentro de nós, instala-se um medo silencioso.

E se, ao voltar a sorrir, o estiver a esquecer?

E se, ao voltar a fazer planos, deixar de o levar comigo?

E se a felicidade apagar aquilo que a dor ainda mantém vivo?

É um pensamento duro. Quase impossível de confessar.

Porque ninguém quer viver mergulhado na tristeza.

Mas também ninguém quer perder, pela segunda vez, quem mais ama.

Durante algum tempo, a dor torna-se uma espécie de refúgio.

É nela que continuamos a conversar com o nosso filho.

É nela que revivemos memórias.

É nela que sentimos que o amor ainda pulsa com a mesma intensidade.

Sem darmos conta, começamos a acreditar que sofrer é uma forma de continuar a amar.

E é aqui que nasce a maior amargura do luto.

Não é apenas a ausência.

É a culpa de imaginar uma vida onde ainda possa existir espaço para a paz.

Como se a serenidade fosse uma traição.

Como se a felicidade fosse uma despedida definitiva.

Mas o amor nunca nos pediu esse sacrifício.

Nunca.

Um filho não precisa da tristeza dos pais para continuar a ser amado.

O amor não depende das lágrimas.

Depende da ligação que permanece.

Há um momento, diferente para cada pessoa, em que começamos a perceber uma verdade que assusta e, ao mesmo tempo, liberta.

O amor não vive apenas na dor.

Vive também na gratidão.

Na memória.

Na forma como escolhemos viver.

Na pessoa em que nos tornámos por termos amado aquele filho.

Nesse instante, compreendemos que podemos guardar a saudade sem fazer dela uma prisão.

Podemos continuar a chorar em alguns dias e, noutros, permitir-nos sorrir.

Podemos falar do nosso filho sem que todas as palavras terminem em lágrimas.

Podemos voltar a sentir esperança sem que isso diminua um único milímetro do amor que sentimos.

O luto não nos pede para esquecer.

Pede-nos apenas que deixemos de acreditar que a dor é o único lugar onde o amor habita.

Porque não é.

O amor está em tudo o que fazemos inspirados por quem partiu.

Está nos abraços que oferecemos.

Na mão que estendemos a quem sofre.

Nas histórias que continuamos a contar.

Na forma como pronunciamos o nome do nosso filho com ternura, sem medo de que o tempo o apague.

A maior homenagem que podemos prestar a quem amamos talvez não seja viver eternamente de coração partido.

Talvez seja permitir que o amor recebido continue a transformar o mundo através de nós.

A dor continuará a visitar-nos.

Haverá datas que doem.

Fotografias que roubam o fôlego.

Silêncios que pesam mais do que qualquer palavra.

Mas, pouco a pouco, percebemos que o nosso filho nunca viveu apenas na dor.

Viveu no amor.

E é nesse amor que continuará sempre a existir.

Hoje acredito que o verdadeiro desafio do luto não é aprender a sobreviver à perda.

É acreditar que o amor permanece, mesmo quando a dor começa, finalmente, a dar espaço à paz.

Porque a paz não substitui o amor.

É, muitas vezes, o lugar onde o amor encontra a sua forma mais serena de permanecer.

Rute Reis Figuinha

💙 

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