Há uma ideia antiga que diz que os pais têm de ser fortes.

Que são eles que seguram a família quando tudo desaba.

Que não podem cair porque há quem precise deles.

E, muitas vezes, é isso que acontece.

No dia em que um filho parte, o coração de um pai parte também. Mas poucos reparam.

Enquanto todos perguntam como está a mãe, o pai aprende a chorar em silêncio.

Chora no carro.

No trabalho.

No duche.

Ou simplesmente não chora, porque acredita que não pode.

Mas as lágrimas que não caem também pesam.

Durante muito tempo pensei que o amor que sentia pelo meu filho me prendia à dor.

Hoje percebo que foi exatamente o contrário.

Foi esse amor que me impediu de desistir.

A perda roubou-me a presença.

Nunca o amor.

Esse continua a acordar comigo todas as manhãs.

Continua a acompanhar-me quando olho para o céu.

Continua em cada memória que guardo, em cada fotografia que acaricio com os olhos, em cada conversa que continuo a ter em silêncio.

Houve um tempo em que pensei que precisava de escolher entre sofrer ou viver.

Entre recordar ou seguir em frente.

Hoje sei que essa escolha nunca existiu.

Posso viver.

E continuar a amar.

Posso sorrir.

E continuar a sentir saudades.

Posso sonhar.

E continuar a desejar mais um abraço que nunca acontecerá.

O amor não me afastou do meu filho.

Aproximou-me da melhor parte dele.

Àquilo que deixou dentro de mim.

Porque um filho nunca é apenas a sua presença física.

É tudo aquilo que nos ensinou.

É a forma como mudou o nosso coração.

É o amor que deixou como herança.

Hoje já não luto contra a saudade.

Ela faz parte da minha história.

Recebo-a como quem recebe um velho amigo.

Às vezes chega em silêncio.

Outras vezes chega em lágrimas.

Mas, em qualquer das formas, recorda-me sempre da mesma verdade:

Só sente uma saudade tão profunda quem amou sem limites.

Sei que nunca deixarei de ser pai.

A morte não alterou isso.

Alterou apenas a forma como exerço esse amor.

Hoje abraço-o através da memória.

Honro-o através da forma como vivo.

Levo-o comigo em tudo o que faço.

E acredito que, enquanto houver amor dentro de mim, o meu filho continuará a encontrar uma maneira de existir no mundo.

Porque um pai nunca deixa de amar um filho.

Nem quando a vida o separa dos seus braços.

O amor encontra sempre outro lugar para morar.

E o meu… continua exatamente onde sempre esteve.

No coração do meu filho.

E com o meu filho, dentro do meu.

Rute Reis Figuinha

💙 

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