O Amor na Saudade

Dizem que o luto tem fases.

Talvez tenha.

Há dias de negação, em que esperamos ouvir novamente uma voz que sabemos não voltar a escutar. Há dias de revolta, em que perguntamos à vida porquê. Há dias em que negociamos com o impossível, dias de tristeza profunda e dias em que conseguimos respirar um pouco melhor.

Mas, depois de viver o luto na pele, aprendi que ele não cabe em fases.

O luto é movimento.

Há dias em que damos dois passos em frente e, sem perceber como, regressamos ao primeiro. Há manhãs em que acreditamos estar mais fortes e tardes em que uma música, um cheiro ou uma fotografia nos fazem desabar.

E está tudo bem.

Porque o luto nunca foi uma corrida para chegar ao fim.

É uma aprendizagem diária sobre como continuar a amar quando já não podemos abraçar.

Durante muito tempo pensei que o objetivo do luto fosse aceitar a perda. Hoje acredito que o verdadeiro desafio é outro: aprender a viver sem deixar que a perda seja a única história da nossa vida.

A perda muda-nos.

Mas o amor também.

E, muitas vezes, esquecemo-nos de olhar para aquilo que o amor continua a fazer dentro de nós.

A saudade é uma dessas formas.

Há quem olhe para a saudade como um peso. Eu aprendi a vê-la como uma companhia. Nem sempre é leve. Há dias em que aperta o peito e nos rouba o ar. Mas também me recorda que existiu um amor tão grande que nem a morte conseguiu apagar.

Se sinto saudades, é porque amei.

E se continuo a amar, então essa pessoa continua a viver em mim.

O amor não desapareceu no dia da despedida.

Mudou de lugar.

Hoje vive nas memórias que me fazem sorrir entre lágrimas.

Nas histórias que continuo a contar.

Nos gestos que repito porque me lembram quem partiu.

Nas escolhas que faço para honrar a sua vida.

E, sobretudo, na forma como aprendi a olhar para o sofrimento dos outros.

O amor transforma-nos.

Quem conhece a dor profunda passa a reconhecer mais facilmente a dor de quem está ao lado. Descobre que, por vezes, um abraço vale mais do que um conselho. Que o silêncio pode confortar mais do que muitas palavras. Que ninguém precisa de ouvir “tens de seguir em frente”, mas sim “estou aqui contigo”.

Talvez seja esse um dos maiores ensinamentos do luto.

Não nos torna mais fortes.

Torna-nos mais humanos.

Acredito que o amor nunca nos pede para esquecermos quem partiu.

Pede-nos apenas que continuemos a viver de maneira que a sua passagem pela nossa vida continue a ter significado.

Viver não é abandonar.

Sonhar não é trair.

Sorrir não é esquecer.

É permitir que o amor continue a escrever a nossa história, mesmo depois de uma página tão dolorosa.

O luto não termina.

Transforma-se.

A saudade não desaparece.

Aprende a caminhar ao nosso lado.

E o amor…

O amor permanece.

Talvez seja por isso que, quando me perguntam o que aprendi com o luto, respondo sempre da mesma forma:

Aprendi que a morte pode interromper uma vida.

Mas nunca conseguirá interromper um amor verdadeiro.

Porque o amor encontra sempre uma maneira de permanecer.

Até na saudade.

Rute  Reis Figuinha

💙 

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