Há dias em que penso que a morte tentou escrever o último capítulo da minha vida.

No instante em que o meu filho partiu, tudo parecia terminado. Os sonhos que construí para ele, os abraços que ainda imaginava dar, as conversas que nunca aconteceriam, os aniversários por celebrar… tudo ficou suspenso num silêncio que nenhuma palavra conseguia preencher.

Durante muito tempo, acreditei que aquela seria a última página da nossa história.

Uma página escrita com dor, ausência e lágrimas.

Mas o tempo, esse mestre silencioso que nunca deixa de ensinar, mostrou-me algo que eu não conseguia ver.

A morte pode interromper uma vida.

Mas não sabe escrever o fim de uma história de amor.

Esse capítulo pertence ao amor.

E o amor escreve de uma forma muito diferente.

Não apaga a saudade.

Transforma-a.

Não elimina as lágrimas.

Dá-lhes significado.

Não nos devolve quem partiu.

Mas devolve-nos a capacidade de continuar a sentir a sua presença de outra maneira.

Um dia percebi que podia continuar a amar o meu filho sem viver apenas da dor.

Foi uma descoberta difícil.

Durante muito tempo tive medo de que a paz significasse esquecimento. Medo de que um sorriso fosse uma forma de o deixar para trás. Medo de que voltar a sonhar fosse uma traição ao amor que sempre senti por ele.

Hoje sei que o amor nunca me pediu esse sacrifício.

Nunca.

O amor de uma mãe não precisa de provar a sua existência através do sofrimento.

Ele existe porque existe.

Porque um filho nunca deixa de habitar o coração da sua mãe.

Mesmo quando os seus passos deixam de ecoar pela casa.

Mesmo quando a sua voz passa a viver apenas na memória.

Mesmo quando os braços já não o conseguem alcançar.

Foi então que compreendi que continuar a viver não era afastar-me do meu filho.

Era permitir que tudo aquilo que ele deixou em mim continuasse a florescer.

Cada gesto de bondade.

Cada palavra de esperança.

Cada abraço oferecido a quem sofre.

Cada pessoa que encontra conforto nas minhas palavras.

Tudo isso se tornou uma forma de prolongar o amor que nasceu no dia em que me tornei mãe.

A morte não teve a última palavra.

Porque eu decidi que o amor continuaria a falar.

Falaria através da minha forma de viver.

Da minha maneira de olhar para quem sofre.

Da coragem de acreditar que um coração partido continua a ser capaz de amar profundamente.

Hoje não caminho para esquecer.

Caminho para honrar.

Não procuro deixar o meu filho no passado.

Procuro levá-lo comigo para o futuro.

Porque ele faz parte de tudo o que sou.

E talvez seja esse o maior ensinamento que o luto me ofereceu.

Há histórias que não terminam no dia da despedida.

Apenas deixam de ser escritas com presença e passam a ser escritas com memória, com saudade e com um amor que amadurece no silêncio.

Se a morte tivesse vencido, teria levado também o amor.

Mas não levou.

O amor permaneceu.

E continua, todos os dias, a escrever uma nova página da minha vida.

Uma página onde ainda existem lágrimas.

Mas onde também existe esperança.

Uma página onde a ausência dói.

Mas onde o amor continua a ser maior.

Porque, no fim, descobri que não fui eu quem venceu a morte.

Foi o amor.

E quando o amor permanece, nenhuma despedida consegue escrever a última palavra.

Rute Reis Figuinha

💙 

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