Durante muito tempo pensei que a coragem era uma qualidade reservada às pessoas extraordinárias.

Àquelas que vencem batalhas impossíveis, que nunca desistem e que parecem caminhar pela vida sem vacilar.

Depois perdi o meu filho.

E descobri que não sabia o verdadeiro significado da palavra coragem.

Porque a coragem não chegou no dia em que o perdi.

Nesse dia não fui corajosa.

Fui apenas uma mãe de coração despedaçado, incapaz de compreender como o mundo podia continuar a existir quando o meu tinha acabado de ruir.

Nos dias que se seguiram, também não me senti corajosa.

Senti medo.

Revolta.

Silêncio.

Um vazio tão profundo que parecia não caber dentro de mim.

Houve manhãs em que abrir os olhos era o mais difícil de fazer. Não porque não amasse a vida, mas porque a vida já não era aquela que eu conhecia.

Cada novo amanhecer lembrava-me da ausência.

Cada noite terminava com a mesma certeza dolorosa: o meu filho não voltaria.

Foi então que compreendi que há uma coragem de que quase ninguém fala.

A coragem de continuar quando já não existem respostas.

A coragem de enfrentar mais um dia sem saber como será o seguinte.

A coragem de respirar quando o peito parece demasiado apertado para deixar entrar o ar.

Essa coragem não recebe aplausos.

Ninguém a vê.

Acontece em silêncio.

Acontece quando uma mãe se levanta da cama, mesmo sem vontade.

Quando consegue preparar uma refeição.

Quando responde a uma mensagem.

Quando encontra forças para abraçar quem ama, apesar de sentir que também precisa de ser abraçada.

Durante muito tempo pensei que continuar a viver significava afastar-me do meu filho.

Hoje sei que era exatamente o contrário.

Cada passo que dou leva um pouco dele comigo.

Ele está na forma como olho para o sofrimento dos outros.

Na forma como valorizo o tempo.

Na importância que dou às pequenas coisas.

Na necessidade de dizer “amo-te” enquanto ainda há tempo para o fazer.

Percebi que o amor não terminou no dia da despedida.

Mudou apenas a forma de se manifestar.

Antes, abraçava-o com os braços.

Hoje abraço-o com a memória.

Antes, escutava a sua voz.

Hoje escuto tudo aquilo que deixou dentro de mim.

Antes, caminhávamos lado a lado.

Hoje caminho por nós dois.

E foi essa descoberta que transformou a minha maneira de viver o luto.

Não deixei de sentir saudades.

Não deixei de desejar mais um abraço.

Não deixei de imaginar a vida que poderíamos ter vivido.

Mas deixei de acreditar que a dor era a única forma de amar.

O amor pediu-me outra coisa.

Pediu-me que continuasse.

Que não permitisse que a morte apagasse tudo o que a vida tinha construído.

Que fizesse da minha existência um lugar onde o nome do meu filho continuasse a florescer.

Foi por isso que comecei a escrever.

Foi por isso que escolhi partilhar a minha caminhada.

Foi por isso que decidi estender a mão a quem também conhece o peso da ausência.

Não porque tivesse encontrado todas as respostas.

Mas porque descobri que a esperança pode nascer mesmo num coração profundamente ferido.

Hoje, quando alguém me diz que sou forte, sorrio com carinho.

Porque não me sinto forte.

Sinto-me apenas uma mãe.

Uma mãe que continua a amar o seu filho com a mesma intensidade de sempre.

Uma mãe que continua a sentir a falta dele em todos os dias importantes e também nos dias aparentemente banais.

Uma mãe que aprendeu que a saudade nunca desaparecerá.

Mas que também aprendeu que o amor pode ser maior do que a dor.

Se existe alguma coragem na minha caminhada, talvez seja apenas esta:

Ter escolhido que a história do meu filho não terminaria no dia em que ele partiu.

Todos os dias procuro escrever mais uma página dessa história.

Com lágrimas, quando elas chegam.

Com sorrisos, quando eles regressam.

Com esperança, mesmo quando o caminho parece difícil.

Porque descobri que a vida não me pediu para esquecer.

Pediu-me apenas para continuar.

E continuar, levando o meu filho dentro do coração, tornou-se a forma mais bonita que encontrei de lhe dizer, todos os dias:

“Continuo a ser tua mãe. E continuarei a amar-te enquanto o meu coração souber bater.”

Rute Reis Figuinha

💙 

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