O luto não é o fim de uma história de amor. É a continuação dessa história, escrita de uma maneira diferente.

Quando perdemos alguém que amamos, temos a sensação de que a nossa história terminou naquele instante.

Há um último abraço, um último olhar, uma última conversa. Depois, instala-se um silêncio que parece impossível de atravessar. Tudo aquilo que imaginávamos viver ao lado dessa pessoa deixa de existir. Os planos interrompem-se. Os sonhos ficam suspensos. O futuro perde a forma que conhecíamos.

É natural acreditar que o amor também terminou.

Mas não terminou.

O amor nunca foi feito apenas de presença física. Sempre foi muito mais do que isso.

O amor vive naquilo que construímos juntos, nas memórias que ninguém nos pode roubar, nas marcas que essa pessoa deixou no nosso coração e na forma como continua a influenciar quem somos.

É por isso que acredito que o luto não é o fim de uma história de amor.

É a continuação dessa história.

Só que escrita de uma maneira diferente.

Antes, o amor vivia nos abraços.

Hoje vive nas lembranças.

Antes, encontrava-se nas conversas.

Hoje vive no diálogo silencioso que tantas vezes fazemos com quem partiu.

Antes, o amor tinha uma voz.

Hoje tem um eco que continua a acompanhar os nossos dias.

Muitas pessoas acreditam que, para seguir em frente, é preciso fechar esse capítulo.

Eu nunca consegui acreditar nisso.

Como se fecha um capítulo que continua a bater dentro do peito?

Como se deixa de amar um filho, um pai, uma mãe, um irmão ou o grande amor da nossa vida?

Não se deixa.

Aprende-se apenas uma nova forma de amar.

Uma forma onde já não existem mãos para tocar, mas existe um coração para recordar.

Uma forma onde já não há aniversários celebrados da mesma maneira, mas há datas que continuam a ser sagradas.

Uma forma onde a saudade deixa de ser apenas dor e passa a ser também um lugar de encontro.

Porque cada vez que recordamos com amor, voltamos a dar vida a uma parte dessa história.

Cada gesto de bondade inspirado por quem partiu escreve uma nova linha.

Cada sonho concretizado em sua homenagem acrescenta um novo parágrafo.

Cada vez que pronunciamos o seu nome sem medo de o esquecer, continuamos a escrever esse livro invisível que só o coração consegue ler.

Durante muito tempo pensei que viver significava afastar-me da dor.

Hoje sei que viver significa aproximar-me do amor.

A dor foi a porta por onde entrei.

O amor tornou-se a casa onde decidi ficar.

Foi ele que me ensinou que a ausência nunca será maior do que aquilo que vivemos.

Foi ele que me mostrou que o verdadeiro legado de uma pessoa não termina no dia em que morre.

Continua nas vidas que tocou.

Continua nas palavras que deixou.

Continua nos valores que semeou.

Continua no amor que despertou.

Talvez seja por isso que há pessoas que nunca deixam verdadeiramente de partir.

Porque continuam presentes em cada decisão importante, em cada sorriso que nos escapou ao recordar uma história, em cada lágrima que nasce da gratidão por termos tido o privilégio de as amar.

O luto muda a forma como caminhamos.

Mas não muda a direção do amor.

Esse continua a seguir connosco, todos os dias, mesmo quando ninguém o vê.

E talvez seja essa a maior descoberta que o luto nos oferece.

Percebemos que o amor não depende da proximidade.

Não depende do tempo.

Nem sequer depende da vida.

O amor verdadeiro encontra sempre uma maneira de permanecer.

Por isso, hoje, já não olho para o luto como o último capítulo da minha história com quem partiu.

Olho para ele como o início de uma nova forma de amar.

Mais silenciosa.

Mais invisível.

Mas não menos verdadeira.

Porque algumas histórias de amor nunca acabam.

Apenas mudam a forma como são escritas.

Rute Reis Figuinha

💙 

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