A perda muda o rumo da nossa história. O amor escreve o resto das páginas.

Há acontecimentos que chegam sem pedir licença e mudam para sempre o rumo da nossa vida. A perda de alguém que amamos é um deles. Num instante, tudo aquilo que imaginávamos para o futuro deixa de fazer sentido. Os planos ficam suspensos, os sonhos parecem desmoronar-se e o coração aprende uma dor que nunca pensou ser capaz de suportar.

É inevitável. A perda muda a nossa história.

Há um antes e um depois.

Mas há algo que a perda nunca consegue controlar: a forma como escolhemos escrever as páginas que ainda faltam viver.

Durante muito tempo acreditei que a minha história tinha terminado no dia em que perdi quem mais amava. Afinal, percebi que não. O que terminou foi um capítulo. O livro continuava aberto.

Não era o livro que eu desejava escrever. Nunca o teria escolhido. Mas continuava a ter páginas em branco à minha espera.

Foi então que compreendi que o amor tem uma força extraordinária.

A perda escreve a dor.

O amor escreve o significado.

A perda deixa silêncio.

O amor encontra palavras.

A perda mostra-nos aquilo que já não podemos viver.

O amor recorda-nos tudo aquilo que tivemos o privilégio de viver.

Foi o amor que me ensinou que recordar não é viver preso ao passado. É permitir que quem partiu continue presente naquilo que sou e na forma como escolho viver.

Cada gesto de carinho, cada palavra de esperança, cada mão estendida a alguém que sofre torna-se uma nova página escrita com a tinta do amor.

Porque o amor não conhece cemitérios.

Conhece corações.

E é aí que continua a viver.

Hoje sei que nunca deixarei de sentir saudades. Nem quero. A saudade é o lugar onde o amor permanece quando a presença já não é possível.

Mas também sei que a vida continua a pedir-me coragem.

Coragem para sorrir.

Coragem para sonhar.

Coragem para amar sem medo.

Não porque a dor tenha desaparecido, mas porque o amor se tornou maior do que ela.

A perda mudou o rumo da minha história.

Mas o amor continua, todos os dias, a escrever as páginas que ainda faltam.

E desejo que, quando o meu livro chegar ao fim, alguém possa lê-lo e perceber que a maior força da minha vida nunca foi a dor que carreguei.

Foi o amor que escolhi nunca deixar morrer.

Rute Reis Figuinha

💙 

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