O amor escreve o resto da história

Nunca imaginei que um dia escreveria sobre o luto.

Se alguém me tivesse dito, antes de perder o meu filho, que as palavras se tornariam o lugar onde aprenderia a respirar, eu não teria acreditado.

Há dores que julgamos impossíveis de sobreviver.

E perder um filho é uma delas.

No dia em que o Pedro partiu, não perdi apenas o meu filho. Perdi a mulher que era até então. Perdi o futuro que tinha desenhado para ele. Perdi aniversários que nunca seriam celebrados, abraços que nunca chegariam a acontecer e conversas que ficaram para sempre por viver.

Naquele dia, pensei que a minha história tinha terminado.

Não sabia que apenas mudara de direção.

Nos primeiros tempos procurei respostas em todo o lado.

Queria encontrar alguém que me dissesse como se sobrevive a uma ausência tão grande. Como se continua a respirar quando o coração parece ter deixado de o fazer. Como se acorda na manhã seguinte sabendo que o pior já aconteceu.

Encontrei muitos livros.

Li muitas palavras.

Recebi muitos conselhos.

Mas, no silêncio da minha dor, continuava a sentir que faltava qualquer coisa.

Faltava alguém que me dissesse que eu não precisava de deixar de amar o meu filho para voltar a viver.

Faltava alguém que me explicasse que a saudade não era uma doença para curar.

Que as lágrimas não eram um sinal de fraqueza.

Que continuar a pronunciar o nome do meu filho não significava estar presa ao passado.

Faltava alguém que me dissesse, com toda a simplicidade:

“O amor continua.”

Talvez seja por isso que escrevo hoje.

Não porque tenha encontrado todas as respostas.

Mas porque conheço as perguntas.

Conheço o silêncio que se instala quando todos regressam às suas vidas e nós permanecemos parados no dia da despedida.

Conheço a culpa de voltar a sorrir.

Conheço o medo de ser feliz.

Conheço a estranha sensação de pensar que, se a dor diminuir, talvez o amor também diminua.

Conheço tudo isso.

E foi precisamente por conhecer esse lugar que percebi uma verdade que transformou a minha vida.

O amor nunca me pediu que escolhesse entre continuar a amar o Pedro e continuar a viver.

Foi a dor que me fez acreditar nisso.

O amor sempre me apontou outro caminho.

Um caminho onde a saudade continua presente, mas deixa de ser uma prisão.

Um caminho onde o meu filho continua a fazer parte de quem sou, mesmo sem caminhar fisicamente ao meu lado.

Um caminho onde cada gesto de amor é uma continuação da sua existência.

Hoje compreendo que a morte interrompeu a vida do Pedro.

Mas não interrompeu aquilo que ele deixou em mim.

Ele continua presente na forma como abraço quem sofre.

Na forma como valorizo o tempo.

Na maneira como escuto alguém sem pressa.

Na urgência que sinto em dizer “amo-te” às pessoas que fazem parte da minha vida.

O Pedro continua a ensinar-me.

Continua a transformar-me.

Continua a escrever comigo.

Porque o amor escreve o resto da história.

Escreve-a quando escolhemos levantar-nos depois de uma noite de lágrimas.

Escreve-a quando encontramos coragem para dar mais um passo.

Escreve-a quando estendemos a mão a quem acabou de entrar no deserto que nós já conhecemos.

Escreve-a quando deixamos de perguntar apenas “porque aconteceu?” e começamos, lentamente, a perguntar “como posso honrar este amor?”

Foi essa pergunta que mudou a minha vida.

Percebi que não podia mudar o que aconteceu.

Mas podia escolher a forma como caminharia a partir dali.

Podia permitir que a dor fosse a última palavra.

Ou podia deixar que fosse o amor.

Escolhi o amor.

Não porque doa menos.

Mas porque ele constrói, enquanto a dor apenas nos mostra aquilo que perdemos.

Escolhi escrever.

Escolhi dar voz ao silêncio.

Escolhi transformar lágrimas em palavras, para que outras mães, outros pais, irmãos, avós e todos aqueles que conhecem o peso da ausência encontrassem um lugar onde se sentissem compreendidos.

Se um dia escrever um novo livro, não será porque tenho uma história extraordinária para contar.

Será porque desejo oferecer a alguém o livro que eu tanto procurei quando perdi o Pedro.

Um livro que não diga “vais ficar bem”.

Mas que diga:

“Estou aqui.”

Um livro que não ensine a esquecer.

Mas que recorde que ninguém precisa de esquecer para continuar a viver.

Um livro que não prometa o fim da saudade.

Mas que mostre que a saudade pode caminhar ao lado da esperança.

Um livro que diga, com delicadeza, que o amor não morreu no dia da despedida.

Apenas encontrou uma nova forma de permanecer.

Se este livro conseguir fazer companhia a um único coração partido, então já terá cumprido o seu propósito.

Porque foi isso que eu procurei no meio da minha noite.

Companhia.

Não respostas.

Presença.

Não soluções.

Alguém que me olhasse nos olhos e me dissesse que aquilo que eu sentia era humano.

Hoje quero ser essa voz para outras pessoas.

Não porque tenha deixado de sofrer.

Mas porque descobri que o sofrimento pode tornar-nos mais disponíveis para amar.

E talvez seja essa a mais bela herança que o Pedro me deixou.

Ensinou-me que o amor não termina quando uma vida termina.

Transforma-se.

Alarga-se.

Acolhe.

Abraça.

Ilumina.

E continua a escrever.

Porque, no fim, compreendi aquilo que um dia pensei ser impossível compreender.

A morte mudou o rumo da minha história.

Mas foi o amor que escreveu o resto das páginas.

E enquanto eu viver, haverá sempre mais uma página onde o nome do Pedro continuará a ser escrito.

Não com tinta.

Mas com amor.

Rute Reis Figuinha

💙 

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