Quando um filho morre, há uma parte de nós que morre com ele.

Não é uma frase feita.

É uma realidade que só quem atravessou esta perda consegue compreender.

Nesse instante, o mundo deixa de fazer sentido. As perguntas multiplicam-se, o silêncio torna-se ensurdecedor e o coração passa a carregar um peso para o qual ninguém nos preparou.

É natural que, nos primeiros tempos, sintamos que ninguém é capaz de compreender a dimensão da nossa dor.

Nem os amigos.

Nem a família.

Nem, por vezes, quem também nos ama profundamente.

O luto de um pai e de uma mãe é um território muito solitário.

E talvez seja precisamente por isso que tantas pessoas hesitam em procurar ajuda psicológica.

Há quem pense:

“Nenhum psicólogo me pode devolver o meu filho.”

E é verdade.

Ninguém pode.

Mas talvez essa nunca tenha sido a missão da ajuda psicológica.

Um psicólogo não existe para apagar a dor.

Existe para ajudar a que a dor não apague quem somos.

Existe para caminhar ao nosso lado quando sentimos que já não conseguimos dar mais um passo.

Existe para nos oferecer um espaço onde podemos dizer tudo aquilo que tantas vezes escondemos de quem nos rodeia.

A culpa.

A revolta.

O medo.

O cansaço.

A vontade de desistir.

A sensação de que a vida perdeu o sentido.

Sentimentos que assustam quando ficam presos dentro de nós.

Na consulta, não precisamos de fingir que estamos bem.

Não precisamos de proteger ninguém.

Não precisamos de esconder as lágrimas.

Podemos simplesmente ser.

Ser pais.

Ser mães.

Ser pessoas profundamente feridas.

E, muitas vezes, é nesse espaço de escuta que algo começa, lentamente, a transformar-se.

Não a perda.

Essa permanecerá.

Mas a forma como carregamos essa perda.

A ajuda psicológica não ensina a esquecer.

Ensina-nos a viver sem sentir que estamos a trair quem partiu.

Ajuda-nos a compreender que voltar a sorrir não significa amar menos.

Que continuar a viver não significa abandonar um filho.

Que a culpa não é uma prova de amor.

E que a saudade pode existir sem destruir tudo o resto.

Há momentos em que o coração precisa de mais do que a força de vontade.

Precisa de companhia.

Precisa de alguém que saiba permanecer em silêncio quando não existem palavras suficientes.

Precisa de alguém que conheça os caminhos do luto e nos lembre que aquilo que estamos a sentir é profundamente humano.

Pedir ajuda não é sinal de fraqueza.

É reconhecer que a dor é demasiado grande para ser carregada sozinho.

É perceber que também merecemos cuidado.

Que também temos direito a ser acolhidos.

Durante muito tempo, a sociedade ensinou-nos que pedir ajuda era desistir.

Hoje acredito exatamente no contrário.

Pedir ajuda é escolher continuar.

É dizer à vida:

“Ainda estou aqui.”

“Ainda dói.”

“Mas não quero caminhar sozinho.”

Se perdeste um filho e sentes que o peso da ausência se tornou insuportável, não tenhas vergonha de procurar apoio.

Não porque sejas fraco.

Mas porque és humano.

Porque o amor que sentes pelo teu filho merece ser acompanhado com o mesmo cuidado com que tratarias uma ferida no corpo.

O coração também precisa de cuidados.

Também precisa de tempo.

Também precisa de colo.

E, por vezes, esse colo encontra-se no consultório de um profissional que não vai retirar-te a dor, mas vai ajudar-te a acreditar que ela não precisa de ser a única voz da tua vida.

A morte mudou a tua história.

Mas isso não significa que tenhas de escrever o resto das páginas sozinho.

Aceitar uma mão estendida não diminui o amor pelo teu filho.

Pelo contrário.

É uma forma de honrar esse amor, escolhendo cuidar da pessoa que ele mais amava: tu.

Porque continuar a viver também é um compromisso com esse amor.

E, às vezes, a decisão mais corajosa não é suportar tudo em silêncio.

É ter a humildade de dizer:

“Preciso de ajuda.”

E descobrir que, nesse pedido, pode começar um novo caminho.

Um caminho onde a dor continua presente.

Mas onde a esperança deixa, finalmente, de caminhar tão longe.

💙 

Rute Reis Figuinha

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