Também Precisei de Uma Mão Estendida

Durante muito tempo acreditei que tinha de conseguir suportar tudo sozinha.

Afinal, eu era a mãe do Pedro.

Se havia alguém que tinha de encontrar forças para continuar, era eu.

Dizia a mim própria que ninguém poderia compreender verdadeiramente a dor de perder um filho. E, no fundo, também acreditava que nenhum psicólogo me devolveria aquilo que a vida me tinha roubado.

E tinha razão.

Ninguém pode devolver um filho.

Ninguém pode apagar a saudade.

Ninguém consegue retirar a dor do coração de uma mãe ou de um pai.

Mas um dia percebi que talvez estivesse a fazer a pergunta errada.

Em vez de perguntar: “Quem me pode devolver o meu filho?”, comecei a perguntar: “Quem me pode ajudar a continuar a viver com este amor e com esta dor?”

Foi aí que tudo começou a mudar.

Durante muito tempo, olhei para a ajuda psicológica como se fosse um sinal de que eu tinha falhado.

Como se pedir ajuda significasse que não estava a conseguir amar o suficiente ou que era mais fraca do que os outros.

Hoje vejo essa ideia com muita ternura.

Porque sei que nasceu da dor.

Quando perdemos um filho, queremos proteger tudo o que ainda nos resta. Até a nossa maneira de sofrer parece tornar-se sagrada. Sentimos que ninguém pode entrar nesse espaço. Que ninguém compreenderá aquilo que o nosso coração vive.

Mas pedir ajuda não é entregar a nossa dor a outra pessoa.

É permitir que alguém caminhe ao nosso lado enquanto aprendemos a carregá-la.

Um psicólogo não substitui um filho.

Não apaga a ausência.

Não elimina as lágrimas.

Mas pode oferecer algo de profundamente humano.

Escuta.

Presença.

Um lugar onde não precisamos de ser fortes.

Um lugar onde podemos dizer aquilo que tantas vezes escondemos da família e dos amigos.

A culpa.

A revolta.

O medo de voltar a sorrir.

O medo de esquecer.

O medo de que a vida continue.

Sentimentos que tantas vezes guardamos em silêncio por receio de sermos julgados.

Aprendi que falar da dor não a torna maior.

Pelo contrário.

Quando a dor encontra um espaço seguro, deixa de nos sufocar da mesma maneira.

Não desaparece.

Mas deixa de nos prender completamente.

Gostava que quem lê estas palavras soubesse que procurar ajuda não significa desistir.

Significa acreditar que também merecemos cuidado.

Passamos tanto tempo a cuidar dos outros que, por vezes, nos esquecemos de que o nosso coração também precisa de colo.

Também precisa de ser ouvido.

Também precisa de descansar.

Nenhuma mãe ama menos o seu filho por procurar apoio.

Nenhum pai honra menos a memória do seu filho por aceitar ajuda.

O amor não se mede pela quantidade de sofrimento que conseguimos suportar.

O amor mede-se pela profundidade do vínculo.

E esse vínculo continuará intacto, independentemente de decidirmos caminhar acompanhados.

Se hoje partilho esta reflexão é porque sei que há alguém desse lado que talvez esteja a pensar exatamente aquilo que eu pensei um dia.

“Tenho de conseguir sozinho.”

Não.

Não tens.

O luto já é suficientemente pesado.

Não acrescentes ao peso da perda a obrigação de carregares tudo sem ajuda.

Há pessoas preparadas para caminhar ao teu lado.

Não para te dizerem como deves sentir.

Mas para te ajudarem a compreender que aquilo que sentes é humano.

Se um dia decidires procurar ajuda psicológica, não o vejas como uma derrota.

Vê-o como um gesto de amor.

Um gesto de respeito por ti.

Pela tua história.

Pelo teu filho.

Porque acredito, com toda a sinceridade, que quem nos ama verdadeiramente nunca desejaria que enfrentássemos a maior dor da nossa vida completamente sozinhos.

Hoje continuo a sentir saudades do Pedro.

Continuo a amar o meu filho com a mesma intensidade.

Continuo a desejar que a sua história tivesse sido diferente.

Nada disso mudou.

Mas aprendi que aceitar uma mão estendida não enfraqueceu o meu amor.

Ajudou-me, isso sim, a continuar a viver para que esse amor pudesse continuar a transformar vidas.

E talvez seja essa a mensagem que mais gostaria de deixar.

Pedir ajuda não significa que a dor é maior do que tu.

Significa apenas que reconheces algo profundamente humano:

Há caminhos que são demasiado difíceis para serem percorridos sozinhos.

E não há vergonha nenhuma em permitir que alguém caminhe ao teu lado durante uma parte deles.

Rute Reis Figuinha

💙 

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