Há dias em que me perguntam porque não partilho fotografias novas do Pedro.
E a resposta é tão simples quanto dolorosa.
Porque não existem.
O tempo, para o meu filho, parou há sete anos.
Não há uma fotografia do último verão.
Não há imagens de um aniversário mais recente.
Não há um Natal onde o seu rosto tenha envelhecido um pouco.
Não há cabelos brancos a aparecer.
Não há marcas do tempo.
Não há novas memórias para guardar numa moldura.
O álbum da vida do Pedro ficou fechado demasiado cedo.
E, às vezes, isso dói de uma forma difícil de explicar.
Vivemos numa época em que todos os dias surgem novas fotografias.
Os filhos crescem.
Mudam de escola.
Tiram a carta de condução.
Entram na universidade.
Começam a trabalhar.
Casam.
Têm filhos.
As redes sociais enchem-se de novos capítulos.
Eu olho para as minhas fotografias.
E elas continuam exatamente iguais.
Não porque o amor tenha parado.
Mas porque o tempo deixou de escrever novas imagens da vida do meu filho.
Confesso que, durante muito tempo, isso me entristeceu profundamente.
Sentia que o mundo continuava a construir memórias enquanto eu regressava sempre às mesmas fotografias.
Ao mesmo sorriso.
Ao mesmo olhar.
À mesma idade.
Como se a vida tivesse carregado no botão de pausa apenas para ele.
Mas um dia percebi uma coisa.
As fotografias contam apenas aquilo que os olhos conseguem ver.
O amor conta tudo aquilo que uma fotografia nunca conseguirá mostrar.
Porque, embora não existam novas imagens do Pedro, existem novas formas de o amar.
Existem novos gestos inspirados por ele.
Existem novas pessoas que chegam até mim através da sua história.
Existem abraços que nasceram porque um dia decidi falar dele.
Existem lágrimas partilhadas.
Existem mãos que se encontraram no meio da dor.
Existem vidas que voltaram a acreditar que é possível continuar.
Tudo isso também faz parte da história do meu filho.
Só que não cabe dentro de uma fotografia.
Hoje continuo a olhar para as mesmas imagens.
Conheço cada detalhe delas.
Cada expressão.
Cada sorriso.
Cada instante congelado no tempo.
E, curiosamente, já não sinto apenas tristeza.
Sinto gratidão.
Porque aquelas fotografias lembram-me que o Pedro existiu.
Que foi amado.
Que amou.
Que deixou uma marca impossível de apagar.
É verdade.
Nunca terei uma fotografia dele aos vinte e cinco anos.
Nunca saberei como o tempo lhe desenharia o rosto.
Nunca poderei partilhar uma imagem nova para mostrar como está hoje.
Essa é uma das muitas dores silenciosas do luto.
Mas também descobri que há algo que continua a crescer.
O amor.
Esse nunca ficou preso aos dezoito anos.
O amor amadureceu comigo.
Aprendeu a existir sem presença.
Aprendeu a sobreviver à ausência.
Aprendeu a transformar saudade em encontro.
Por isso, quando partilho uma fotografia antiga do Pedro, não o faço porque fiquei presa ao passado.
Faço-o porque aquela imagem continua a ser uma janela aberta para um amor que nunca envelheceu.
As fotografias pararam no tempo.
O amor, esse, continua a caminhar.
Continua a ensinar-me.
Continua a inspirar-me.
Continua a aproximar pessoas que nunca se conheceram, mas que reconhecem umas nas outras a linguagem universal da saudade.
Talvez um dia deixem de existir fotografias novas do meu filho.
Mas nunca deixarão de existir novas formas de o amar.
Porque há histórias que já não podem ser escritas com imagens.
São escritas com gestos.
Com palavras.
Com memória.
Com esperança.
E, sobretudo, com um amor que o tempo nunca conseguiu parar.
As fotografias ficaram com dezoito anos.
O meu amor por ele continua a crescer, todos os dias.
E talvez seja esse o maior milagre do amor.
Mesmo quando o tempo para, ele encontra sempre uma forma de continuar.
Rute Reis Figuinha
💙
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