A Minha Escrita Nasceu da Verdade

Nunca pensei que um dia as minhas palavras pudessem chegar ao coração de tantas pessoas.

Na verdade, eu não comecei a escrever para ensinar ninguém.

Comecei a escrever porque o silêncio já não cabia dentro de mim.

Escrevi porque havia uma dor que precisava de encontrar um lugar onde pudesse respirar. Escrevi porque o amor pelo meu filho era demasiado grande para terminar no dia em que ele partiu. Escrevi porque descobri que, quando as lágrimas encontram palavras, deixam de ser apenas sofrimento e transformam-se em encontro.

Com o tempo, percebi que a minha história já não era apenas minha.

Cada texto que partilhava encontrava alguém que dizia:
“É exatamente isto que eu sinto.”

E foi aí que compreendi que a minha missão nunca foi escrever sobre a morte.

A minha missão é escrever sobre o amor que permanece.

Não procuro esconder a dor.

Seria desonesto fazê-lo.

O luto dói.

Há dias em que a saudade pesa mais do que consigo explicar.

Há datas que continuam a roubar-me o fôlego.

Há momentos em que o coração ainda pergunta “porquê?”.

Mas também descobri que a verdade não vive apenas na dor.

Vive no amor que ficou.

É esse amor que me levanta quando a saudade me quer prender ao chão.

É esse amor que me faz acreditar que o nome do meu filho continua a ter uma missão neste mundo.

É esse amor que me leva a escrever, a abraçar outras pessoas através das palavras e a lembrar-lhes que não estão sozinhas.

Não escrevo frases bonitas para aliviar o sofrimento de ninguém.

Escrevo aquilo que vivi.

Escrevo aquilo que continuo a viver.

Escrevo aquilo que muitas pessoas sentem, mas não conseguem dizer.

Talvez seja por isso que quem lê os meus textos se reconhece neles.

Porque não encontra respostas perfeitas.

Encontra verdade.

E acredito que a verdade tem um poder extraordinário.

Quando alguém se sente compreendido, deixa de lutar sozinho.

Quando alguém percebe que as suas lágrimas são normais, a culpa começa a perder força.

Quando alguém descobre que pode continuar a amar sem deixar de viver, nasce uma esperança diferente.

Uma esperança que não promete o impossível.

Uma esperança que não apaga a saudade.

Uma esperança que caminha de mãos dadas com a dor.

Se hoje continuo a escrever, não é porque tenha vencido o luto.

É porque aprendi que o amor pode transformar a dor em presença.

Cada palavra que partilho é uma forma de dizer ao meu filho que continuo a levá-lo comigo.

Cada texto é um abraço oferecido a quem acredita que nunca mais conseguirá respirar.

Cada reflexão é uma pequena luz acesa na vida de alguém que atravessa a noite mais escura da sua existência.

Se existe alguma força naquilo que escrevo, ela não vem de mim.

Vem do amor.

Porque foi o amor que me ensinou a levantar depois de cair.

Foi o amor que me mostrou que a morte pode interromper uma vida, mas nunca consegue interromper aquilo que um coração escolheu guardar para sempre.

Essa é a verdade da minha escrita.

Não nasceu da coragem.

Nasceu do amor.

E enquanto o amor continuar vivo dentro de mim, continuarei a escrever.

Não para ensinar ninguém a deixar de sofrer.

Mas para recordar, todos os dias, que nenhuma perda é maior do que o amor que lhe deu origem.

Porque é dessa verdade que nasce a esperança.

Rute Reis Figuinha

💙 

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