A Esperança Mora ao Lado da Dor

Disseram-me muitas vezes que o tempo haveria de aliviar a dor. Nunca acreditei totalmente nisso. O tempo não apaga uma ausência. Não devolve um filho. Não faz esquecer o som de uma gargalhada nem o brilho de um olhar.

O tempo faz outra coisa. Ensina-nos a carregar o peso sem deixar de caminhar.

Durante muito tempo pensei que, se voltasse a sorrir, estaria a trair o meu filho. Como se a tristeza fosse a única forma de lhe provar o meu amor. Um dia percebi que era precisamente o contrário. O amor que sinto por ele não precisa da minha infelicidade para existir. Precisa apenas de continuar vivo dentro de mim.

Foi nesse dia que compreendi que a esperança não é o fim da dor. É o princípio da vida depois dela.

Continuo a sentir saudades. Continuo a ter dias em que o coração pesa mais do que o corpo. Continuo a imaginar conversas que nunca teremos e abraços que ficaram por dar. Nada disso desapareceu.

Mas também continuo a acreditar que o amor não morreu.

Quando ajudo alguém que sofre, o meu filho está presente. Quando abraço quem precisa de um abraço, ele está presente. Quando escrevo para que outra mãe ou outro pai sintam que não estão sozinhos, ele está presente.

Talvez seja esse o verdadeiro milagre da esperança: perceber que quem amamos continua a transformar o mundo através de nós.

Não escolhi esta dor. Nunca a escolheria.

Mas posso escolher aquilo que faço com ela.

Se a dor me tornou mais humano, mais atento ao sofrimento dos outros, mais disponível para amar sem condições, então o meu filho continua a ensinar-me todos os dias.

A esperança não venceu a dor.

Aprendeu apenas a caminhar ao lado dela.

E, curiosamente, é essa caminhada que hoje me mantém de pé.

💙

Rute Reis Figuinha 

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