Há perdas que nos dividem a vida em duas partes. Existe um antes, cheio de planos, rotinas e certezas. E existe um depois, onde aprendemos que o mundo pode continuar a girar mesmo quando o nosso coração parece ter parado.

Quem nunca perdeu alguém profundamente amado talvez pense que a maior marca do luto é a dor. Mas quem vive essa realidade sabe que a dor é apenas uma parte da história. A outra parte, muitas vezes invisível, chama-se amor.

É esse amor que nos faz sentir saudades.

É esse amor que nos faz fechar os olhos e recordar uma voz, um sorriso, um abraço.

É esse amor que continua presente quando tudo o resto parece ter desaparecido.

Costuma dizer-se que o luto nasce da perda. Eu acredito que o luto nasce do amor. Porque só sofre profundamente quem amou profundamente.

A perda mostra-nos a ausência.

O amor lembra-nos que essa ausência foi, um dia, uma presença extraordinária.

Durante muito tempo pensamos que viver significa escolher entre recordar ou seguir em frente. Como se fosse preciso abandonar quem partiu para conseguir continuar.

Mas o amor nunca nos pede isso.

O amor não exige despedidas definitivas.

O amor apenas muda de forma.

Antes habitava a presença. Hoje habita a memória.

Antes encontrava-se nos abraços. Hoje vive nas recordações que aquecem a alma.

Antes escutávamo-lo numa gargalhada. Hoje reconhecemo-lo no silêncio que nos convida a fechar os olhos e a agradecer o privilégio de ter amado alguém tão profundamente.

É curioso como o amor continua a ensinar-nos mesmo depois da partida.

Ensina-nos a valorizar o tempo.

Ensina-nos a dizer “amo-te” antes que seja tarde.

Ensina-nos a abraçar mais demoradamente.

Ensina-nos a perceber que a vida nunca se mede pelos anos, mas pela intensidade com que amamos.

A perda muda-nos.

Mas o amor transforma-nos.

Há dias em que a saudade aperta tanto que parece impossível respirar. Dias em que uma fotografia, uma música ou um perfume nos devolvem, por instantes, a quem já não podemos abraçar.

Nesses momentos é fácil acreditar que a perda venceu.

Mas basta olhar com atenção para o nosso coração para percebermos que não.

Se ainda conseguimos amar daquela maneira, então a perda não venceu.

Se ainda pronunciamos aquele nome com ternura, então a perda não venceu.

Se ainda encontramos motivos para fazer o bem em memória de quem partiu, então a perda não venceu.

A morte interrompeu uma vida.

Nunca interrompeu o amor.

E talvez seja essa a maior lição que o luto nos oferece.

O amor verdadeiro não termina porque alguém deixa de respirar.

Continua vivo em quem fica.

Continua vivo nas histórias que contamos.

Continua vivo nas escolhas que fazemos.

Continua vivo sempre que decidimos honrar a vida de quem amámos através da forma como vivemos a nossa.

Há quem pense que a esperança nasce quando deixamos de sofrer.

Eu penso exatamente o contrário.

A esperança nasce quando descobrimos que podemos sofrer e amar ao mesmo tempo.

Que podemos chorar e sorrir no mesmo dia.

Que podemos sentir saudades e, ainda assim, acreditar no amanhã.

Que podemos voltar a sonhar sem deixar ninguém para trás.

Porque sonhar não é esquecer.

É confiar que a vida continua a merecer ser vivida.

Não apenas por nós.

Mas também por aqueles que tanto nos ensinaram enquanto caminharam ao nosso lado.

Quem parte deixa-nos uma missão silenciosa.

Continuar a espalhar o amor que recebemos.

Talvez seja por isso que tantas pessoas enlutadas se tornam mais sensíveis ao sofrimento dos outros. Não porque a dor seja um privilégio, mas porque ela lhes abriu o coração para aquilo que realmente importa.

Descobrem que a vida não se resume ao sucesso, ao dinheiro ou às conquistas.

Descobrem que o verdadeiro legado de uma pessoa está na forma como amou e foi amada.

E isso nunca desaparece.

Há uma frase que guardo como uma certeza: o amor é a única herança que aumenta quando é partilhada.

Cada gesto de bondade, cada palavra de conforto, cada abraço oferecido a quem sofre faz com que esse amor continue vivo.

É assim que quem partiu permanece entre nós.

Não apenas na memória.

Mas na transformação que provocou em quem ficou.

Talvez nunca deixemos de sentir saudades.

Talvez nunca deixemos de desejar mais um abraço, mais uma conversa ou mais um dia.

E está tudo bem.

Porque a saudade não é uma inimiga.

É a prova de que existiu um amor tão grande que nem a morte conseguiu apagar.

No fim de tudo, talvez o luto nos conduza a uma verdade simples.

A perda muda o rumo da nossa história.

O amor escreve o resto das páginas.

E enquanto houver amor dentro de nós, haverá sempre uma razão para continuar a viver, a sonhar e a acreditar.

Porque a morte pode levar uma presença.

Mas nunca conseguirá levar aquilo que essa presença semeou no nosso coração.

No lugar onde o amor existe, a perda nunca terá a última palavra.

💙

Rute Reis Figuinha 

#

No responses yet

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *