Luto, Pedro, Saudade, Tristeza

Vou-vos falar de como lido com o meu luto.

Vou-vos falar de como lido com o meu luto.

Não é uma história de encantar nem de ficção, é mesmo uma dura realidade que se abate sobre mim como um torpedo que me dilacera cada pedaço do meu corpo sem que seja possível escapar a própria alma.

Todos os dias escrevo três ou quatro textos, onde falo da minha dor e expresso os meus sentimentos.

Como tenho vindo a ler em alguns livros que se cruzam comigo na minha dura caminhada, eles ajudam-me a desabafar tudo o que tenho na minha alma.

Fazem-me sentir mais leve e sei que muitos pais que vivem a mesma agonia, podem com eles encontrar um pouco de conforto e um pouco de calor humano mesmo que seja através de umas palavras escritas numa rede social.

Tenho pessoas que se cruzaram na vida do meu filho e na minha e nem sequer uma palavra me disseram, a essas pessoas só me resta agradecer, porque hoje só me ajudaram a perceber que me enganaram com gestos e palavras que não era de coração.

Não fico zangada, fico triste e aliviada porque pensei que se tratavam de amigos que não são.

Mas a vida é mesmo assim.

A morte é como um filtro, onde as pessoas ou se aproximam ou se afastam de ti.

Se elas chegarem a ler este texto irão descobrir quem são.

A ver se me entendem, uma mãe ou um pai defilhado, não precisa que sintam pena deles.

Somos seres humanos que temos que continuar a viver com todas as privações que encontramos.

Não somos diferentes dos pais que tem os seus filhos vivos, só temos filhos que se tornaram anjos.

Os olhos não vêm, mas o coração sente-os a cada segundo que vivemos.

O nosso filho está connosco e nós senti-mo-lo.

Muitos de nós fechamos-nos numa masmorra e recusamos ver o sol, sentir a chuva e outro qualquer sentimento ou sensação de bem-estar.

Acreditam verdadeiramente que se o destino lhes privou ao seu filho o prazer de viver, que a eles também não lhes custará nada, serem privados das mesmas sensações.

Eu penso um pouquinho diferente. É um fato que não vivo com a mesma alegria que já vivi um dia, e choro em cada momento que recordo que o meu filho Pedro passou por ali, ou que fazia o mesmo que aquele jovem que se cruza comigo está fazendo.

Aliás atrevo-me mesmo a dizer que eu vejo o Pedro nos meus outros dois filhos. Em brincadeiras, acções, conversas e ideologias. Mas não o confundo! O David e o Francisco São seres únicos assim como também o Pedro o foi em vida.

Eu encontrei o poder da cura na leitura e na escrita. Escrevo muito e vocês nem imaginam o quanto, as canetas não me chegam e vou terminando uma a uma, e os cadernos já fui comprando alguns, que aguardam pelo meu testemunho.

Vocês podem não entender, mas quando escrevo, sinto-me próxima do meu Pedro. Ele herdara isso de mim. O Pedro adorava escrever e chegou mesmo a escrever um livro que confesso, ainda não tive força para o ler.

Como vêem, eu também tenho os meus momentos de fragilidade. Existem obstáculos que ainda não consegui superar. O luto é mesmo assim! Memórias, sentimentos, sonhos interrompidos e desejos, todos juntos ao mesmo tempo, bombardeando o nosso pensamento, a nossa vida.

Não existe um luto perfeito, não existe um modelo a seguir.

Mas quem sabe, que com o pouco que lerem, consigam devagarinho ir encontrando do vosso jeito numa palavra, uma frase, ou num gesto um pouco de esperança para poderem vir mais tarde a voltar a sorrir.

Vou-vos por último neste testemunho partilhar o poder do meu actual sorriso.

Sorriu todos os dias para ele, quando me cruzo com as suas fotografias. Esta por exemplo que anexo neste testemunho é uma delas. É impossível não sorrir! O meu amor está ali, num momento captado pela objectiva da minha Câmara. Riu à gargalhada em algumas das memórias que recordamos em família. Sorriu para ele cada vez que lhe dou um beijo de bom dia. Agradeço-lhe com um obrigado verbalizado e um sorriso espelhado no meu rosto cada vez que a borboleta passa por mim.

São as minhas pequenas partículas de ar que me vão permitindo respirar um pouco de cada vez.

Tudo o que eu leio sobre a morte ultimamente, faz-me crescer e fortalecer.

Cada vez mais, acredito que ele está comigo, e isso é o suficiente para me acalmar a dor.

Se és uma mãe ou um pai que se trancou dentro da masmorra, por favor, permite-te a respirar um novo ar. As tuas células, precisam de continuar vivas! Só assim iremos conseguir honrar os nossos filhos. Vivendo o que a eles não lhes foi permitido em vida.

Com Carinho,

Mãe do meu filho tem asas.

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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1 Comment

  1. Heliete Guimaraes Reis says:

    Qieroda adorei sua história e de como você lida com o luto,somos sobreviventes da dor e da saudade.
    Morremos um pouco qando seputamos nossos anjos…no mei cado uma anjinha linda que só nos deu felicidades e orgulho.
    Se choro minha amiga?
    Todos os dias,hoje um choro sem desespero.
    A saudade não tem dia,hora e tempo de validade ela e infinita enquanto estivermos nesse plano,até o dia do reencontro e ele será inevitável,e lindoo tenho certeza,enquanto isso vivo de memórias e fotos que tenho e essas sim! ninguém pode tirar de mim.
    Amiga você me representa com seu texto lindo e comovente.
    A cada história que leio sobre mães que entregaram seus filhos para Deus,me fortaleço e me da motivos para continuar.
    Bjos de luz e abraços Frateno
    De uma mãe “coragem”
    Sobrevivente da dor e da Saudade.

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