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Vivo feliz e triste ao mesmo tempo!

Eu vivia ancorada numa saudade que não era minha de verdade.
Uma saudade que me foi imposta pela tua ausência em tudo o que me rodeava.
Mas aprendi que não tenho que viver agarrada a um passado que já não é meu e sim teu.
Um passado que não volta mais.
Um passado que me trespassou a alma ao meio e me deixou em pausa durante tanto tempo. E mesmo assim, não sei por quanto tempo mais teriei de viver subjugada a esta verdade que me arrebata todas as madrugadas em que me roubas o pensamento por momentos. E é só por isso que me obrigo a reagir.
Vivo dividida entre o tempo.
Vivo dividida entre o céu e a terra.
A verdade é que por mais que fale em recomeço, nada na verdade recomeça. Simplesmente continuamos este duro desalento que é imposto com o sofrimento por não te ter junto de nós.
A vida de uma mãe defilhada é mesmo assim. Viver na corda bamba. Viver com a memória de dias felizes que tivemos.
Viver chorando mesmo que não nos permitam. Viver sorrindo imposto pela sociedade.
Viver triste e acordar triste todos os dias.
Vivendo as memórias que em muitos dos dias me puxam o mundo debaixo dos pés.
Tenho vários momentos do dia que tenho que me obrigar a viver de verdade.
Obrigar a acreditar que tu estás bem.
Obrigar a acreditar que me acompanhas em tudo o que faço e projeto.
Obrigar a viver porque não aceito a tua decisão mesmo que me imponha todos os dias a essa aceitação.
Hoje num dia que se assinala o nascimento do teu mano Francisco, sinto-me dividida.
Feliz e triste ao mesmo tempo. Envolta das memórias de te receber perto de mim acompanhado do teu mano David somente com o objectivo de conheceres o mais novo elemento da nossa familia. Um membro que tanto pediste para poderes proteger e amar.
Depois de o teres nos teus braços não o querias mais deixar. Apesar do alargamento da hora, não querias sair dali. Querias ficar junto ao mano fazendo festinhas e dando imensos beijos, ao mesmo tempo que dizias ser um bebé muito lindo.
Sabes Pedro…
Sempre pensei e imaginei que te iria ter como meu aliado. Lutando, ensinando e protegendo o teu irmão cassula em tudo o que projetasses na vida. Mas enganei-me. Enganaste-nos a todos.
Privaste-nos da maior riqueza de todas, que era o de te poder ver crescer e vencer todas as lições que a vida nos pode dar.
Doi demais ver que todos seguem o seu rumo e que o teu não existe mais.
Chego a verbalizar que não quero mais esta realidade a que sou e fui obrigada a enfrentar.
Vejo amigos teus a namorar. Vejo migos teus a se formar. Vejo amigas tuas se enamorarem da vida e a conceberem vidas. E tu?
Tu nada! Isso é que é. A verdade nua e crua e terminada com um grande ponto final.

A tua família nem sabe o que sente de verdade.

“Vamos bem! Estamos bem!” É só o que nos apraz a dizer. E em verdade digo… Ninguém sabe o que sentimos.
Ainda no outro dia quando escrevi o meu texto da ida ao hospital fui contatada por alguém que me ofertou mais um sopro de luz pelo ser maravilhoso que eras.
Esse alguém partilhava comigo os teus últimos momentos naquele espaço de hospital.
Pedias desculpa pelo transtorno causado a todos, pelo trabalho que lhes estarias a dar. Arrependias-te da decisão. Agradecias o esforço dos mesmos. Creio não estar enganada que naquela hora já sabias que irias morrer e por isso tentavas pedir desculpa pelo acto impensável que a tua dor profunda te fez fazer.
Infelizmente não tiveste oportunidade de ser absolvido meu amor.
Não pudeste voltar para os nossos braços e pedires perdão.
Mesmo abraçada pela dor, eu perdoaria e não te largaria nunca mais.
Assim como te perdoei por me teres deixado aqui à deriva neste alto mar que se define como vida, envolta de muitas tempestades.
Assim é a vida de uma mãe defilhada.
Uma mãe que já teve tudo e hoje não têm quase nada.
Porque quando nos morre um filho, seja de que forma for, leva-se muito tempo até acreditar que a vida ainda nos pode agraciar com o seu melhor.
E o pior é que nem todos entendem o que é que simboliza realmente a palavra sobreviver. E ainda bem que não.
Com carinho, e uma terrível saudade.
Focando-me somente em fazer o teu irmão feliz perante a tua ausência, me despeço com pesar.
Amo-te Pedrocas do meu coração.
Minha Rocha.
A tua mãe.

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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