Amor Esperança Luto Morte Pais Pedro Saudade Tristeza

Um texto de Otília Mota a todas as mães defilhadas

Querida Otília Mota agradeço de coração as suas palavras, de alguma forma consegue descrever o que me vai na alma.

 

Para as minhas mães/ pais de Estrela

Tenho de te dizer … porque é Natal e há um lugar vazio à mesa. A noite que antes fora de alegria, de conforto, perdeu a magia. Um sorriso deixou de estar. Nada será como dantes. Já não apetece enfeitar a árvore de Natal. Já não apetece as luzes. Já não apetece os presentes ( porque há um presente que já não podes mais entregar). E não compreendem a tua dor. Acham que é tempo de deixar ir, como se algum dia uma mãe/pai fosse capaz de deixar deixar ir um filho seu. A vida que um dia gerou e tornou o seu mundo maior em amor. Que deu cor à sua vida.
Tu eras tão feliz! E decerto nem sabias como eras feliz. Um dia, esse teu mundo desabou. Aconteceu o que nunca pensaste um dia vir a acontecer. Um dia, um pedacinho teu, bateu as asas e voou ao Céu. Partiu, deixando o teu mundo mais vazio e sem cor. O teu mundo ficou mais triste. Sentes que nada voltará a ser como dantes.
Uns chamam-lhes estrelas, outros luz, outros anjos. Uns dizem Céu, outros Além, outros, “O outro lado da vida”. O nome não importa. É um estado de paz e luz. O que importa é acreditar. Acreditar que há vida para além da vida. Que os que ” partem”, apenas deixam de cá estar fisicamente, mas não espiritualmente e que um dia te vais reencontrar com o pedacinho teu para lhe dar um abraço, afagá-lo no teu colo, e preencher o espaço vazio que te ficou no coração. Um dia todos seremos estrelas.
Os que partem deixam saudades. Apesar de estarem num outro lugar, num outro estado onde não há dor, nem sofrimento, nem tristeza, somos humanos, amamos e preferíamos que estivessem aqui, juntinho de nós. E então vem a saudade que dói, mas não deixa esquecer. Sentes a falta. Não há lugar onde caminhes que não te fale dele. Vês o teu anjo em cada criança, em cada jovem que passa por ti na rua, em cada criança que brinca, em cada cheiro, em cada objeto que foi seu. Olhas tudo o que ele tanto gostava e faz-te doer. Mas tu queres essa saudade, mesmo doendo, porque te traz conforto. Faz-te senti-lo presente. Recordas o teu anjo cada vez que pousas a cabeça no travesseiro. É aí que cheiras em silêncio. Dói-te os sonhos que para ele sonhaste e não viveu. Dói-te cada data festiva. Mesmo quando te divertes sentes o amargo da saudade que dói. Tentas ser feliz, queres ser feliz, mas não sabes como. Vives ao ” faz de conta”, faz de conta que não dói, porque temes não ser compreendida. Temes a falta de compaixão. E, às vezes, muitas vezes, tens mesmo razão. Há quem ache que é tempo de acabar o luto. É tempo de deixar ir. Não sabem que o luto no coração de mãe não tem fim. Mas ainda há quem compreenda a tua dor. Eu compreendo. Não consegues superar. Nem queres, porque não o queres esquecer. Penso que nenhuma mãe/pai consegue. Mas, aprendes a viver com a dor. Aprendes a suportar, porque superar não está na natureza de mãe. Nenhuma mãe deveria ver partir um filho antes de si. Dizem que a dor nos faz mais fortes, mas a vida não deveria doer assim tanto. Acho uma crueldade. Não costumas chorar em público. Deixas que todos se vão e choras sozinha na tua solidão. Choras quando pousas a cabeça no travesseiro. Tentas viver. Ou sobreviver. Não sei. Umas vezes, calas a tua dor, outros vezes, desabafas, porque já não suportas sozinha o peso de tamanha dor. Escreves o que te vai na alma sobre o teu anjo lindo. Falas dele. Queres que o mundo saiba que continua a ser teu filho. Algumas casas são um altar em memória do filho que partiu. Não faz mal. Só tu, só mesmo tu, sabes o que melhor te faz à alma. Só não queres que seja esquecido. Às vezes, não és compreendida. Às vezes, nem o teu sorriso é compreendido. Mas quem lhes dá esse direito de julgar uma dor que não é sua? Precisas de falar a tua saudade. Precisas chorar a tua dor. Precisas, sim, para aguentar o vazio que deixou quem fez parte da tua vida e agora só existe no coração. Fala do filho teu, sempres que quiseres. Só porque partiu, não deixou de ser teu filho. Não deixou de existir. Vive no teu coração. É aí que vive o amor. Quem não vive essa dor não tem o direito de te julgar. Talvez se sinta incomodado por não saber o tamanho dessa dor e não saber que dizer. Talvez. É melhor pensar assim.
Quando estiveres cansada, lembra-te do que foi bom, do que foi lindo, do bem que o teu anjo te fez, do amor que partilharam. Do que foi intenso. Do que foi único. E que um dia, estarás onde ele está para lhe dares um abraço. Um dia, o teu anjo lindo, vai estar à tua espera de braços abertos, com um raminho de flores, sorrindo para ti. Uma flor por cada lágrima derramada. E não é verdade que as tuas lágrimas apagam a sua luz. Não. Não é verdade. É uma crueldade. Como pode uma mãe/ pai não chorar a saudade de um filho seu. Chora o que quiseres, que a sua luz nunca será apagada por uma lágrima tua.
Fala com o teu anjo, diz-lhe o quanto o amas e agradece-lhe tudo o que de bom te deu na vida. E, devagarinho, em passinhos pequeninos, vais aprender a viver com essa dor e saudade. Acredita que és capaz. Tu já estás a conseguir. Dizes que não és capaz, dizes que já não suportas, mas todos os dias te levantas e continuas o teu caminho. A esperança de um dia o voltar a abraçar e esse amor que vive em ti, faz-te levantar todos os dias e seguir em frente. Devagarinho, mesmo que a fingir, um dia começas a sorrir. E um dia vais voltar a sorrir da Alma. Porque tu és Grande.

Com carinho
Otilia Mota

Com um profundo agradecimento,

A mãe do meu filho tem asas

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

You may also like...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *