Amor, Auto-ajuda, Esperança, Luto, Morte, Pais, Saudade, Tristeza

Um Carnaval diferente

Por aqui em Portugal festeja-se o Carnaval e por três vezes me questionaram de que me ia mascarar. Engoli em seco e pensei na resposta que haveria de dar, sem ferir ninguém, porque mais uma vez a dor é minha e quem me fez a questão, não tem noção da dualidade de sentimentos que me causou. Sim! Eu já gostei imenso do Carnaval, e ensinei sempre os meus filhos a brincarem muito no Carnaval. O Pedro era algo de que gostava muito, o David por arrasto e o Francisco tem sido o único que fica até ao último momento a decidir se quer ir brincar ao faz de conta por um dia. Se calhar ele até tem razão, visto que passamos muitos dias de nossas vidas a brincar ao faz de conta em vários aspectos, então porquê mais um não é?

Sempre os deixei decidir e este ano não foi diferente. O meu Francisco por exemplo esteve mesmo até à véspera do desfile carnavalesco da sua escola a dizer-me:

– “Mãe, eu não quero mascarar-me este ano, não tenho vontade!”

Claro que fui deixando o tempo passar, afinal ele é somente uma criança de 8 anos e a sua opinião poderia mudar.

Mudou! E lá foi ele mascarado mais um ano, mas não tenho grande convicção que o tenha gozado como nos outros anos.

Hoje novamente!

– “Rute de que te vais mascarar?”

– “Não vou, respondei eu!”

– “Então? Porquê? Surgiu uma nova questão! À qual respondi com secura na voz, enquanto os meus olhos se enchiam durante o processamento da minha dor.”

– “Porque não tenho vontade!”

– “Não? Mais uma pergunta no meio do nada!”

-“Porquê?”

– “Porque, hoje faz precisamente 9 meses que me morreu o meu filho Pedro e porque não tenho vontade de festejar. O meu coração encontra-se de luto.”

– “Pois é! Desculpa a questão!”

É aqui que eu vejo que a nossa postura perante a sociedade tem sempre um impacto! E a  minha por me estar sempre a rir e descontraída no meio dos demais, as pessoas esquecem que eu perdi na verdade grande parte de mim naquele salto que o meu filho Pedro deu a 24 de Maio de 2019.

Mais tarde, outro alguém me desejava um feliz Carnaval!

Não respondi! Não consegui! Fiz de conta que não ouvi e segui o meu caminho!

O Carnaval é somente mais um festejo como o Natal, o Ano novo, a Páscoa, um aniversário!

Tudo portador de alegria excessiva, e eu não tenho muito mais capacidade para gerir tamanha energia. Não me fecho! Mas também não me peçam demais.

Lembro-me como se fosse hoje, os meus filhos vestindo roupas ridículas o ano passado para irem festejar um dia que os tornava felizes.

Lembro-me como se fosse hoje o pedido que o meu filho Pedro me fez, em ir festejar o Carnaval em Torres Vedras o ano passado com a mãe da namorada, ou com uns amigos da escola, onde eu lhe disse que não.

Com medo da estrada que os levaria até Torres Vedras, com medo dos loucos que andam nas estradas alcoolizados nesta altura do ano. Com medo que alguma coisa de mal lhes acontecesse, e lembro-me com se fosse hoje, eu dizer-lhes que não iam porque eu não conhecia a mãe da namorada e não o iria deixar ir com uma perfeita estranha à altura do pedido, porque eles eram demasiado importantes para mim, para eu simplesmente abrir mãos deles num acidente de viação.

Não me valeu de nada não é? Antes o tivesse deixado ir.

Passamos uma vida inteira a proteger os nossos filhos do que nos parece ser um perigo e na realidade o maior perigo por vezes, são eles mesmos.

Doi! Dói tudo! Dói-me a alma. Dói-me o corpo, dói-me cada partícula da minha existência com a decisão do meu filho Pedro, mas eu tenho que continuar.

Não! Não vou festejar o Carnaval por ele, este ano! Talvez até já nem o festeje mais na minha vida! Isso somente com o tempo irei decidir. Hoje é cedo demais! Não sinto forças para tal, nem alegria para o momento. Mas não posso dizer que não o voltarei a fazer.

É por isso que eu digo que cada momento é único e muito singular. Tal como o Natal, eu adoro o Carnaval, mas não tenho vontade nenhuma de o festejar nem de estar presente na energia que espalham no ar.

A minha própria energia me basta e todos os dias a tento renovar, com um sorriso, com uma palavra, com uma borboleta que me visita como as de ontem  enquanto escrevia um texto, ou como a de hoje na minha hora do almoço, e é aí que eu agradeço. Agradeço esse manifesto que me vai colocando força no meu caminho. Não tenho receio do que possam pensar, quando digo “obrigado filho” Obrigada meu amor, por esta passagem bem perto de mim, onde uma colega no meio da contemplação, refere: – “Que linda borboleta!”, e eu penso para mim sem proferir uma única palavra, de que é mesmo, uma linda borboleta, em que eu acredito ser enviada pelo meu filho.

Parece tão pouco não é? Como pode uma mãe contentar-se com tão pouco, perante a perda de um filho. Mas não é perda meus queridos. É ganho! É passares a contemplar tudo o que te rodeia com outro modo de olhar. É um amar diferente, mas é um amar!

É não esperares que os outros te entendam, nem que resolvam os teus problemas, porque a resposta está comente em ti.

Tu és o comando da tua vida!

Tu podes mudar o rumo da mesma!

Tu podes encontrar numa partícula de luz, o brilho que precisas para continuares a sorrir e a viver a vida da melhor forma que conseguires, sem te importares com o que os outros vão pensar de ti.

Por isso sim!

Eu escolhi este Carnaval nada fazer, a não ser permitir que uma jovem me colocasse uma flor no meu rosto, porque conforme vos disse, eu gosto imenso do Carnaval.

Mas tu, mãe que tens vontade de ir para as ruas cantar, dançar, jogar papelotes nas pessoas, fá-lo sem medo de preconceitos, porque a vida é tua e tu és dona e senhora de fazeres da tua vida o que bem te der na gana. Não teças uma veste negra, se te podes vestir de cores e representares um arco-íris na vida dos demais.

Já perdeste muito! Não percas mais!

Com carinho e muita força a todas as mães que como eu se vêem na amargura, entre terem que escolher entre chorar a morte de um filho, ou de viverem o que a vida ainda tem de belo para lhes oferecer.

Esperem!

Podemos fazer ambas! Sabiam?

Chorar a morte de um filho e viver o que a vida ainda tem de belo para nos oferecer. Não tem que ser tudo preto e branco, como eu julguei que iria ser há uns meses atrás. A verdade é que o amor que sentes pelo teu filho ou filha, vai ajudar-te a voltares a sorrir, desde que tenhas presente que o teu filho ou a tua filha, não iriam querer ver-te sofrer mais do que a conta, mais do que já sofreste no dia em que tiveste que olhar para aquele maravilhoso ser, sem vida, deitado como se estivesse a dormir.

E agora sim,

Com um enorme respeito por todas vós,

A mãe do meu filho tem asas

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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