Saudade

Três meses

Três meses!

24/05/2019 – 24/08/2019

Três meses já se passaram, três, meses de total ausência da tua presença.
De todos os dias desde que partiste há um dia em particular da semana que eu não conto mais, nem lembro que ele existe a menos que alguém mo recorde.
Sexta-feira tem um gosto muito amargo e por isso mentalizo que é um sábado com 48 horas.
Já o dia 24 será um dia para sempre marcado em todos os meses do ano até ao fim da minha vida.
Três meses e tantas histórias teríamos para partilhar e assim não temos nada.
Eu jamais recuperarei da tua falta. E acredita que me fazes muita.
Lembras-te quando a mãe te dizia que te amava muito? E tu respondia que me amavas mais?
E eu beijava-te e brincando contigo te respondia de volta: “Não Pedrocas! A mãe é que te ama mais.”
E ficávamos ali alguns minutos na brincadeira.
Ainda faço isso com o mano David e com o mano Kiko, só já não posso fazê-lo contigo.
Agora sim filhote, podes constatar de onde te encontras que eu sempre te amei mais.
Hoje de madrugada, procurei pela estrela mais brilhante e falei contigo por uns instantes e em seguida com nosso pai.
“Porquê tudo isto meu Deus?” “Que missão é a minha aqui na terra que tenha que lidar com este sofrimento dilacerante?”
E como sempre não obtive resposta.
Não há uma explicação lógica para eu continuar escrevendo como se estivesse falando contigo.
Sei que para muitos até poderá fazer confusão, mas com lógica ou não, eu escrevo com o coração e com a minha saudade.
Sinto-me bem assim e também me sinto mal.
Três meses filhote em que não ouço a tua voz do momento, as tuas gargalhadas, em que não sinto o toque da tua mão ou do teu abraço. O toque suave dos teus lábios na minha bochecha.
Três meses em que eu não brinco contigo, ou te vejo andar pela casa à tua vontade.
Três meses Pedro que me puxaste o tapete e eu fiquei sem chão.
Leio e relei-o muitos dos meus textos e parece em certos momentos que leio a triste história de alguém, mas não!
Sou eu! Nua e crua, dorida, inflamada, revoltada por tudo o que aconteceu.
Tem dias que certos textos que eu escrevo onde me dão força para continuar me parecem surreais.
Já me tinham alertado para isto, e eu pensei…
Eu consigo! Sou forte! Eu aguento mais esta!
Se é esta a minha triste sina de vida, eu abraça-la-ei.
Mas não é bem assim!
Correndo o risco de ser mal interpretada, a análise mais rebuscada que faço do luto, é mesmo que parece uma ressaca bem forte sem hipótese de recuperação.
Ora estás vivendo dentro de toda a tu dor aquela injecção de energia que te obriga a reagir porque estás viva e tens que cumprir com a tua obrigação de mãe pelos filhos que tens vivos e ele não tem culpa do que sentes. em que tens de cumprir como esposa e dona de casa e não faltar com as tuas tarefas laborais.
Ou a falta e total perda de energia porque estás realmente a sofrer e ninguém pode viver por ti este momento, nem mesmo os que te acompanham na mesma perda.
A ressaca só piora com o tempo. Chego mesmo a pensar para onde foi aquela Rute!
Onde estão as palavras de incentivo às outras mães? E por breves momentos o meu inconsciente fala comigo dizendo-me para ter calma, porque até o mais bravo dos guerreiros tem que ter o seu tempo de pausa. E eu nem guerreira sou.
E aí tranquilizo-me um pouco porque tomo consciência que irá ser assim o resto da minha vida. Altos e baixos, buracos e precipícios para escalar. Não há como escapar.
Nos dias de luto, nunca temos um dia igual ao outro. São todos singulares.
Hoje estou seguramente na ressaca profunda.
Amo-te muito minha Rocha.

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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