Depressão Sociedade Suicídio Tristeza

Todos dizem “estou aqui”, mas não passa de uma ilusão.

Sou eu, quando fico fechado no meu quarto olhando o teto escuro pela ausência da luz do exterior que teimo em tapar com as cortinas e os estores da minha janela.

Sou eu, quando me sinto perdido no meio da solidão. A mesma solidão onde me isolei do mundo e de todos os que me rodeiam.

Sou eu, quando choro, sem vergonha do que possam pensar ou dizer ao verem os meus olhos molhados e vermelhos.

Sou eu, quando penso que estou enlouquecendo por ouvir vezes sem conta aquela voz que me perturba e no final transforma-se na minha única companhia do dia. Porque eu quero! Porque não me identifico com o mundo lá fora, com as pessoas que me cercam, com a hipocrisia, com a maldade, com todos os diabos disfarçados de anjos em ajuda ao próximo. Nem todos dão tudo de si, sem terem algo em troca.

Sou eu, quando me identifico em cada letra de canção triste, onde me define sem complexos, aquilo que eu não tenho forças para dizer por palavras.

Sou eu, quando causo dor a mim mesmo como forma de abafar a dor da alma. Apesar do julgamento, é a única forma que encontro para me aliviar de todo o sofrimento que sinto cá dentro e vive trancado a sete chaves.  Não o faço por mal. Faço-o porque não tenho coragem para algo bem pior, e por isso vou aguentando nesta cena a que chamam de vida.

Sou eu, quando penso na ilusão da felicidade. Algo que nunca chega. Algo que não me lembro de ter sentido uma única vez na minha vida. Chego a pensar que a felicidade não é para mim. Vivo, sinto e respiro infelicidade de toda a maneira que custa-me acreditar que a felicidade seja de facto real. Em verdade penso que ninguém é feliz de verdade. Vestem esse papel na sociedade de modo a não serem julgados em praça publica, ou de modo a não serem afastados da humanidade. Julgam-nos extraterrestres, bichos, animais loucos sem equilíbrio  emocional.

Sou eu, quando choro a noite toda, agarrado a uma almofada que chega a ser a minha única companhia pela noite dentro e no dia a dia da minha casa. Nem a minha família sabe como me sinto. E se ouso falar alguma coisa sobre a tristeza, logo ouço palavras inquisidoras, tais como:

– Cala-te com isso!

– Deixa de ser parvo!

– Toma mas é juizo, já tens idade!

– Faz-te um homem!

– Os homens não choram!

– Arranja mas é uma namorada!

– Pareces um bicho, antissocial.

– Reage e deixa-te de maluquices!

– Para de te fazeres de vitima!

– Já chega de desculpas para não quereres fazer nada!

– Eu sofro mais do que tu, e estou aqui firme!

E muito mais poderia ficar aqui dizendo, sobre o que falam dos depressivos e outros mais.

As pessoas julgam-nos fracos, porque não sabem o tormento que é viver no nosso corpo, na nossa imagem, no nosso desespero, onde muitas são as vezes que pedimos à noite ao deitar, para morrer durante o sono.

As pessoas julgam-nos fracos, porque não conseguimos reagir aos estímulos que nos perseguem a toda a hora com o faz isto, pensa assim, faz assado, frito e guisado.

As pessoas não entendem quando nos pedem  para desistir de sofrer. Não compreendem que é muito mais do que uma simples vontade, entre comer um gelado ou não o comer.

É muito mais forte do que a nossa vontade de viver.

As pessoas não sabem quantas vezes nos passa na mente o cenário da morte. E tão pouco o cenário da vida. Elas não sabem que nos questionamos vezes sem conta como será o morrer. Elas não entendem porque temos mais medo de viver do que partir. A verdade é que não vemos nada de bom no que fica. Porque à nossa volta é somente sofrimento.

Os nossos pais não entendem o nosso sofrimento. Não sabem o que fazer mais para nos ajudar. Não sabem o que pensar. Pensam muitas vezes que o mal começou neles. Na forma como nos educaram, na forma como nos amaram. Mas não poderiam estar mais errados. É que eles não sabem… Mas essas são as únicas memórias boas que retemos. É o que ainda nos agarra à vida. Mas não a todos, infelizmente.

Todos os dias tenho uma voz dentro de mim que não me deixa estar sozinho. Nem sempre essa voz é a que me consola. Por vezes ela só me pede para desistir de tudo e ir com ela. Quando exteriorizo o que a voz me diz, desempenho o papel de louco. Porque estou farto!

Farto dela, de mim e no fundo só quero que ela desapareça. Raramente falo sobre ela, aos que que me acompanham no dia a dia, porque os olhares mudam, a presença transforma-se em ausência e acabo ficando sozinho porque a minha energia incomoda todas as pessoas que me rodeiam no momento.

As pessoas não entendem que quando recuso um passeio, uma saída à noite, um programa diferente, não é por não ter coragem de viver. É porque eu não aguento com mais nenhuma máscara perante uma sociedade que não me vê como eu quero e preciso ser visto.

Eu preciso de ajuda! Mas ninguém está verdadeiramente disposto a ajudar.

Todos dizem um “estou aqui”, mas não passa de uma ilusão, porque na verdade todos se afastam. Pergunto-me várias vezes, se não serão simplesmente como eu, que optam por fazer diferente e colocar uma máscara todos os dias para se fazerem passar por pessoas normais e felizes. Talvez se afastem por se identificarem bem demais comigo e por isso afastam o que julgam fazer-lhes mal. E eu afasto-me porque só vejo hipocrisia à minha volta.

Eu também gostaria de ser assim, mas não consigo. Não seria eu, entendem?

A verdade é que vivemos entre a espada e a parede, impostos pela imagem que a sociedade vende sobre um cidadão feliz de verdade e pune quem ousa ser sincero com o que se sente na realidade.

Ninguém quer saber de verdade como nos sentimos. Só fingem, preocupar-se.

Estão enganados quando dizem que o carnaval são só três dias num ano. Eu vejo todos os dias mascarados levando uma vida dita “normal”. É aqui que me apraz dizer…

Que o Carnaval veio para morar em cada uma das nossas casas. Porque todos vivemos de aparências e medos disfarçados de máscaras de felicidade.

 

(Este texto é a realidade de muitos jovens e adultos espalhados pelos quatro cantos do mundo, pode muito bem ser a minha realidade e a sua que vive num processo de luto, é que não é só o doente mental que sofre. É um texto baseado em partilhas que me chegam como forma de desabafo. Nele estão espelhadas verdades de muitos seres que a meu ver são autênticos sobreviventes.)

Muito respeito.

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas

– Rute Reis Figuinha –

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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1 Comment

  1. Ana Maria Magalhães says:

    Sou mãe de guatro filhos o mais velho e o mais novo estão vivos o dois do meio faleceram um com 3 mês e o outro com 30 anos hoje não vivo vegeto obrigada pelo texto pela ajuda bom dia um abraço

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