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Temos que reagir

Tolstoi escreveu um dia «Para termos felicidade, devemos lançar em todas as direcções, como se de uma aranha se tratasse, uma teia de amor adesiva, e depois apanhar tudo o que nela cai.»

Lembram-se da minha história da aranha? Curioso encontrar análises feitas por grandes filósofos e escritores, onde os ensinamentos vão ao encontro do que vos escrevo hoje depois da análise que faço à minha vida após a morte do meu filho Pedro. Algo muito importante que também li é a que a leitura de livros é muito essencial para que nos sintamos bem com a vida, contudo a informação que de lá absorvemos é crucial aplicar no nosso dia-a-dia. Caso contrário, será o mesmo que querermos muito ler, mas não sabermos, mesmo com todos os livros à nossa disposição.

Tenho lido muitos livros e adquirido sobre depressão, luto, suicídio e vários de auto-ajuda. Apesar de todos eles serem importantes para mim porque me ajudam a saber lidar com as minhas angústias que me envolvem causadas pelo luto, há uns que me ajudam verdadeiramente. Os livros de auto-ajuda. Fazem-me olhar para a morte com uma visão diferente e abraçar a vida com toda a minha força.

Temos que reagir! De nada nos vale ter a sabedoria de como alcançar os nossos desejos se não os colocarmos em prática.

Os abraços que me dão, surgem-me como lufadas de ar fresco. Pessoas que nunca vi na vida, se cruzam comigo na rua ou em espaços comerciais e chamando-me pelo nome pedem-me um abraço. Confesso que são gestos que me aquecem o coração. Um abraço faz milagres, acreditem. É Certo que também me deixam triste no exacto momento, mesmo que eu reaja com um sorriso e uma palavra de agradecimento. Não sei verdadeiramente as razões que me levam estas mães a darem-me um abraço e a emocionarem-se na minha frente, mas eu agradeço. Talvez, o motivo seja mesmo somente esse, serem mães, ou porque passaram pelo mesmo, ou porque têm medo que este infortúnio lhes bata na porta de casa, ou porque sofrem com outros problemas que vivem com os seus filhos, ou simplesmente por compaixão. Não questiono! Não questiono nenhuma delas. Simplesmente aceito e sigo sem saber os seus nomes. Só estas mães sabem o meu.

Obrigada a todas vós!

As pessoas continuam a falar! Todos os dias falam, seja por isto, seja por aquilo, seja porque a Rute é a mãe do Pedro, o jovem que se matou. Não sabem elas que cada vez que o fazem me magoam. Não por ser a mãe do Pedro! Disso eu tenho imenso orgulho e falo-o a todos os que me questionarem. Magoam-me porque ele morreu mesmo e a falta que ele me faz, jamais conseguirão imaginar, porque eu sou a mãe dele e ele era um ser único em toda a sua essência. Só eu sei o que é ficar sem o Pedro enquanto sua mãe, assim como só o meu marido sabe o quanto lhe custa ficar sem o seu filho, bem como todos os que perderam seus filhos nesta dura caminhada da vida sempre presente na morte e vice-versa.

Vejam bem, eu não me importa mais a opinião que os outros tem sobre mim, isto porque a regra básica da vida é viver e isso, comporta viver-se o melhor que se consegue. Claro que o não querer saber mais da opinião dos outros tem muito que se lhe diga, porque não vivemos num mundo isolado e a opinião dos outros por mais que não queiramos importa sim. Mas, podemos dar-lhe menor peso do que realmente as pessoas julgam ter. Por isso é que desisti de me preocupar com a opinião que têm acerca de me ver sorrir ou a dar uma gargalhada, ou até a chorar. O momento quem o vive sou eu e isso é o que realmente importa na verdade.

Dizer-vos que não penso muitas vezes que neste momento concreto me sinto feliz com imensos aspectos da minha vida, iria estar a mentir. Sinto-me feliz com as minhas pequenas conquistas e fico imensamente satisfeita comigo mesma, porque mesmo dentro de todo este pesar que me carrega a morte do meu filho, eu estava errada, em pensar que jamais iria voltar a sorrir ou a olhar para a vida com os mesmos olhos de esperança. Como vos disse outrora acerca da felicidade, ela é composta por diversos fragmentos que se compõem diariamente e nos ajudam a escrever a nossa história. Disse-vos igualmente em outros textos e vídeos meus, “Eu estou viva” e esta é a minha história, que escrevo diariamente. Agora só a mim me resta escreve-la com lágrimas de sangue ou somente as lágrimas salgadas e sorrisos doces de vez em quando.

Sei e tenho a certeza que me observas onde te encontras meu amor.

Confesso que já há uns dias que não tinha sinais do meu filho e pensei que ele já teria ido para outro local que não me poderia mais alcançar. Mas estava enganada! E mais uma vez, fico feliz por me ter enganado. Ontem fiz um presépio com muito amor. Uma pessoa que conheci recentemente gostava imenso de ter um presépio grande e aproximado à realidade das figuras de São José, Nossa Senhora, manjedoira, menino Jesus, vaca, burro e ovelha. Confesso que foi um desafio extraordinário para mim e antes mesmo de abraçar o projecto e de me oferecer para o fazer, pedi auxílio ao meu filho e aos meus anjos guias para me abençoarem. Sei e tenho presente que alguns de vós nem sequer dar valor ao que escrevo irão dar, mas o que seria do amarelo se todos nós gostássemos do mesmo. Não é?

Acreditem ou não, o que é certo é que depois de ter desenhado e recortado todas as peças e já me encontrava nas arrumações, agarro na extensão eléctrica para a arrumar e de baixo da mesma surge-me uma pena branca grande. O que vocês não sonham é que a extensão saiu de um local afastado do sítio onde me encontrava e a mesma foi toda desenrolada por mim, já para não falar que ali não existem pássaros com penas brancas e muito menos daquele tamanho. Ok! Imagino o que vocês possam estar a pensar e é aqui que somente o que eu sinto e vivo me importa. Obrigada filhote por me acompanhares sempre.

Não me levem a mal!

Venho a constatar que me cruzo com pessoas que me fizeram já muito bem, dentro do que lhes foi possível no momento e constato que quando me cruzo com elas nem sempre me lembro no exacto momento de onde as conheço. Nem sempre fui assim, mas hoje sou. E é por isso que lhe dirijo este parágrafo D. Manuela do Ministério Público de Alenquer. Hoje quando nos cruzámos passei todo o momento a pensar de onde a conhecia e tive mesmo para a questionar, mas tive receio. Somente depois de se ter ido embora e eu ter ficado consigo no meu pensamento, é que me lembrei. Lamentei!

Lamentei não ter interagido consigo como eu desejaria, mas o meu pensamento encontrava-se muito longe do momento em que nos conhecemos. Deixo-lhe o enorme beijinho que gostaria de lhe ter dado.

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas.

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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