Gratidão Luto Tristeza

Sou confrontada com a morte mais uma vez – Mesquita 15/11/2019

Sou confrontada com a morte mais uma vez.

Nós é que julgamos que não, mas ela todos os dias nos acompanha. Todos os dias ela aguarda o dia em que se pode manifestar.

Desta vez foi a vez de um querido amigo. Um senhor que tive o imenso prazer de servir enquanto trabalhei no café em Santana da Carnota e mais tarde no café que abri.

O Mesquita!

Ninguém contava com a sua despedida.

Hoje vejo-o como um homem que apesar da sua capa de robustez, era no fundo um ser frágil demais e dócil.

A sua hora chegou e com ele levou uma imensidão de sorrisos. Esposa, filhos, netos, genros e noras e pais com um novo caminhar perante a vida.

Apesar dos momentos horríveis que passei há bem pouco tempo, algo em mim me dizia que eu tinha que estar presente para me despedir de ti. Não vou negar que foi difícil, eu mesma me questionei se faria bem em ir. Mas o facto é que a minha dor com a perda do meu filho Pedro, apagou-me a maior parte dos momentos que vivi na cerimónia fúnebre. Não me lembro de muita coisa. Contudo houve algo que me abanou naquela igreja. O cheiro das flores. O mesmo cheiro característico que inundava a igreja com o cheiro de morte quando o meu filho foi velado. É um cheiro que ficará para sempre gravado no meu cérebro e não será pelas melhores razões.

Sei que gostavas de mim e isso foi o suficiente para ir ao encontro do teu corpo já sem vida. Chamei-lhe de poder do amor. Em que colocamos para trás as nossas dificuldades e medos e fazemos o que é certo em prol dos outros. O poder do amor pelo próximo, moveu-me para ir ao teu encontro e estar com a tua família.

Agradeço a Deus não te ter visto ali deitado à espera somente do momento do adeus à matéria. O caixão não foi mais aberto. Agradeço a Deus de poder manter o teu sorriso aceso na minha mente porque sei que era assim que querias ser recordado.

Fiquei até ao fim, até as flores serem colocadas em cima do morro inacabado por estar a chover, onde o teu amigo coveiro dizia, que perdera mais um amigo e que ainda tinha a dura tarefa de lhe colocar a terra por cima e fui conversando contigo.

Vais fazer muita falta Mesquita à tua Alice e a todos da tua família e amigos que partilhavam o dia-a-dia contigo.

Não é justo que tenhas partido já sem veres os teus netos tornarem-se homens e mulheres, mas o teu corpo débil não te permitiu mais. Todos vão precisar do seu tempo e de espaço para gerirem como conseguirem a falta que lhes irás fazer.

Deixei-te uma flor!

Viste? Eu sei que sim Mesquita. Todos nós assistimos ao nosso funeral e contigo não foi diferente. Deixei-te a minha flor favorita, uma gerbéra, escolhi uma branca que simboliza, paz, serenidade que é o que encontras-te no reino dos céus.

Lembras-te do que te pedi?

Se vires por aí o meu Pedro, dá-lhe um puxão de orelhas e diz-lhe que fui eu quem pediu. E em seguida diz-lhe que o amo muito e que sinto tanto a sua falta.

Sei que muito poucas pessoas falam acerca de um funeral, mas eu gostava de falar acerca do teu. Permites-me? Sei que te encontravas lá e que há tua maneira tentaste acalmar o coração dos mais doridos. Mas deixa que te diga, o teu funeral foi muito bonito.

Havia amor, simplicidade e uma nobreza como eu nunca antes tinha visto.

Foste carregado nos braços dos que te respeitavam e amavam Mesquita, até à tua última morada onde irá repousar o teu corpo.

A missa foi muito bonita e diria que senti cada palavra verbalizada pela boca do Padre da Aldeia que lamento não saber o seu nome.

Durante a mesma foi-me passada mais uma mensagem que me fez pensar no propósito da vida e no propósito da morte. Tenho consciência que para muitos de nós o pensamento que nos assola a mente durante a dor, é que a ressurreição é somente uma forma de não aceitarmos que tudo acabou ali e que não há mais vida para além da morte. Mas eu tenho um pensamento diferente. A morte quando acontece neste plano é somente o terminar deste ciclo, mas não da nossa essência. Essa permanece inalterada. E quando acaba aqui, começa do inicio em outro plano.

Deixem-me partilhar convosco algo que li e que para mim teve um impacto crucial na forma em como passei a encarar a morte, mesmo com todas as suas privações.

Li no livro de Elisa Medhus – “O meu filho está no céu” – que o dia da morte no plano terrestre é igualmente o dia do nascimento e de celebração de vida no plano paralelo ao nosso. Dá que pensar não dá? Erick diz à sua mãe que ela deve celebrar sempre com felicidade o dia da sua morte porque na realidade é sim o dia do seu nascimento junto da fonte divina.

Eu sei, que parece difícil e acreditem que eu mesma não sei se serei capaz de festejar o seu nascimento do outro lado, por ter sido privada de viver na sua companhia, mas posso tentar.

Quanto a ti Mesquita, irás permanecer vivo no meu coração e mesmo hoje enquanto escrevo este texto, vejo-te sorrindo para mim no cantinho do café, de perna traçada e com a tua roupa do trabalho, levantando o dedo da mão solicitando-me mais uma bebida, ou então a vires visitar-me, ou passando por ti e pela Alice na esplanada do Bagga onde parava sempre para vos dar um beijinho.

Foi tão difícil ganhar a tua confiança, o teu sorriso, mas depois que entrei dentro do teu escudo protector, tenho a certeza que não saí mais de lá.

Obrigada pelo tempo que convivemos, obrigada por todos os sorrisos, obrigada por teres tido sempre uma palavra para mim.

Hoje tenho o coração tranquilo porque me despedi da matéria mas não do teu espírito, porque desse não preciso. Irás estar sempre presente em todos os momentos de nossas vidas.

Viemos a cantar juntos pela estrada fora. Pelo menos é nisso que eu acredito. O Mesquita que eu conheci, não iria querer que chorássemos muito, mas sim que celebrássemos a vida mantendo-o vivo em nossos corações.

Beijinho Mesquita e até ao nosso reencontro.

Com amizade e carinho.

A mãe do meu filho tem asas.

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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