Luto Morte Saudade Tristeza

Somos como um castelo de cartas!

Há dias atrás, uma linda menina que eu conheço desde os 6 anos e hoje é uma mulher de 20, partilhou comigo uma novidade que não cabia no seu coração de felicidade.

– Rute! Tenho uma noticia para partilhar contigo! Passei na carta de condução!

Ao ouvir aquelas palavras o meu coração explodiu.

Não que me tenha parecido mal. Eu fiquei imensamente feliz pela conquista dela.

O que me doeu como tudo, foi lembrar-me que o meu Pedro não chegou a concluir a dele.

Não quis esperar pela morte e seguiu na viagem mais longa de sua vida.

Foi impossível o meu coração não sangrar de tristeza, de dor, de pena por lhe ter ficado tanto por viver. E o pior de tudo, foi por sua decisão.

O meu rosto sorria e os meus olhos deixavam escapar um sinal do verdadeiro sentimento que me assolava o coração.

Hoje, foi uma dor diferente!

Um lindo menino por quem eu tenho um enorme carinho e chego a sentir afinidade de mãe, partilhou comigo uma conquista dele. Via-se e sentia-se na voz e no seu olhar, o orgulho com que me dizia que ía viver num espaço só seu e acompanhado.

Foi inevitável eu não sentir logo aquele aperto na garganta quando os nossos filhos nos falam em ganhar asas mas na nossa dimensão. Aqui bem assentes com os pés no chão.

Ainda hoje penso muitas vezes que não sei como irei reagir quando um dos meus filhos sair de minha casa, debaixo da minha protecção.  Mesmo que presentemente eu pense que nada será pior do que a morte do meu Pedro, a verdade é que o facto de não manter a mesma rotina de ver os meus filhos entrarem pela porta da minha casa, me causa uma certa aflição.

Nunca nenhum pai está preparado para a saída de um filho de casa.

Eu pelo menos nunca me senti como tal. Preparada!

Enquanto ele me falava, foi inevitável não chorar.

Na minha mente só passava a mensagem de tudo o que o meu Pedro não irá viver, experimentar.

Alugar uma casa, juntar-se com a sua namorada, construir uma vida, ter um filho e casar.

Voltei a chorar e desta vez de tristeza, o sentimento de perda bateu forte no meu peito e foi difícil de controlar. Mas não o fiz na presença do jovem que partilhava sua alegria comigo.

Um voto de confiança que eu agradeço de coração.

Um jovem que foi amigo do meu filho, que partilhou das mesmas histórias.

Se tem dias que fica difícil, hoje foi um desses dias, porque as cartas perderam o equilíbrio e o castelo caiu pelo chão.

Esta é a nossa realidade enquanto pais defilhados!

Em vários momentos partilhados iremos encontrar motivos para chorar, porque a vida… Essa, não pára! A vida  continua sim! E por mais que não queiramos, iremos sempre encontrar pontos de união com a vida dos jovens que vemos a tornarem-se homens e mulheres.

Mas não é para os nossos filhos que já partiram e deixaram uma saudade terrivelmente agonizante.

Na nossa mente sempre irá permanecer presente, tudo o que o nosso filho ou filha não alcançou, por esta ou por aquela questão.

Para os pais defilhados a luta é constante, a Saudade agonizante, mesmo que nem sempre vocês o vejam.

 

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas

Foto de Rute Reis Figuinha

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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