Amor, Depressão, Irmãos, Luto, Morte, Pais, Saudade, Tristeza

Só quem ama, conta o tempo!

Só quem ama, conta o tempo!

O tempo para mim nunca foi grande factor. Hoje ele tem um peso imensamente doloroso.

Só quem ama, sente a falta do tempo perdido, do tempo que não volta mais.

Só quem ama, sente as cicatrizes do tempo cravada num coração que aperta a cada instante em que lembramos o nosso filho que morreu.

Por mais que as pessoas me digam que jamais te esquecerão, eu sei que as suas mentes as vão atraiçoar, porque os momentos que todos nós vivemos contigo, dia após dia, ano após ano, vai atenuando a lembrança que foi outrora imensamente marcante.

Somente os pais, os irmãos, a família mais próxima jamais te esquecerão. Estás enraizado no nosso peito. Não há como te esquecermos. Todos no nosso meio familiar sentimos a tua falta, a falta do teu sorriso, a falta do teu beijo, do teu abraço, do teu cheiro, do teu jeito de andar, rir, falar.

Vivemos momentos actualmente muito confusos e restritos em todos os sentidos.

Famílias que perdem seus familiares sem um funeral adequado às suas necessidades impostas por um vírus que tudo leva, inclusive o momento da despedida dos familiares e amigos. Um luto que é violentamente interrompido porque não os podem acompanhar até à sua última morada. Famílias privadas de um abraço, um toque, um beijo, da troca das lágrimas que se juntam quando unimos a pele com pele.

O mundo sangra por um lado, enquanto por outro se regenera. A natureza renasce, os animais tomam gosto pela nova realidade, que por uns tempos irá ficar. A Natureza agradece o momento de ar puro que todos nós lhe providenciamos com as nossas privações de andarmos por aí a poluir o mundo.

Acabou-se o consumismo. Acabou-se as idas aos centros comerciais, cafés, estádios de futebol, concertos e muito mais. Mas não será para sempre, como a morte veio para ficar no seio familiar de todos aqueles que choram as mortes de seus familiares e amigos.

Lemos por todo o lado e vemos em todas as redes sociais ou em jornais e programas televisivos, pais que choram por estarem separados de seus filhos. Uns porque as razões familiares de separações lhes impõe esta nova regra de protecção ao seus filhos e idosos.

Pois é! Não consigo ficar indiferente quando observo de longe esta nova realidade, porque apesar de todas as lamentações, a verdade é que depois de tudo isto passar, muitos de vós, se não fordes apanhados pelo vírus em que o vosso destino seja a morte, vão poder de novo abraçar todos os de que se encontram privados no momento.

Já o mesmo não se pode dizer de quem devido à obrigação da morte nos levou os nossos filhos para uma viagem sem regresso ao nosso lar.

Fala-se de tudo! Fala-se da escassez de alimentos, da escassez do papel higiénico, da escassez da areia de gato, da escassez das mascaras, luvas, batas, equipamentos fundamentais para ajudar os doentes a respirar. Mas pouco se fala das famílias que neste momento estão sem o apoio que tinham a nível psicológico, porque os seus filhos lhes morreram. Não se fala da dor que todos estes pais sentem, e já para não falar dos que ainda agora entraram nesta luta diária que é o de querer abraçar a nossa metade e não poder mais.

Preocupa-me as pessoas que sofrem há muito envoltas da depressão. Também ninguém se lembra delas, neste momento e a realidade é que para muitos esta privação de poder ou não sair à rua, vai ser decisivo entre permanecer vivo ou entregar-se à morte.

Eu confesso que não sinto tanto isso, porque todos os dias saio para ir trabalhar, vejo rostos, falo e rio-me com pessoas que se encontram também na linha da frente comigo, garantindo que não faltam os bens essenciais às pessoas, ou melhor, a todos nós. Mas para parte da minha família, esta realidade é bem diferente da minha.

Eles sentem a falta do meu filho Pedro, do irmão, do filho. Eles sentem-se presos dentro de quatro paredes sem poderem realizar as suas rotinas diárias.

Sentem falta dos amigos, dos colegas de trabalho.

Vivemos todos, uma realidade de uma pandemia que veio prejudicar tudo e todos, e acreditem que os piores dias ainda não chegaram. Hão-de chegar! Quando já não tivermos mais forças para reagir a todo este mal, e só nos vai restar, aguentar.

Vai haver muita fome! Vai haver muito desemprego! Vai haver muita doença agravada! E irá resultar em mais morte.

Não! Não estou a ser pessimista! Talvez veja um pouco mais á frente que muita gente, porque já me foi privado muito nesta vida.

No final de tudo isto, quando os mais resistentes se levantarem deste impacto violento à raça humana, alguns vão poder abraçar quem tanto amam e sentem falta, já os restantes irão muitos deles pela primeira vez visitar seus entes queridos que foram derrubados por este vírus e pelas consequências dele nas doenças já existentes.

Nunca pensei viver um tempo tão austero como este. Nunca pensei ver tanto egoísmo patente nas diversas acções humanas. Esta privação veio sim para mostrar a verdadeira essência de muitos seres humanos.

Não vai tudo ficar bem! Não vamos todos ficar bem! Porque muitos morrem pelo caminho, e as famílias nunca mais serão as mesmas.

Com um profundo respeito por todos,

A mãe do meu filho tem asas

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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