Luto, Morte, Pais, Saudade

Silêncio

Pensas que tens tudo controlado e tudo, foge debaixo dos teus pés, sem hipótese de conseguires controlar nada.

És tu quem é controlada.

Sinto-me uma bomba relógio a explodir de sentimentos dentro de mim, sem nenhum controle de como me vou sentir com a triste realidade de que o meu filho não vai mais fazer isto ou aquilo. Tento controlar mas torna-se quase impossível.

Inicio da Escola ano de 2019-2020

O dia começa com a azáfama matinal que comporta um inicio de aulas, chegou o primeiro dia de escola para o Kiko e para o David. Levo-os à escola e tiro a fotografia da praxe com o meu Kiko.

Dirijo-me em seguida a um café para beber um, e encontro uma mãe que já não via a algum tempo. Ainda não tinha tido oportunidade de me abraçar e de me dar os sentimentos. E aqui está o gatilho que desperta em mim a tua falta. Não me consigo controlar e desato a chorar em frente ao senhor do café. Peço-lhe um momento e faço o meu pedido. As lágrimas caem-me pelo rosto sem conseguir controlá-las. É mais forte do que eu.

Entra mais um casal. Foram meus clientes em tempos que fui empregada de balcão, numa loja de telecomunicações. A pergunta da ordem é colocada.

-“Então Rute como estás?”

Respondo: ” Nada bem.” E continuo a chorar. Ainda tento brincar com a situação dizendo enquanto enxugo as lágrimas, “isto hoje não está nada fácil.”

O esposo sem se aperceber e  na expectativa de me dar força, magoa-me sem ter intenção.

-“Então, foste levar o Francisco à escola?”

-“Sim, e o David também.”

-“É isso Rute, tens que te focar nos outros dois que cá tens.”

“Oh! (e digo o seu nome) Eu sei disso!

E tento quanto antes sair dali para fora o mais rapidamente possível.

Tenho consciência que as pessoas não sabem o que dizer perante esta realidade. No meu pensamento só uma frase me assolava.

“Queria ver se fosse um dos teus. Se empregavas as mesmas palavras que agora me dizes.”

Procurei rapidamente o meu carro para me proteger de olhares indiscretos e chorei, chorei imenso de saudade, de dor e de completa perda. De ver todos aqueles jovens a passarem por mim enquanto eu tentava ficar invisível por minutos.

Façam-me um favor!

Dêem-me um beijo ou um abraço, mas remetam-se ao silêncio. Por mais inocentes que sejam as vossas palavras, não têm noção com que intensidade me vão magoar.

O dia-a-dia para os pais desfilhados já é terrível demais. Todas as acções que os outros filhos fazem, o que partiu também o fazia, E é por isso que torna tudo tão difícil.

Não precisamos ser lembrados que temos mais um ou dois filhos para nos focar ou tomar conta.

Vai sempre faltar um entendem?

Um, que não teremos de acordar todas as manhãs,  que não irá mais â escola, que não estará mais com os amigos, a quem não compraremos mais material escolar, nem pagaremos as refeições ou o passe para se deslocar de casa para a escola e vice versa.

Se querem estar para os pais que perderam um filho, no percurso da vossa vida e deles, estejam. Mas em SILÊNCIO.

Não precisam de se afastar, ou de arranjarem desculpas para justificar a vossa ausência. Se vocês gostarem realmente dessa pessoa, vocês tudo irão fazer para que o pai ou mãe desfilhados se sintam acarinhados.

A vida e a morte já nos mostrou o quanto horrível é a perda de alguém por quem daríamos a vida em troca. Não precisamos de mais nenhum ser humano a despertar-nos para essa realidade dura e crua.

Se for o caso de terem amigos ou familiares desfilhados, acima de tudo respeitem-nos.

Respeitem a dor a angústia e a própria raiva que podemos mostrar em algum momento.

É anti-natura lembram-se? Não digam que imaginam, ou que sabem o que um pai ou uma mãe desfilhada vive. É mentira!

Não se enganem a vós mesmos e muito menos a quem sofre com essa realidade.

Soa a FALSO!

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas.

Foto de Rute Reis Figuinha

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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2 Comments

  1. Sandra Rodrigues says:

    Compreendo perfeitamente o que descreve ….. e não porque o tenha vivido , mas porque sou empática e tenho alguma capacidade de me colocar no lugar dos outros …..
    Ocupando o meu lugar e tendo vivido uma experiência aterradora com uma amiga minha , recentemente desfilhada , sempre senti uma necessidade quase em forma de pressão, de dizer coisas que aliviem a dor no seu coração …..sei que vive como os interruptores….umas vezes para “cima”, outras vezes , terrivelmente para “baixo”.
    Tenho-me questionado inúmeras vezes, se não me deveria remeter simplesmente ao silêncio e resumir-me a ouvi-la e estender-lhe os braços para a abraçar , quando assim o quisesse.
    Ao lê-la ( e sei que a minha amiga-irmã também o faz) ajuda-me sem dúvidas a compreender o indizível ….
    Na quinta-feira , caminhei por breves momentos ao seu lado , na escola dos nossos filhos caçulas e sem coragem para me dirigi a si, percebi nitidamente a dor e o “filme agridoce ” que passaria diante os seus olhos. E no meio de tanto sofrimento, percebia-se que os passos eram resolutos e seguros, como os de quem tem uma missão de extrema importância a cumprir – o de ser mãe.
    Despeço-me com um beijo e um forte abraço e desejo que um dia, a carga que hoje pesa e sufoca, se torne mais leve com o passar do tempo.

  2. “You are strong, you are kind, you are beautiful” Permita-se…Tenha o seu momento, leve o tempo que for preciso porque o luto é diferente e incomparável para cada um de nós. Um abraço apertado de mãe para mãe

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