Amor, Gratidão, Luto, Morte, Pais, Pedro, Saudade, Suicídio, Tristeza

Querida Mãe e Querido Pai tantas histórias iguais

O texto que hoje vos escrevo já me soou no meu coração há dois dias, e porque não pára de me soar aos ouvidos eu partilho-o hoje convosco.

Querida mãe e querido Pai,

Chegaste com a tua voz trémula e palavras doridas até á minha página do meu filho tem asas, pedindo-me uma espécie de ajuda, um abraço á distância das tuas palavras tão dolorosamente sentidas.

Sei que posso fazer muito pouco do que gostaria na realidade, que era de ter a capacidade para vos retirar toda esta dor de desespero pela perda de duas filhas. A mim pesa-me a mesma dor pela perda do meu filho Pedro, e isso não é segredo para ninguém.

Leio com atenção todas as vossas palavras que chegam até mim e as mensagens são as mesmas para ambos.

Para ti mãe Maria!

Uma mãe que se sente culpada por não ter feito mais, uma mãe que se sente acabada com a decisão de sua filha por ter abandonado uma vida de sonhos. Mãe Maria, jamais em tempo algum pense assim. Nada do que tenha feito, foi feito com a intenção de magoar esse ser maravilhoso que foi e será sempre seu, mesmo que agora longe da sua vida mas perto do seu coração ela esteja.

Uma mãe que muda de país em busca da felicidade para os seus e para si, não pode ser condenada. Uma mãe que trabalha toda uma vida para que nada falte aos seus filhos, não pode ser condenada. Uma mãe que se levanta bem cedo e tudo faz para que a sua vida fique equilibrada, não se pode condenar, nem muito menos ser condenada.

Uma mãe aceita a fome, aceita a luta, aceita o sofrimento de um novo país, uma nova língua, um novo trabalho onde muitas das vezes as condições de trabalho são muito básicas.

Esta mãe aceitou tudo, mas não aceita a morte de sua filhota que tanto ama e se ausentou há 8 meses do plano terrestre.

Mãe Maria, não tinha como prever que a revolta, ou tristeza de sua filha fosse gerar um desfecho tão trágico. Todos nós somos portadores de livre arbítrio e a sua filhota foi ao encontro do que acreditava ser a solução para os seus problemas.

Não se culpe por ela estar doente, não se culpe por ela ter escolhido um caminho que ninguém esperava ou desejava, a não ser a própria.

Como me disse e muito bem, na minha história eu tentei ajudar o meu filho, bem como o meu marido, promovendo o acompanhamento psicológico, mas diga-me. Que nos valeu o nosso esforço? Ele não aceitou! Ele não o quis! Ele deixou isso escrito!

“Os meus pais tentaram-me ajudar, mas eu não quero a ajuda de ninguém! Eu sinto-me morto por dentro!”

Mãe Maria, como já tenho vindo a escrever com tudo o que tenho lido nestes 8 meses de ausência do meu Pedro, a mente é complexa demais, hoje estamos bem, amanhã sentimo-nos o pior ser humano de toda a existência. Uns têm a ajuda dos que os rodeiam e não a aceitam. Outros não têm ajuda de ninguém e sobrevivem, devido á sua capacidade de se agarrarem á força de viver. Agarram-se ao que de belo a vida ainda lhes pode oferecer.

Levante-se dessa cama que a amarra com correntes de aço e liberte-se dessa culpa que só irá fazer com que o seu filho não só tenha perdido uma irmã, bem como venha a perder a sua mãe. Ele não tem culpa de nada! De nada!

Ele precisa da mãe do seu lado, apoiando-o, incentivando-o a lutar pelos seus sonhos. Ele precisa de sua mãe sorrindo para ele e partilhando de tudo o que de bom ele lhe pode oferecer e você a ele.

Ele precisa da mãe com a mesma garra que teve outro dia quando deixou tudo para trás em busca da felicidade, e de uma vida com maior conforto e prosperidade.

Os filhos precisam de nós fortes! Os filhos precisam de nós alegres! Os filhos precisam de nós capazes de enfrentar o mundo em busca da estabilidade que eles precisam para crescerem fortes e determinados.

Mãe Maria! Lembre-se por favor de que a sua falta de vontade de viver irá afectar o seu filhote que precisa tanto da força da mãe. Ele ainda é muito pequenino. Crescer num ambiente de dor e muito sofrimento, onde falta o sorriso, a alegria, a força de vontade para se levantar de uma cama, irá passar-lhe uma mensagem muito negativa de como a vida merece ser vivida.

Estou certa que não quererá um menino triste, amargurado e sombrio, sem motivos para sorrir, onde lhe faltou a oportunidade de ter e viver uma vida na companhia verdadeira da sua querida mamã e por ordem de uma decisão amargurada, da sua irmã.

Uma mãe e um pai tem que exigir, tem que colocar e impor regras. Tudo isto faz parte da educação.

Existem por aí muitos pais e muitas mães que sofrem com a falta de carinho e de respeito que seus filhos têm para com eles, onde lhes batem, onde os maltratam com palavras, agressões, fome, frio, falta de apoio e roubos.

O ser humano de hoje não é mais igual ao de outros tempos. Quantas sovas levaram de sua mãe ou de seu pai? Quantos castigos receberam ao longo da sua adolescência? Quantas privações tiveram de ir a festas, passeios com a sua família ou com os seus amigos? Quantos lugares não pôde visitar, porque a sua família tinha de escolher entre lhe colocar comida na mesa, ou deixa-la conhecer esses locais que para si eram importantes. Quantos brinquedos ficaram privados de ter? Quantas vezes teve que vestir roupa velha, ou fora de moda? Quantas vezes se sentiu zangada e amuada porque os seus pais não a compreendiam?

Entende o que eu lhe quero dizer? O que vos quero dizer? Eu passei por algumas destas privações, e acredito que todos vós de uma maneira ou de outra também, mas isso só nos tornou nas pessoas que somos hoje. Que não desistem ao primeiro problema, ao primeiro obstáculo que nos surge na vida.

Não temos como saber o que se passa na mente do outro ser humano, a não ser no momento da decisão, em que ele o partilha connosco.

Deixe-me partilhar consigo duas questões que me colocaram no dia de ontem.

Ambas pessoas me olharam nos olhos e em momentos diferentes do dia, me perguntaram.

– “Rute, sentes-te bem com a decisão que o teu filho tomou?”

– “Rute, depois de tudo o que já te aconteceu na vida. Tens medo de mais alguma coisa?”

Confesso que não precisei de pensar muito, porque na realidade foram questões que já me coloquei durante estes 8 meses de ausência pela morte do meu Pedro.

À primeira respondi, que a decisão do meu filho deixou-me profundamente triste, para não dizer acabada por dentro, arruinada. Mas eu sinto-me tranquila, porque sei que estive lá para ele sempre. Mesmo em momentos de maior ausência, devido a vários factores na minha vida. Sempre tive uma palavra, um gesto, um beijo, um amo-te muito, uma preocupação. Procurei a ajuda que pensei que ele precisava num momento em que as frases dele deixaram de fazer muito sentido para mim, quando me dizia somente estar cansado, onde sempre pensei que seria de esforço físico devido á roda-viva que era a sua vida. Ele brincava imenso comigo, ele passeava, caminhava, dançava comigo. Cantava comigo todas as vezes que entrava no nosso carro. Ele cantava em casa comigo. Ele era a maior companhia de todos os meus filhos, somente por ser o que mais se identificava comigo. Mas ele escolheu este caminho. Fechou o coração dele ao nosso amor e abandonou tudo e todos inclusive a ele mesmo. Eu não me sinto culpada. Tenho plena consciência de que fui a melhor mãe que consegui ser.

À segunda pessoa respondi que neste momento da minha vida, não tenho mais medo de nada. Não tenho medo da morte! Não quero morrer, mas não a temo. Desejo que somente chegue quando eu for muito velhinha. Contudo vivo com o meu coração fora do meu peito pousado nas minhas mãos, com medo que os meus dois filhos vivos que tenho, sofram de alguma privação que coloque suas vidas em risco. Só isso me preocupa e me deixa com medo.

De resto tento aceitar todas as privações que a vida me deu.

Desde a morte da minha mãe, passando pela ausência de um pai na minha vida, pelo acidente de viação que me ia matando e agora pela morte do meu filho.

Se tenho o livre arbítrio de viver ou morrer? Tenho-o como tu e como todos. Mas eu escolho viver!

No meio da conversa com a primeira pessoa, ainda surgiu uma questão!

– “Rute! Sempre foste assim? Com essa visão de vida? Ou tornaste-te assim com a morte do teu filho Pedro?”

Respondi com a verdade!

Sempre fui assim! Amar-me em primeiro lugar, gostar de mim em primeiro lugar, cuidar de mim em primeiro lugar, para estar livre para amar os demais, para cuidar dos demais, para estar para os demais. A verdade é que se não tiveres força para ti, não vais conseguir estar para os que te amam, nem para os que amas de volta.

Tens que dar a, e receber de ti mesma, para poderes dares e receberes dos outros.

Se sabes que tens e vives com baixa auto-estima, então tens a chave para o teu sucesso pessoal. Trabalha no crescimento da tua valorização. Tu és grande! Tu és Maravilhosa! Tu mereces ser feliz! Tu és mais do que pensas, do que sentes!

Mãe Maria, partilhas comigo que os meus vídeos te ajudam e as minhas palavras te cuidam, e pedes-me que continue a escrever. Assim o farei! Enquanto eu sentir que posso fazer algo por alguém do que somente ouvir, eu farei. A minha perda não pode ser um motivo para eu desistir de mim e dos outros. Pelo contrário Mãe Maria e Pai Raul. Desejo com todo o meu coração que a minha força chegue até vós e a todos os que dela precisem.

Não existe um manual que nos ensine a ser pais perfeitos! A verdade é que os pais tudo fazem o que está ao seu alcance para que os filhos vivam em plenitude. É importante amar, cuidar, ralhar para que se tornem homens e mulheres no futuro que se avizinha. Não temos que temer o errado, porque no amor e na partilha não pode haver erro. Estou certa que todos os pais fazem o que melhor conseguem mesmo que se sintam esgotados, mas isso é que é o verdadeiro sentido da palavra mãe e pai. Sentirmo-nos esgotados e termos medo de errar. Não são somente os filhos que aprendem com os pais, os pais, esses é que aprendem com os filhos! São eles que nos ensinam a verdadeira razão e força do amor! Não vamos estar sempre de acordo, porque somos todos seres únicos e com vontades próprias, mas enquanto vivermos em prol do amor que nutrimos por eles, estaremos no caminho certo.

É nisto que eu acredito! É isto que eu defendo! Hoje temos o poder de dialogar com os nossos filhos. Uma capacidade que nos foi roubada enquanto fomos jovens, onde bastava um olhar e não conseguíamos abrir a nossa boca para nada, porque não era respeito que tínhamos a um pai ou a uma mãe, mas sim MEDO!

Faz o teu melhor! Dá o melhor de ti! E serás lembrado pela grandeza do teu amor, pela grandeza do teu ser.

Com um enorme carinho para este pai e mãe, que como todos nós sofrem com a ausência dos seus diamantes puros.

A mãe do meu filho tem asas.

 

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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1 Comment

  1. Obrigado pelas suas palavras! Beijinho Rute

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