Esperança, Luto, Morte, Pais, Pedro, Saudade, Tristeza

Querida Mãe e querido pai, não queiras somente existir.

Querida Mãe e querido pai, não queiras somente existir.

A vida acontece todos os dias e não há como evitar os momentos menos bons que nos vão surgindo e com os quais temos que viver e continuar a lutar.

Eu como vocês, tenho os meus dias menos bons, tenho os meus momentos tenebrosos e cheios de dúvidas, mas depois eu me obrigo a reagir.

Sacudo o meu espírito com uma música, com um grito, com um sorriso, um pensamento mas, obrigo-me a continuar. Tenho momentos que ainda me custa acreditar que o meu filho Pedro morreu e que eu enquanto viver irei estar privada de toda a sua essência, mas depois, leio e releio tudo o que tenho vindo a escrever até hoje e ganho a coragem para continuar. Consciencializo-me que todos somos providos do livre arbítrio e assim como o meu filho teve o livre arbítrio de escolher morrer, eu vou contrariá-lo, escolhendo o livre arbítrio de viver.

Quero e tenho que receber muito mais da vida do que somente existir.

Não posso e nem quero tornar-me em uma pessoa amarga e sombria, porque a realidade nua e crua é de que não fui só eu quem perdeu.

O meu marido perdeu, os meus amados filhos perderam, todas as pessoas perderam com a morte do meu Pedro. Ele com a sua essência pura, deixou-nos a capacidade de continuar a ser amado mesmo depois de ter morrido. Foi essa a marca que ele nos deixou. A força do seu sorriso, o poder da sua voz, a magia do seu abraço, a partilha de todos os momentos que escolheu viver na nossa companhia.

A morte de um filho, coloca-nos um filtro na nossa vida, contrariando-nos todas as decisões e colocando-nos um sabor diferente em tudo o que idealizamos e alcançamos na nossa vida. O drama deixa de ter um tão grande impacto e conseguimos analisar tudo o que nos rodeia com mais tranquilidade.

Passamos a ser honestos, connosco mesmos e a colocar em primeiro lugar o que verdadeiramente importa. Sei que não é fácil fazermos esta escolha, ou de colocarmos em prática esta opção, mas eu tenho-me dado conta que quando escolho ficar triste, mesmo muito triste, o meu coração ganha um peso enorme e a tristeza, a dor e agonia ficam ainda mais fortes e persistem por mais tempo.

É por isso que eu defendo e luto por ter pensamentos positivos de forma a colocarem em pausa, mesmo que seja por pouco tempo, os pensamentos negativos vincados e moldados pela dor e saudade que sinto do meu filho Pedro.

Tento ser realista e conformar-me com a ausência do meu filhote na minha vida. Não me resta nada mais. Não vou lutar contra este sentimento de perda. A perda está cá! A perda veio para ficar! A morte levou-mo e não me vai traze-lo de volta nunca. Mas posso e devo lutar por não escolher viver triste todos os dias.

Combati as minhas noites de insónia com o simples facto de voltar a trabalhar, ocupando a mente e cansando o corpo. Chego à cama e durmo sem a ajuda de medicamentos e para mim isso já é uma vitória que alcancei.

Mas querida mãe e querido pai! Não te forces a nada! Eu levei 6 meses de luto a ter vontade de voltar a trabalhar, há quem leve menos, há quem leve mais, há ainda quem nunca mais reúna condições para trabalhar. Mas o que realmente importa é que deves fazer o teu luto sem pressas, sem prazos, sem condições. Não te imponhas a trabalhar se na verdade o teu corpo e mente só tem vontade de chorar e de se aninhar num canto sem ninguém a chatear. É importante dares esse tempo a ti. É importante respeitares o tempo que o teu corpo precisa para se acostumar a essa ausência física que os teus olhos teimam em procurar por todos os recantos do espaço da tua casa, na rua por onde passas.

Tem calma! Vive com calma, mesmo que isso neste momento te pareça impossível.

Sempre defendi e defendo que o luto é algo muito singular mesmo sendo “praticado” por tantos seres em todo o mundo. Defendo que os primeiros meses são insuportáveis de uma forma e que os restantes serão de outra. Quanto a esta última ainda estou para descobrir.

Sei que tenho vindo a experimentar diversos sentimentos que pensei ter já controlado, mas engano-me, enganei-me, e irei enganar-me por muito mais tempo.

E sabes porquê?

Porque passamos a viver numa montanha russa, ou dentro de uma roleta russa, onde todos os dias os dados são lançados, ou os níveis aumentados, e a única coisa que te resta é acreditar, que vais conseguir, por ti em primeiro lugar e depois pelos teus filhos e por todos os outros que te amam e te estimam.

Mas coloca-te a ti em primeiro lugar! Sê egoísta uma vez na vida! Morreu-te um filho querida mamã, querido pai! Tens direito a este tempo para aprenderes a respirar, mesmo que agora nada te faça sentido.

Com um enorme beijo e um enorme abraço apertado de uma mãe que vive e sobrevive todos os dias dando uma hipótese a si mesma de poder voltar a sorrir.

A mãe do meu filho tem asas

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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1 Comment

  1. Adriana Luiz says:

    Há seis anos perdi meu filho Bruno cpm apenas 15 anos de idade. Em um acidente de carro aqui mesmo na minha cidade. Vivo cada dia. Ou seja um dia de cada vez. Preciso ser forte pela minha filha e por meu marido. Confesso que não é facil.

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