Saudade

Que te vês a fazer daqui a 20 anos?

Já vi que vai ser sempre assim, uns dias melhor e outros piores.

Hoje acordei triste e sem grande energia para reagir.

Mesmo que tente o contrário, algo muito forte me empurra para baixo.

Fico como que a olhar para o infinito e a minha mente não tem mais nada no pensamento a não seres tu. Gostava que fossem pensamentos diferentes, tais como preparar-te as coisas para o inicio das aulas. Mas não! Agora e para sempre vai ser diferente, porque não vou poder preocupar-me contigo e com as tuas notas, ou se te estás a baldar ás aulas.

Nem quero imaginar a solidão que irá ser para o teu irmão David, ele que partilhava todos os momentos contigo. Meu Deus filho, que fizeste tu com os nossos corações.

Tenho chorado muito, tenho-me ido a baixo muitas vezes, mas julgo ser normal em todo o processo de luto que sou obrigada a viver diariamente depois da tua partida.

Sou confrontada com uma realidade que não a pedi nem desejei nunca.

Tenho um filho que nunca vai sair da minha casa, um filho que decidiu para sempre ficar debaixo das minhas “asas”. Um filho que nunca vai casar, tirar a carta de condução, terminar a escola secundária, ou mais doloroso que tudo o resto, ter um filho a quem amar.

Um mês e treze dias antes de decidir morrer, precisamente a onze de Abril, foi-lhe questionado por alguém que prefiro não referir seu nome, que nunca fez parte de sua vida nem de sua morte, tendo em conta que nem no velório esteve presente.

– “Pedro, que te vês a fazer daqui a 20 anos?”

O Pedro, partilhou comigo e com o meu querido amigo Lázaro.

– “Mãe, que raio de questão foi aquela?”

Perguntei-lhe no mesmo momento de sua partilha, que resposta teria dado, ao qual me respondeu:

– “Mãe, fiquei sem saber o que responder, respondi somente não saber, tendo em conta que nem sabia como seria a minha vida no próximo ano”.

– Que te respondeu a pessoa? Perguntei eu.

– “Respondeu que era uma resposta inteligente porque quem faz muitos projectos para a vida, desilude-se sempre, porque nem tudo corre como desejamos”. E eu encolhi os meus ombros, mãe, porque aquela questão pareceu-me tão estranha e descabida, que simplesmente limitei-me a sorrir.”

Meu amor, agora que analiso tudo friamente, apesar da pessoa ser-te um ser completamente estranho, tendo em conta o que sabemos hoje, a questão até teve fundamento, e eu lamento profundamente que não tenhas tido força para lutar contra esse pensamento destrutivo que te levou ao próprio abismo.

Amo-te muito meu amor e jamais em tempo algum te esquecerei.

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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0 Comments

  1. Cláudia Oliveira Simões says:

    Mi que a vida nunca te deixe sem objetivo e planos para o futuro. Beijinhos estamos aqui

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