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Quando a verdade doi

Nem sempre é fácil lidar-mos com as situações que nos surgem diáriamente, contudo temos que ir encontrar forças, métodos e formas para as conseguirmos superar.
Esta passada quarta dia dez de Fevereiro de 2021, surge-me mais um momento dificil, onde tive que explicar de forma suave o que sucede ao nosso corpo quando falecemos.
Como já é do vosso conhecimento, perdemos a nossa tia Rosa recentemente e quinta dia onze foi a cerimónia de despedida da sua matéria.
Contudo, o que eu não sabia é que o meu Francisco me iria colocar tantas questões acerca do mesmo.
Começou por me pedir para se despedir da Tia Rosa, coisa que infelizmente não foi possivel ser permitido tendo em conta tudo o que vivemos neste periodo de Covid 19.
E foi aqui que as questões começaram a surgir.
– Mãe! Para onde vai a tia Rosa?
– Vai para o crematório em Santarém
– Crematório? O que é isso? É onde queimam os corpos?
– Sim Francisco.
– Mas mãe, como fazem?
– Bem… Então, os senhores colocam o caixão numa passadeira e entra num forno.
– Mãe, e depois saem as cinzas, não é?
– Sim! É mais ou menos assim.
Ficou sério a olhar para mim e eis que se sai com uma pergunta que já há algum tempo eu aguardava.
– Mãe! E o mano Pedro? Onde está o lugar do mano Pedro? Da outra vez disseste que ele não tinha a campa, mas então onde ele está? O que aconteceu com o corpo do mano?
Olhei para ele e tentei dizer de forma tranquila…
– Bem… O mano Pedro também foi cremado.
– Foi queimado mãe?
Já não consegui responder…
Pedi-lhe a mão e disse-lhe para me acompanhar.
Levei-o até ao meu quarto onde descansa o meu filho Pedro e sentei-o na cama. Depois fui buscar a urna com as cinzas e coloquei-a em cima da cama abrindo a sua bolsa. Lá tenho todas as lembranças que os amigos do Pedro deixaram no seu cacifo em sua homenagem.
Eis que o Francisco mais uma vez ía colocar-me a tão aguardada questão acerca do acontecimento que mudaria para sempre as nossas vidas, mas eu ao abrir a bolsa tirei-lhe a atenção e ficou mais uma vez a questão por fazer.
Já me fez uma vez, devido aos comentários dos seus amiguinhos de escola, mas consegui dissuadilo da capacidade que o ser humano tem de se aniquilar.
Mas tenho noção que esse dia irá chegar, onde eu terei de lhe dizer a verdade.
E que Deus me ajude nesse dia.
Depois no seguimento da nossa conversa, pediu-me para ver as cinzas, coisa que eu lhe neguei. Disse-lhe que não o iria fazer ainda por ser pequeno. A sua resposta foi:
– Compreendo mãe. Quando for mais velho mostras-me não é?
– Sim, querido. Quando fores mais velho.
Naquele momento, o Francisco ficou sem reação. Parádo e começou a chorar, deitando-se na minha cama. Apressei-me a abraça-lo e a dizer-lhe que o amo muito e que ele, agora já sabe que o mano voltou para casa, onde poderá sempre estar com ele e sempre que tiver saudades, entrar no meu quarto e ali ficar o tempo que precisar.
A mente do meu menino não parava e surge uma das ultimas questões.
– Mãe! Quando tu e o pai morrerem, o que acontece com o mano?
– Querido, o mano pediu para ficar contigo e com o mano David.
– Pediu mãe?
– Sim, filho. Pediu.
– Mãe, e aqueles dois bonecos do mano Pedro que tens em cima do pote, posso ficar com um quando tu e o pai partirem?
– Sim Francisco. O mano disse que tudo o que era dele ficava para os manos.
– Tão bom mãe. É que eu quero que o mano David fique com um e eu com o outro.
– Sim filhote, assim será.
Com este final de conversa, as questões terminaram e ele ficou agarrado a mim e em seguida diz-me:
– Mãe! Obrigada por me contares a verdade sobre as cinzas. Obrigada por me mostrares onde está o mano.
Em seguida após uns segundos de silêncio, diz-me:
– Mãe! Vamos ouvir musica os dois. Tenho de esquecer esta tristeza. Quero ouvir a musica preferida do mano Pedro. Pode ser?
– Claro, meu amor. Vamos lá então ouvir música os dois.
Dali a pouco, já dançava comigo na cozinha e abraçava-me, esboçando um sorriso.
Hoje ao telefone durante a minha hora de almoço, partilhava comigo que tinha saudades minhas, que por favor voltasse para casa rápido porque queria ver um filme deitado comigo no sofá. Entretanto fez silêncio e diz-me.
– Mãe! Sabes, Quando eu fizer os dezanove anos, vou querer que me mostres… Bem… Tu sabes…. As cinzas.
– Filhote, não precisas esperar até aos dezanove. Deixarei mais cedo. Mas só não pode ser ainda.
– Está bem mãe. Combinado.
Como vêem, as batalhas que temos que travar, são diárias. Não é somente perante o dia da noticia. São todos os dias da nossa vida. Onde temos que ir buscar serenidade e capacidade para gerir todas as emoções nos desafios que nos surgem.
São nestes momentos de maior luta interior que temos de encontrar a capacidade de amar e depositar em tudo o que for difícil de lidar, esse sentimento tão nobre com o qual aprendemos a lidar desde o momento do nosso nascimento.
Não é fácil eu sei.
Mas…
Também não é impossível e a única capacidade habita dentro de todos nós.
Lembrem-se sempre disso.
Com um enorme carinho,
A mãe do meu filho tem asas.

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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1 Comment

  1. Uma estória de sobrevivência. Não imagino a sua dor. Admiro a sua coragem e a sua força. Vi a sua entrevista no Goucha e fiquei deveras emocionada.
    Um texto de fazer chorar as pedras da calçada! FORÇA!! 💖🙏🌹

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