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Passamos a viver inseguros, sempre no fio da navalha.

Eu sou, aquilo que mulher nenhuma quer ser.

Uma mãe defilhada.

Uma mãe que perdeu um dos seus filhos, e que apesar de ter dois vivos, não acalma o seu coração por nada. Falta o primeiro.

Curioso são as análises que os nossos filhos fazem e que nem nos apercebemos, porque são detalhes que nos magoam imenso. Mas eles estão lá, e não passam despercebidos por eles.

O meu David partilhava connosco no outro dia que era o nosso único filho que havia conseguido passar pelos três estágios.

Irmão mais novo

Irmão do meio

Irmão mais velho.

Ficámos sem reacção ao ouvi-lo proferir tais palavras. Até se tornou quase impossível continuar a comer. Como era possível, ele ter tanta razão e ter-se dado conta do mesmo. Eu nunca havia pensado nisso antes.

Percebem porque é que eu defendo que o luto é mesmo vivido das mais variadas formas por cada um de nós?

Da mesma forma que aqueles pais que tem dois filhos e ficam privados de ver crescer um deles, e o que permanece vivo torna-se no seu único filho. No único que irá continuar a precisar da atenção, do amor, do cuidado de seus pais, porque estes não querem mais filhos, ou não os podem ter mais.

Todas estas realidades são abruptas demais. E não devia ser nunca possível passar por este tipo de privações.

Os filhos que colocamos no mundo deveriam ser imortais durante o tempo em que nos fosse permitido viver, a nós pais. Depois de partirmos, o percurso da vida seguiria o seu caminho normal e o processo deveria ser igual para eles. Não lhes ser a eles permitido também ficar sem nenhum filho antes deles, partirem. Se fosse eu quem ditasse as regras, era o que instituiria, para que ninguém tivesse que perder filho nenhum nem viver o pior dia de nossas vidas.

A esperança que depositamos na vida a crescer dentro de nós é arrebatada de uma forma muito violenta e nunca estamos preparados para essa privação. Nem mesmo quando somos obrigados a vivê-la.

Perguntam-me vocês como é possível sentir-se solidão quando temos outros filhos por quem olhar, cuidar e amar. É simples! Todos os filhos têm um papel crucial e fundamental na vida dos pais. Todos eles têm uma característica diferente do irmão ou irmã. Pode ser mais carinhoso, mais conversador, mais brincalhão, mais dependente de nós. E esse vínculo é quebrado com a sua morte. A solidão bate-nos com uma força imensa na nossa porta. Existem momentos que partilhávamos com esse filho ou filha que não teremos mais, porque esse ser era único em toda a sua existência. Existe uma perda de afectos, o amor é quebrado e as ligações para sempre interrompidas.

Mas a solidão não está presente em todos os momentos do luto, sendo evidente em certas fases em que a saudade se torna mais efectiva e rigorosa. Claro que esta é a minha visão. O mesmo não poderei dizer pelas mães e pais que perdem o seu único filho ou filha. Sobre esses, só mesmo quem vive essa privação pode falar. Eu seguramente não seria verdadeiramente justa com todos eles. Face a tamanha angústia, existem pais que estabelecem ligações com outras crianças em busca do conforto emocional e outros que nem perto de crianças consegue estar. Não! Não se tornam em robots ou máquinas ou até mesmo em seres isentos de sentimentos. É precisamente aí que reside o conflito de emoções. Eles afastam-se porque amam tanto os seus filhos que temem poderem vir a gostar de outras crianças de maneira semelhante, sentindo-se culpados por amarem outros seres por igual. Ou porque as outras crianças fazem lembrar-lhes os seus filhos que partiram na grande viagem e isso coloca-os em permanente sofrimento, onde recordam sorrisos, gargalhadas, gestos, danças, essências.

Sim! O ser humano tem essa capacidade, a capacidade de dar e receber das crianças que fazem parte do seu dia-a-dia. E não me digam que não, porque eu vivo-a. Eu fui privada de dar o meu amor ao meu filho Pedro, mas eu tenho muito amor para dar.

As crianças na minha vida têm um poder curativo, um poder regenerador. É óbvio que não substituem os meus filhos, o meu filho que perdi. Mas transmitem-me amor, um amor que pode ser partilhado por mim e por eles de forma igual. E como já referi outras vezes, o poder do amor tudo pode! Não é afastando-me das crianças e dos jovens que eu irei ser mais feliz. Mas sim plenamente ao contrário. Com eles vou aprender a viver e a tomar gosto pelos aspectos da vida mais simples com os quais podemos conviver.

Uma criança é a fórmula certa da vida e tudo o que ela comporta.

Faz-nos pensar no papel que desempenhamos na vida dos outros.

“O que represento para os meus filhos, para o meu marido, para os meus irmãos de coração, para os meus amigos?”

“O que representava esse filho que partiu para nós?”

Somos imensamente ricos e nem nos apercebemos.

A morte de alguém quem amamos, e principalmente no caso de um filho, é envolta do abandono obrigatório de todas as sensações de prazer físico e emocional. Não podemos ter mais um abraço, um beijo, um carinho expressado pelo simples toque de pele com pele. E a sensação emocional é corrompida igualmente, porque somente nós, que continuamos vivos, podemos alimentar esse sentimento que fica doente para sempre. Não por falta de amor, mas por falta de reciprocidade.

Passamos a viver inseguros, sempre no fio da navalha.

Com carinho e saudade,

A mãe do meu filho tem asas

 

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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