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Páscoa em tempo de Covid – 19

Muito teria eu para contar acerca deste dia relativamente a outros anos. Um dia em que se previa estarmos em família. Um dia no qual se juntam todos à mesa e festejam a ressurreição de Jesus Cristo, para quem é religioso. Os demais é meramente pelo convívio familiar.

Gostava muito de voltar à ultima Páscoa em que desfrutei do meu filho Pedro, da minha mana do coração Cila e os meus tios Virgílio e Rosa. Foi um almoço rico em amor, partilhas de aventuras e muita gargalhada à mesa, onde não éramos cinco mas sim oito.

Mas não conseguimos voltar atrás no tempo e recuperar o que perdemos. O tempo passa a correr e neste preciso momento, vejo-me perante quase um ano de muito sofrimento, e uma saudade terrível que nunca irá abrandar, porque o tempo não pára de avançar para quem vive.

Ele só pára para quem morre!

Até aqui, nunca tinha sentido tanto a Páscoa como este ano. No aspecto de perda.

Desde pequena que fui educada a respeitar a imagem de Nossa Senhora com Jesus Cristo morto em seus braços, e apesar de ser uma imagem triste e de nutrir por ela compaixão e muito respeito, nunca antes me tinha ferido tanto.

Nunca me tinha apercebido do horror que Maria teria sentido ao ver o seu filho morrer diante dos seus olhos e breves momentos depois acolhe-lo em seus braços já sem vida.

“Eu ainda não era mãe”! Não conhecia o verdadeiro sentimento desta perda ou desta imagem.

É aqui, precisamente aqui, que revejo todas as mulheres que perderam os seus filhos, na imagem de Maria.

Uma mãe que aceitou os designo de Deus, sem contestar.

Confesso que tenho estado desligada da prática Católica, não porque esteja zangada com Deus, ou com qualquer anjo protector. Mas encontro-me bloqueada. Falo com Deus, mas não consigo rezar. Contudo permitam-me que vos confesse algo. Vários são os dias que estou a regressar do meu trabalho e no preciso momento que passo pelas portas da Igreja onde o meu filho foi velado, tenho vontade de parar e entrar.

Mas ainda não o fiz…

Deixo sempre para depois. amanhã tento, digo eu mentalmente. E novo dia amanhece e volto a fazer da mesma forma…Amanhã tento!

Tenho imensas saudades dele!

Vivemos em momentos de muita reflexão, de uma forte ausência de afecto carnal, onde as pessoas se têm que contentar com as video chamadas para se amarem à distância, através de um sorriso e uma palavra de incentivo onde se diz pelo mundo inteiro…

Tudo vai ficar bem!

Como eu gostaria de que essa frase fosse mesmo verdade em que englobasse todos os que dela precisam para sobreviver e manter a mente estável perante tanta limitação e sofrimento.

Hoje não falei com nenhuma das pessoas que amo, a não ser a minha família que vive comigo.

Não o fiz por não ter saudades, ou por não os amar igualmente, mas fi-lo unicamente de forma a passar o mais suave possível por uma época festiva que como todas as outras nos marcam, nos carrega demais a dor que já somos obrigados a carregar diariamente. Principalmente nestes tempos de nos rodeiam e que não sabemos quando irá terminar, devido a este vírus maldito que paira no ar.

É mesmo um momento de reflexão, sobre tudo o que somos, enquanto seres humanos.

É um momento de introspecção.

Um momento onde devemos ser justos connosco mesmo e avaliar o que temos feito de errado na nossa caminhada. De mim para mim, de ti para ti e de nós para os outros.

É tempo de aprendermos a amar com sentimento e não um amar só por amar.

É tempo de colocarmos as nossas verdadeiras intenções em prática. É tempo de agradecermos esta oportunidade que é dada a várias famílias que corriam de um lado para o outro e com muito pouco tempo para se amarem.

Quando a este vírus abrandar e nos for permitido estarmos todos juntos novamente, vamos poder sentir de verdade a palavra saudade, amizade e amor por quem estamos neste preciso momento impedidos de visitar.

Que me perdoem tocar de novo no assunto, mas é de facto algo que me inquieta e me angustia.

Preocupa-me todos os enlutados que se vêm privados de realizar as suas tradições fúnebres aos seus familiares adormecidos. De visitarem as campas dos que já partiram há mais tempo e principalmente dos que têm ficado sem os seus familiares durante esta pandemia do Covid-19.

Famílias que ficam impedidas de se despedirem com o devido respeito que é exigido nesta hora horrivelmente dolorosa.

Estas pessoas mais do que nunca, vão precisar dos seus familiares e amigos, quando esta pandemia terminar. Todos os falecimentos estão a ser tratados com o devido respeito que o Covid-19 exige, e mesmo que não morram desta doença, as cerimónias fúnebres são tratadas da mesma forma com o devido distanciamento que esta doença exige.

É duro! duro demais esta realidade para a qual ninguém está preparado para enfrentar.

Uma palavra de respeito, um minuto de silêncio por todos vós que sofreis neste momento de grande pesar para o mundo com a perda dos vossos familiares.

Silêncio!

Aos que vivem na escuridão, amedrontados pela maldita Depressão, peço-vos que tenham um pouco mais de força e paciência. Socorram-se de todas as “lufadas de ar fresco que as vossas janelas vos permitirem desfrutar”. Tentem dedicar o vosso tempo a fazer algo que vos dê alguma satisfação sem que se coloquem em risco.

Este isolamento social pode agravar os vossos sentimentos de angustia, de revolta, medo e solidão.

Eu não me encontro completamente isolada, porque todos os dias vou trabalhar, mas também é a única coisa que faço de diferente em relação a muito de vós.

De resto, sinto-me triste, sufocada com todas estas perdas que afecta a humanidade, que me afeta a mim e os meus.

Angustiada com todas estas pessoas que vêm seus filhos, irmãos, maridos, pais e restantes familiares sucumbirem a uma doença que nos obriga a não reagir como seria de esperar.

Choro de saudade pelo meu querido filho Pedro. Choro por uma dor que abranda de tempos em tempos, mas somente por breves momentos, no que me permito viver.

Encontro-me solidária com todos vós.

Este é o momento de chorarmos pelos que partiram, pelos que nos deixaram com uma saudade interminável.

Este é o momento de nos unirmos num único coração.

Sintam-se abraçados por mim. Sou solidária com a vossa dor.

Com um enorme respeito e um carinho enorme nesta hora,

A mãe do meu filho tem asas.

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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