Amor Luto Morte Pais Pedro Saudade

Os filhos não são nossos, eles pertencem ao mundo.

Levamos uma vida a correr de um lado para o outro.

A própria sociedade em que vivemos obriga-nos a isso. Casa, trabalho, um desporto, namorada, escola, amigos, passeios nas zonas comerciais entre outras actividades existenciais no nosso dia-a-dia. Andamos exaustos, crianças, jovens e adultos. Entre escolas, namoradas e família. Entre empregos, maridos, família e casa.

Eu por exemplo, dou por mim agarrar numa caneta e numa agenda e apontar todos os meus compromissos, para que não me esqueça de nenhum, nem de nada para fazer, porque levamos mesmo uma vida a correr, que nos tornamos escravos de nós mesmos com o tempo de chicote na mão a não permitir que falhemos.

Chegamos a questionarmos como conseguimos chegar ao final do dia onde tudo se torna tão mecânico e deixamos de apreciar o que realmente importa.

“A nossa tranquilidade mental.”

Falta-nos as forças! Chegamos mesmo a pensar, que não aguentamos mais esta pressão por ser tudo tão automático e mecanizado.

Quando paro e faço uma avaliação do que já passou, fico com a sensação de insatisfação. Não que não tenha sido importante, tudo o que vivi, mas, se por um lado empreguei tempo em excesso em actividades nos momentos. Hoje vejo que sou pobre, muito pobre. Tivéssemos nós a capacidade de saber quanto tempo determinada pessoa viveria, e poderíamos dedicar muito mais tempo a ela. Sei que sim. Que essa ideia é horrível, porque apesar de passarmos a viver em função desse ser humano que amamos, também começaríamos a sofrer muito mais cedo com a separação. Mas seja que de maneira for, deixo-vos um exemplo.

Durante anos dediquei horas e horas, noites e dias a muitas crianças. Inicialmente até aos dez anos dos meus filhos mais velhos, esse tempo foi partilhado com eles, mas não dedicado inteiramente a eles porque a atenção tinha de ser repartida por todas aquelas crianças. Depois eles foram crescendo e a faixa etária das crianças com quem trabalhava já não eram as mesmas e é aqui que começa a minha avaliação a todo o tempo que privei aos meus filhos de estarem na minha companhia, enquanto dedicava a minha energia a outras crianças.

No final do dia estamos esgotados, porque não é fácil lidar com crianças onde cada uma tem uma forma de estar com mais ou menos energia.

Os meus filhos eram um dado adquirido, como são os vossos para vocês. Onde eu sabia que no final daquelas actividades eu estaria com eles, com pouca ou muita vitalidade para lhes oferecer. Hoje vejo que sempre estive enganada. Filho nenhum é um dado adquirido e usamos tempo que deveria ser só nosso e deles. Contudo ao invés disso damo-nos conta que o saldo é negativo. Acordamos para a triste realidade que os filhos não são nossos. Eles são do mundo e que apesar de vivermos com eles e para eles, não vivemos tempo de qualidade com eles.

Esta é a realidade de muitas famílias para não dizer a de todas elas. E se não concordam, reparem.

O filho ou filha nasce e nós dedicamos tempo aos mesmos até irem para o infantário ou ama no caso das mães que trabalham.

Eu aqui fui uma privilegiada porque aos 18 meses do Pedro consegui ficar em casa com ele até nascer o David, e dediquei todo o meu tempo a ambos até aos 5 anos do Pedro e 3 do David. Altura em que foram para o jardim-de-infância.

Mais tarde ingressam na primária e entre horários escolares, ATL, trabalho dos pais, cozinhar, viagens de casa para escolas e trabalhos e vice-versa, damos conta que chegar a casa, dar banhos, fazer jantar, e deitá-los, verificamos que o único tempo de qualidade que passamos com eles é durante o jantar e num abraço e um beijo demorado de boa noite. E somente se houver tempo lhes contamos uma história. Tudo o resto onde se encaixam ainda os trabalhos de escola, é somente um tempo mecanizado em que mais parecemos máquinas do que seres humanos. Sobra muito pouco tempo das 16 horas que corremos de um lado para o outro, em que estamos cerca de 1 hora por dia com eles e tudo isto, supondo que na maioria conseguimos dormir 8 horas por dia.

Eles crescem, e como se não bastassem as horas na escola que vão aumentando gradualmente, ainda chegam as actividades desportivas, umas das quais eles nem gostam muito e outras que nos pedem para frequentar, e lá andam os pais de um lado para o outro a tentar agradar a um filho ou a mais.

Reparem! O tempo já é pouco, o que passamos de qualidade com eles, mas, porque procuramos sempre satisfazer-lhes o que mais gostam, acabamos por abrir mãos do tempo na companhia dos mesmos. Eles vão crescendo e arranjam as namoradas e namorados e passam a dedicar o seu tempo a elas e a eles. Eu sei que faz parte! E mais uma vez, porque os amamos, aceitamos que isso seja normal, afinal nós também passámos pelo mesmo.

Contudo, permitam-me a questão.

Quanto tempo de qualidade passamos verdadeiramente com eles?

Se quando estão em casa, não estão realmente connosco, encontram-se ligados nos seus telemóveis,  na música deles, nos jogos, nos filmes, nos estudos, em seus quartos.

Entendem agora o que eu quero dizer?

Eles nascem de nós, contudo somos obrigados a abrir mãos deles em prol do conhecimento e da própria evolução dos mesmos e nossa.

E já não falo aqui dos pais que vivem separados de seus filhos, uns por opção, outros devido ao instinto de sobrevivência para lhes dar uma vida melhor.

E prefiro igualmente não falar dos pais que colocam os filhos com actividades desportivas, e lúdicas depois do término das escolas, só porque eles também não têm paciência para os mesmos. Um mero exemplo aqui vos deixo e acreditem que existem crianças ainda com mais actividades diárias do que as que refiro aqui.

Segunda-feira, tem futebol e chega a casa às 23h.

Terça-feira, tem música e chega a casa às 00h.

Quarta-feira, tem natação e futebol e chega às 23h.

Quinta-feira, tem música e chega às 00h.

Sexta-feira tens futebol e chega às 23h.

Sábado tem saída de banda e chega às 21h.

Domingo tem jogo de futebol, sai de casa às 11h e volta às 18h.

Sendo que todas estas actividades podem ser substituídas pelas que os vossos filhos gostam mais.

Agora deixo uma questão! Onde fica o momento da criança ou do jovem brincar? Relaxar? Desfrutar da simples companhia e do amor de seus pais e família? E depois damos connosco a questionar, porque razão este ou aquele jovem entra em depressão, Porque adoece.

Quando releio tudo o que escrevo neste texto, acordo para uma dura realidade que tive o meu Pedro durante muito pouco tempo. Foi plenamente meu até aos 5 anos, mas conforme foi crescendo, fui dividindo-o com o mundo. E é aqui que apesar de correr o risco de vos chocar, digo com todas as letras, que os meus filhos nunca foram meus. Eles são do mundo e pertencem ao mundo. Correndo o risco de parecer egoísta, se soubesse que iria ter tão pouco tempo na companhia dele, não o teria deixado fazer 1/3 do que ele teve vontade de fazer, e explicar-lhe-ia que queria viver só para ele sem ter que o dividir com nada a não ser com a própria família.

Todos os dias, os momentos são-nos roubados por sermos obrigados a viver numa sociedade cada vez mais mecanizada e exigente de títulos.

Dei-lhe o meu coração.

Dei-lhe a minha alma e todos esses momentos foram perdidos para a morte.

Fiquei sem o meu Pedrocas e no final de toda a minha reflexão constato que ele nunca foi meu de verdade.

Amo-te filhote lindo!

Com muitas saudades,

A mãe do meu filho tem asas.

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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