Saudade

O teu mano Kiko

Não se faz o que tu fizeste a um pai, a uma mãe, a dois irmãos.

É de uma enorme crueldade.

Todos os dias nos lembramos de ti, do que eras e principalmente do que eras para nós todos em particular.

Temos muito poucos amigos que nunca nos abandonaram. Tenho uma em especial que me diz todos os dias que me ama e quando estamos algum tempo sem nos vermos, diz que tem saudades minhas, saudades nossas. É uma amiga diferente, é uma mana.

Temos outros que se afastaram como se tivéssemos uma doença contagiosa.

Também é verdade que de outros fui eu quem se afastou. Não suporto estar sempre a manifestar a minha dor com explicações ou lamentações. Aqui nesta página e na do Facebook, é diferente. Falo para ti, escrevo para ti, tento chegar ao coração de outros pais, de outros jovens. Agora falar pessoalmente dói demais. E confesso que até ao dia de hoje só consegui fazê-lo abertamente com uma pessoa. Uma querida amiga que tenho desde 2006. Ela ouve-me com o coração.

Hoje logo pela manhã encontrei o mano Kiko aninhado num canto e pareceu-me tão triste, que não consegui evitar de me enroscar nele.

Perguntei-lhe se havia dormido bem e ele abanou a cabeça que não. Mas não era só isso, e eu sentia-o no meu coração. Voltei a questioná-lo.

– “Estás triste Kiko?”

E ele abanou com a cabeça que sim, questionei em seguida se queria falar sobre a sua tristeza e ele voltou acenar a cabeça desta vez com um não.

Respeitei o seu silêncio por momentos e disse-lhe somente que iria ficar ali abraçada a ele até ele querer. De olhos fechados ali permaneceu, até que, devagarinho os abriu e olhou para mim.

Seu olhar brilhou e eu percebi que era dor que ele sentia, e resolvi mais uma vez tentar.

– “Meu amor, é importante falares com a mãe. É importante dizeres o que sentes, de modo a que a mãe te possa ajudar.” Demais sabia eu que não o podia ajudar totalmente, mas tenho que tentar. É o que uma mãe faz Pedro, tentar sempre ajudar seus filhos mesmo no que parece impossível. Uma mãe nunca desiste, Nunca! Como eu não havia desistido de ti. E o Kiko lá abriu o seu enorme coração.

– “Tenho saudades do mano Pedro mamã!”

Aqui está a tal impotência de que falo.

Abracei-o forte e disse-lhe que era normal, e que essas saudades iriam aumentar com o passar do tempo. Partilhei também, que eu também sentia muitas saudades do Pedro e que era normal ficarmos tristes por nos lembrar-mos dele. Que o Pedro já não vivia connosco como dantes, mas que estava connosco em espírito. Aconselhei-o a fazer desenhos para o mano Pedro, porque apesar de nós não o conseguir-mos ver, ele iria conseguir observar os desenhos do Kiko e ficar muito feliz com a sua manifestação de amor. E o Kiko começou a chorar.

– “Mãe, eu não quero chorar.” E eu disse-lhe mais uma vez.

– “Kiko, é importante chorares sim, não tenhas vergonha de chorar. Chorar liberta a dor que sentes no teu coração e se não chorares, o teu coração vai ficar doente. Sempre que te sentires triste meu amor, dá um abraço à mãe, eu estarei sempre aqui para ti.”

E ali permaneci abraçada a ele até me pedir para ver desenhos animados.

O Kiko está revoltado, e mudou imenso o seu comportamento. Ficou mais distante das pessoas que não lhe são nada, recusa-se inclusive a cumprimentar as mesmas com um beijo. Chega a perder o controle se na sua cabecinha acha que estão a ser incorrectos com ele, ou principalmente se o magoaram. Principalmente com os amiguinhos que ele considera seus melhores amigos de sempre. Reage mesmo muito mal.

Foi aqui, depois de todos estes momentos desta manhã, que mentalmente me virei para ti Pedro e fiz-te a questão. Se vias o estado do teu irmão de apenas oito anos. Um mano que desejaste ter e nos pediste por mais de um ano.

Um mano que abandonas-te sem pensares na dor que lhe irias causar.

– “Diz ao Kiko que o amo muito, vocês são as minhas jóias”.

O que é isto??? Que amor é este filhote?

Quem ama não abandona, quem ama não desiste.

Que impotência Meu Deus! Que impotência!

Amo-te muito e não entendo, nem aceito a tua decisão.

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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1 Comment

  1. rodtomanda says:

    Não consigo imaginar e recuso-me sequer a pensar “e se fosse eu!?!?”

    Ai Rute, é devastador ler cada palavra tua…cada letra, sílaba, palavra carrega um tormento inimaginável. Eu estive presente naquela q seria a última homenagem ao Pedro E quando ele passou por mim, sabes o q vi?!? Aquele ramo de flores, quatro lírios a rodear a flor q ele adorava, abraçado pelo cachecol do SCP. Pode ser da minha cabeça mas penso q foi o Pedro a dizer-nos “obrigada por aqui estarem…”

    O nosso Gui falava constantemente com o Pedro sobre o SCP e que o sonho era comum.

    Os dias são demasiado compridos para todos vós, as noites essas devem ser intermináveis. Cada post q fazes, faz-nos perceber o q temos. Que Deus vos ilumine e q continues a ajudar por quem passa pelo mesmo sufoco. Recebam um grande beijinho de carinho de todos nós.

    E podes crer q estamos sempre aqui.

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