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O regresso à Arrábida depois da tua partida!

Vou contar-te como foi o meu dia!

Fui a um dos locais que mais amavas visitar. Ou melhor, voltei a este local.

Lembras-te?

Éramos para o ter ido visitar e nele passar o fim de semana do teu 19º Aniversário.

Foi triste e terapêutico ao mesmo tempo.

Observar aquele mar e poder estar nos locais, onde sorriste imenso, onde foste feliz. Foi sem duvida nenhuma um momento de nostalgia.

Quando chegámos à praia ao procurar o melhor local para parar, vi logo o nosso sinal. Mais uma pedra em forma de coração bem ali para mim.

Grata meu amor,  por me amares tanto assim.

Queria que tivesses visto todos aqueles peixes comigo, todas as pedras no fundo do oceano, as espécies de algas, ali mesmo só para as podermos deslumbrar.

Foi a primeira vez da mãe naquele mundo aquático, algo que o teu pai já me vinha pedindo, mas porque vocês eram pequenos, nunca me arrisquei.

Ías ficar triste com as restrições que a Arrábida agora tem.

Acessos bloqueados, estradas cortadas, regras impostas devido ao Covid 19, mas nada que não possamos contornar.

Não estava muito calor. De manhã, até  que choviscou, mas depois o tempo melhorou.

Fomos no nosso barco a remos e contornámos a costa da Arrábida, até ao nosso local preferido. “A Gruta da Lapa”.

Foi um fartote de rir, porque o teu pai ía brincando com a situação de remar, da corrente, do esforço fisico. Ía cantando e gritando como o homem era escravo (…) O escravo mais moderno da humanidade e pior, autorizado! “O Marido”(…)

Fomos todo o tempo a rir, nunca tínhamos visto a Arrábida naquela perspectiva.

Foi,  e é linda demais.

Como eu gostava que tivesses partilhado de tudo isto com a mãe.

No fundo, sempre ali estiveste. No nosso pensamento, no nosso coração, no sol, no ar, no mar, nos caminhos, nas pedras, no vento.

Sabemos que estiveste lá.

Sorrimos tanto a pensar em ti, disse-te tantas vezes como eu te desejava ali e fui permitindo-me viver tudo o que gostavas de fazer.

Sabias que o Kiko também experimentou mergulho com a mãe e o pai?

Depois ainda quis ir com  prima Catarina.

Ele estava encantado, mais ainda com a possibilidade de estar a boiar bem longe do fundo do mar.

Fomos de mãos dadas e libertámos os nosso medos, procurando a energia que nos mantém em pé.

Fazes-nos falta, mas somos gratos por tudo o que vivemos contigo e por todos os sorrisos que nos foi possivel contemplar.

Falei-te de mim, do pai e do Kiko, mas faltou o David.

Bem…

O mano David, ficou quieto.

Ele ainda não estava preparado para esta viagem.

Não estava preparado para pisar a Arrábida sem a tua presença lá.

Ficou sossegado, energizando-se somente com o sol, a sua música e o toque da areia e das pedras no seu corpo

Vi-o muitas vezes a olhar para o mar, como se estivesse a falar contigo, ou simplesmente a recordar-te.

Todo os momentos, são vividos de forma diferente por cada um de nós. Porque somos todos diferentes! E temos que nos respeitar.

Com tantas restrições na Arrábida, resolvemos sair dali! E fomos a outro local que tu tanto gostavas.

“Fonte da Telha!”

A Catarina adorou!

Chegou mesmo a mencionar que já tinha saudades de lá ir, visto que desde 2016 que não voltara mais.

Recordou-me das fotos que tirámos, e dos momentos que vivemos nesse ano em dois únicos dias e que ficaram gravados nos nossos corações.

Neste local, recuperámos o mano David.

Ele voltou à sua essência e foi bom vê-lo interagir com o mano Kiko e a prima Catarina. Até o pai desafiou para jogar ténis na praia.

Estava como tu gostavas, maré rasa, areia limpa, pouca gente na praia.

Terias adorado ali estar com a bola nos pés, pedindo-me para te fotografar.

Não tivemos o melhor pôr do sol, porque o céu estava coberto de nuvens e o frio foi-se instalando, mas tivemos um dia maravilhoso e viemos de coração cheio.

Estiveste sempre connosco!

Sabes aquele café onde íamos sempre a cada visita à Fonte da Telha?

O pai quis manter a tradição e voltámos lá.

A última vez que lá haviamos estado, fôra em 2018, nesse verão!

Levávamos sempre tanta energia a esse espaço que a D. Ana fez questão de nos lembrar.

Os manos e a prima não quiseram ir e preferiram aguardar por nós cá fora.

A visita  à D. Ana foi rápida, porque a questão que ela nos íria colocar, derrubar-nos-ía, e assim aconteceu.

Perguntou pelos os meninos e disse-nos que estranhou a nossa ausência o ano passado e ao olhar para nos nossos olhos percebeu que algo estava errado.

O pai começou e eu terminei.

A D. Ana não queria acreditar, mas não concebia tal ideia perante um jovem tão alegre como ela sempre te via.”Fiquei sem pinga de sangue!” Disse ela. E os olhos encheram-se de lágrimas que nenhum de nós conteve.

Fizemos o que lá fomos fazer e saímos.

Tenho noção que iremos ter mais momentos como este, porque as pessoas questionam e é normal.

Infelizmente é uma realidade presente no nosso dia-a-dia, à qual não podemos fugir.

Quanto a ti meu amor, estarás sempre presente na nossa vida e tentaremos viver tudo o que gostavas de fazer.

A nós enquanto teus pais, faz-nos sentir-te vivo bem dentro de nós.

Sabemos o que irias gostar e o que não gostarias de todo.

Ainda no início desta semana a tia Ana Margarida, enquanto me permitia chorar de saudades que tenho tuas, ela me dizia:

“Não sei como vocês conseguem, não sei onde vão buscar essa força para viverem.”

Respondi-lhe conforme tenho dito sempre até aqui.

“Encontro a força no amor!” No que tenho por mim, no que tenho pelo Pedro e pela minha familia.”

Imagino a dor e a tristeza do Pedro e tento afastar de mim e de todos os que me rodeiam e permitem, de modo a termos força para continuar.

Ser mãe, mulher, amiga é tudo isto!

É estares para os outros quando eles de ti precisam.

Eu não posso, nem quero baixar os braços. Viverei até que Deus me permita e farei o que estiver ao meu alcance para suavizar a dor alheia.

Sei hoje, o que é sentir e passar pela pior dor de todos os tempos e não posso nem consigo, ficar indiferente a outra mãe, seja ela quem fôr.

Quanto aos jovens, imagino o meu Pedro no lugar deles e penso em tudo o que eu poderia ter feito para o tentar salvar.

Basta colocar-me no lugar do outro.

Esta foi a missão que me confias-te, onde eu tenho sempre presente o amor que transbordo por ti, onde eu me permito ouvir, chorar, sorrir, gargalhar, dançar, cantar e ofereço tudo a ti.

Sou-te grata meu amor, pela pessoa que fui na tua presença e por aquela em que me tornei e transformo todos os dias depois da tua partida.

Viver é não esquecer a verdadeira essência de que somos feitos e simplesmente agradecer!

Obrigada filho!

Com amor,

A mãe do meu filho tem asas.

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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