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O que pode fazer pelos pais defilhados

Hoje terminei o livro da Dra Elisa Medhus “O meu filho está no céu”. Devo-vos dizer que é uma extraordinária partilha, a desta mãe defilhada.

Neste livro encontrei o conforto que procurava, deixando-me mais desperta do que nunca a todos os sinais, sonhos e vibrações que sinto em todos os momentos do meu dia-a-dia.

O amor que se tem por um filho é incondicional. Mais do que acreditar, é sentir que ele pode mesmo continuar a viver ao nosso lado mas em outra frequência e isso é absolutamente maravilhoso, confortante.

Tal como esta mãe, procuro conforto em tudo o que o meu filho fez na sua passagem pela terra. Sei por experiência próprias, que somos muito mais do que aparentamos ser.

Somos muito mais do que matéria!

Somos energia!

Somos essência!

Muitas são as descrições que o Erick (falecido) faz à sua mãe Elisa, que eu também já tive o enorme prazer de vivenciar depois da morte do meu filho Pedro. Este é sem dúvida um livro com uma partilha de amor enriquecedor.

Aconselho-o a todos os pais e familiares que perderam alguém de extremo valor como um filho ou um irmão. Abram a vossa mente ao inexplicável e desfrutem do verdadeiro conceito das palavras amor e alma.

Eu encontrei no poder da leitura, consolo, conforto, força, amor, partilha e acima de tudo uma enorme solidariedade. Quem escreve e fala deste “MONSTRO” apelidado de MORTE, tem mesmo que ser solidário.

Solidário, consigo mesmo e acima de tudo com os outros.

Até vos deixo aqui uma sugestão, por mais idiota que vos pareça, deixo-a na mesma.

Ofereçam-lhes um livro que aborde o tema. (Comigo funcionou plenamente).

Obrigada Cátia Tico de Alcácer do Sal.

Se vocês recentemente passaram pela experiência de terem um amigo ou familiar a quem querem prestar apoio e não sabem como, primeiro lembrem-se da regra básica e fundamental.

– Não digam nada! Abrace-los em silêncio, enxuguem-lhes as lágrimas, mas não digam nada.

– Sejam prestáveis. Existem muitas tarefas que os pais não irão ter forças para desempenhar, tais como irem às compras, lavarem uma loiça, roupa, ou passar a ferro, a higiene da casa, cuidar dos seus animais de estimação, das plantas.

– Se possível, ofereçam-lhes a vossa casa nos primeiros dias, o aconchego do vosso lar. Para muitos dos pais, a última coisa que querem é encontrar um quarto vazio da presença do filho ou da filha. Mas atenção…Respeitem acima de tudo a vontade destes pais, porque nem tudo é linear, e nem todos os pais sentem a dor da mesma maneira e muito menos encaram o luto com a mesma perspectiva e intensidade.

Hão-de haver pais que a primeira coisa que quererão fazer depois de receberem a noticia, (e de não poderem permanecer ao lado do seu filho, devido a todos os procedimentos logísticos), é o de irem para casa e estar bem perto dos pertences do seu filho.

É importante respeitarem cada processo individualmente.

É mesmo uma regra de ouro. Para não deixarem marcas profundas nesses pais, mais do que as que já têm.

Outro aspecto não menos importante, é que se você se dá a todo este acto de amor por esses pais, também você está a sofrer. Não descure de si. Alimente-se e ganhe força, porque o processo é mais doloroso do que imagina. Falo isto na primeira pessoa, porque vi o sofrimento da minha cunhada, dos meus manos de coração, dos meus amigos mais chegados que não se pouparam a esforços para que nada nos faltasse, e muitos deles, senão todos, também eles precisavam de atenção, porque o amor do meu filho tocou-os a todos.

O Francisco, os meus filhos mais novos e eu fomos mesmo abençoados neste terrível processo que ocorreu logo a seguir à terrível notícia no Hospital de Vila Franca de Xira. Foi-nos dado o tempo necessário para estarmos com o corpo ainda quente do nosso filho, e quando não havia mais nada a fazer naquele local, os nossos manos de coração agarraram em nós e levaram-nos. Os nossos filhos foram para um lado e o Francisco e eu fomos para outro.

O estado lúcido dos nossos filhos foi uma preocupação de todos os que nos amam e que apesar de tudo tiveram a clareza de evitarem que os mesmos assistissem ao terror dos seus pais, sem forças para nada. Principalmente o Kiko que só soube dias depois do sucedido. Quando nos foi possível mentalmente e verbalmente proferir tais palavras a um menino de oito anos. Já o David soube de tudo no momento, minutos depois do Pedro partir, viu o nosso terror e ele mesmo sentiu-o na pele.

Foi uma semana sem comer, onde só passava pela boca água e de vez em quando uma sopa. Não há forças, não há vontade, não há ânimo.

Atrevo-me a dizer que não há nada! Só um invólucro. Tornamo-nos numa casca humana.

O nosso corpo perde a vitalidade toda e não reage a nada. Até ao WC deixamos de ir. Não dormimos a menos que sejamos obrigados por meio de comprimidos.

Novamente… É um processo que não é linear, por isso é normal que existam muitos pais que têm outro tipo de comportamentos.

Eu por exemplo, pedi para vestir o meu filho à porta da Medicina legal do Hospital, no dia em que fui fazer o reconhecimento do corpo do meu Pedro. Falei primeiro com o Sr David da Funerária que me alertou para a possibilidade de isso não ser possível e em seguida, pedi às duas senhoras que se encontravam na pequena sala administrativa que fica à entrada do lado esquerdo.

Foi-me recusado! Tive imensa pena, confesso.

Nada mais do que a morte do meu filho me poderia ferir. Só queria mesmo poder vesti-lo pela última vez. Entendo as razões porque não o pude fazer. Acredito sinceramente que as marcas de uma autópsia não sejam nada, absolutamente nada, humanamente possível para uma mãe ou para um pai ver. E é aqui que corro o risco de me contradizer, quando digo que nada mais do que a morte do meu filho me poderia ferir. Mas entendo.

Voltando à minha ideia inicial do texto de hoje acerca de como devem apoiar alguém que vocês amam.

– Tratem esses pais como vocês gostariam de ser tratados, caso esse infortúnio vos batesse na porta. Não há melhor maneira de ser explicado.

– Cuidar do outro como gostaríamos de ser cuidados.

Tenho a certeza, que deste modo não irão magoar ninguém com as vossas acções ou palavras. Contudo, tenham sempre presente que o silêncio, um abraço e o enxugar das lágrimas são muitas das vezes as únicas coisas a que os pais defilhados darão realmente valor, se não nos vos for possível fazer mais.

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas.

Foto de Rute Reis Figuinha

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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