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O nosso Deus!

Nunca fui uma mulher muito dedicada à religião.
Apesar de ter crescido envolta da palavra de Deus.
Estudei numa escola de Freiras em Alcácer do Sal. Todos os dias rezava. Fosse para entrar na sala de aula, fosse para ir de regresso a casa. Até mesmo nas semanas de praia que faziamos na colónia de férias para irmos para a praia da Comporta. Até quando choviam grandes trovoadas nós rezavamos no vão das escadas para a sala de aula que ficava no primeiro andar da casa.
Aos 9 fiz a primeira comunhão no dia 27 de Maio de 1987. Todos os domingos ia à missa, fora aqueles em que me escapava para ficar a brincar junto à igreja.
Parte de mim queria fazer a profissão de fé e o crisma, mas a outra parte já estava tão farta de ouvir sempre a mesma coisa, como se fosse uma formatação na nossa mente.
Com apenas 12 anos tomei coragem e disse que não queria mais seguir aquela vida.
A única coisa que eu amava era o coro, poder cantar em alto e boa voz, todas aquelas lindas canções e confesso que ainda hoje é assim.
Ouvir falar de Deus agoniava-me.
Tornei-me rebelde!
Não contra ele, mas sim contra o que me falavam dele.
No meu íntimo eu não via a necessidade de estar fechada numa igreja perante centenas de pessoas a ouvir o mesmo todos os domingos.
Eu já conhecia a realidade da maldade das pessoas. E via como elas se distinguiam uma das outras bem dentro da casa do pai.
Conheci cedo demais a palavra expressa em cada uma delas, de hipocrisia e falsidade.
Apesar de se tratarem mal no dia a dia, ali mesmo ainda se destinguiam perante os bens materiais que possuiam. Mas gritavam bem alto as palavras Deus e Amor, a todos como se fossem cristãos de verdade.
Isso não é religião, amor, irmandade.
Chegava-me a faltar o ar.
E as pessoas não compreendiam porque me sentia assim quando me injectavam a palavra de Deus.
Aos meus 26 anos pelo meu próprio pé, decidi fazer o meu Crisma, devo-o ao grande sr padre que ainda hoje permanece na minha vida embora que esteja um pouco mais ausente presentemente.
Mas foi ele que me mostrou que Deus é muito mais do que um conjunto de beatas reunidas no espaço da igreja. Beatas essas que gritam ao mundo a palavra de Deus, mas em muito ficam esquecidas as suas ações perante todos os seres. Para mim isso não é nada.
Foi ele que me ensinou que eu posso amar a Deus sem ter que ir marcar o ponto. Foi ele que me mostrou que deveria ser sincera com a minha vontade. Se não queres ir não te obrigues. E assim passei a fazer. Ouvir sempre a voz do meu coração.
Ouvi muitas vezes o meu pai dizer que amava o diabo, porque se Deus existisse, não lhe teria levado a sua mãe e a sua esposa.
Que não o teria feito sofrer tanto.
Na altura aquelas palavras feriam-me porque ele tornar-se-ia um ser ausente do sentimento mais rico de toda a nossa existência.
O Amor.
Já como adulta, voltei a frequentar a igreja devido a estar inserida num movimento escotista e porque Deus existia bem dentro de mim.
Mas nem sempre me apetecia ir. Era sempre a mesma coisa. E apesar de gostar da rotina, aquela rotina era vazia da essência humana.
As pessoas vão lá para criticar, avaliar a postura umas das outras, ver quem comunga, ou avaliar se devem ou não fazê-lo. Vão fazer frete!
E mesmo apesar de tantos anos me afastarem dos meus 9 anos, elas continuam fazendo o mesmo. Lugares marcados. Posições de status, posições de riqueza.
Mas no fim, todos dizem ouvir a Deus e pregam a todos o seu ensinamento. Mas são falsos no modo em que vivem de verdade.
No meio de tudo isto que vos escrevo, a lição que mais ficou presente em mim, é a de que eu não preciso estar no edifício que dizem ser a casa de Deus, porque na verdade Deus está presente em tudo e em todo o lado.
Mesmo agora enquanto vos escrevo este texto, Deus está do meu lado.
Porque Deus vive em mim.
Nas minhas ações.
Nos meus medos.
Na minha força.
Na minha luta.
Na minha coragem.
No meu amor.
No amor que sinto pelos meus filhos e por todos os seres humanos.
Ele vive na minha fé.
Ele vive no meu agradecimento.
Ele vive na minha resiliência.
Ele vive na bravura.
Ele vive na minha fragilidade.
Ele vive no meu perdão.
Ele vive na minha tristeza.
Ele vive na minha saudade.
Ele vive em cada sim que digo à vida, ao amor, ao ser humano.
Ele vive em todas as vezes que vives lutando contra a morte em ti, contra o teu desespero em viveres feliz.
Ele vive em cada momento em que eu penso na morte.
Não na minha, mas na morte como uma certeza para todos os que aqui permanecem.
A vida mostrou-me que Deus é muito mais do que uma imagem pregada na cruz.
A vida mostrou-me que nós somos o nosso próprio Deus.
A vida mostrou-me que Deus é mesericordioso mesmo perante a partida de um filho.
O meu por exemplo, perante o seu acto, poderia ter ficado agonizando numa cama até chegar o seu verdadeiro dia da partida. Mas não. Mesmo perante o seu desespero, Deus teve compaixão dele e o levou consigo.
Sou grata a mim por ter bem presente o meu Deus sem tabus. Sem máscaras perante a sociedade. Sem medo de dizer o que sinto, o que penso e como vivo.
Deus é muito mais do que qualquer sinónimo, adjectivo que possais gritar.
Deus é amor.
E é o amor que me rege.
E a palavra mãe na boca de cada filho, é Deus na sua verdadeira essência.

Com carinho,
A mãe do meu filho tem asas

– Rute Reis Figuinha –

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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