Saudade

O nascimento e a morte

Dia 25 de Maio de 2000 será sempre lembrado como o dia em que eu me tornei mãe pela primeira vez, o Pedro nasceria de parto normal com 50,50 cm e 3,790 g ás 07:31 numa quinta feira com a lua em quarto minguante onde o sol nascia ás 06:17 e tu com ele enchias o meu coração com luz e calor.

Tornar-se-ia num parto provocado porque a minha bolsa de liquido amniótico encontrava-se rota e ele teria pouco oxigénio para respirar, para alem disso teria o cordão umbilical enrolado no seu pescoço o que levaria a ter-se todo o cuidado necessário para que tudo corresse como planeado.

Já tão pequenino e a lutares por sobreviver. Tive duas enfermeiras comigo quase o tempo inteiro e o teu pai que não me largava por um segundo. Enfermeira parteira Maria da Dores e a parteira D. Fátima do Hospital Garcia da Orta.

Foi um parto maravilhoso o qual ainda me permitiu dormir das 00h até bem perto das 06:30 da manhã.

Descrevi-te imensas vezes este dia e sempre te relatámos todos os momentos vividos no dia do teu nascimento.

Sou-te grata porque me escolheste como tua mãe e me permitiste juntamente com Deus que cuidasse de ti por 18 anos e 364 dias, 11 horas e 40 minutos.

Não quiseste mais continuar na nossa presença e o céu recebeu-te para toda a eternidade no dia 24 de Maio de 2019 pelas 19h e 11 minutos. Irónico meu filho, tiveste na tua mão o poder do nascimento e o poder do dia da morte.

Amei-te com todas as minhas forças, chorei contigo, adoeci contigo, lutei contigo, cuidei de ti quando estavas doente, dancei, cantei e brinquei, beijei-te, ralhei-te, abracei-te, incentivei-te e dei-te forças e no final de tudo, com as minhas lágrimas lavei o teu rosto no dia da despedida. Cheiravas tão bem meu filho, ali deitado com o corpo imóvel e endurecido pelo calor que foi embora do teu corpo deixando somente a matéria para trás.

Sinto-me Sozinha!

Vazia por dentro e por isso busco um caderno e uma caneta onde vou escrevendo a história do meu luto e da imensidão do amor que sinto por ti.

Eu não escrevi a minha historia assim.

A minha história englobava-te a ti até ao fim dos meus dias, em que ficavas com os teus manos e juntamente com o mano David olhavam pelo maninho Kiko, depois de eu partir. Viriam os filhos e os sobrinhos e depois os vossos netos.

Há uma parte do meu luto que não gosto de falar nem de lembrar, falta-me o ar e o meu coração começa a palpitar como se quisesse parar a qualquer momento, e é nesse momento que tudo colapsa dentro de mim.

As palavras da médica não me saem da cabeça, nem a aflição do teu pai a tentar ouvir o teu coração ou a de eu abrir os teus olhos para ver se encontrava alguma reacção.

Podias ter enganado os médicos. Sempre foste muito brincalhão.

Mas não, foram momentos horríveis que eu não desejo a ninguém.

Por isso fica difícil de esquecer tudo o que vivemos, tudo o que sentimos.

Não me peçam para viver bem.

Não me peçam para ter força.

Não me digam que amanhã é outro dia e que a dor vai passar,

Não me digam que tenho dois filhos.

Vocês estão completamente errados!!

Eu tenho e sempre terei três filhos!

O Pedro, o David e o Francisco que amo acima de qualquer coisa, tanto quanto me amo a mim, senão vos garanto, já teria desistido, porque isto é uma dor que nos corrói por dentro e por fora sem antídoto nenhum para amenizar o sofrimento.

Amo-te e amar-te-ei eternamente meu amor.

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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1 Comment

  1. monicarteoliveira1987 says:

    Minha querida Rute.. Quando “te leio” sinto o meu coração apertado… As lágrimas teimam em cair, pois como mãe q sou imagino a tua dor… Muita coragem e força para sobreviver um dia de cada vez.. Um beijinho grande e um abraço apertado

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