Saudade

O meu filho desistiu

Tenho um que filho que se perdeu de si mesmo, que perdeu a alegria de viver, que perdeu a energia que o mantinha vivo.

Perdeu a garra! Perdeu a esperança, desistiu dos sonhos e mais grave de tudo, desistiu de si mesmo.

Desistiu de lutar, desistiu de sorrir, desistiu de acordar todas as manhãs.

Desistiu dos irmãos, desistiu dos pais, desistiu dos amigos, desistiu dos familiares.

Queria que o tempo me dissesse:

Querida Rute vou voltar atrás no tempo e vamos fazer diferente o agora.

Mas rapidamente me dou conta que o tempo não volta. Os momentos de alegria não retornam.

Os momentos de partilha contigo meu amor, irão ficar perpetuados na minha mente e na nossa história de apenas 18 anos, 364 dias, 11 horas e 40 minutos.

É cruel demais, tudo isto que eu sinto e nenhum de nós merecia tal desfecho.

A noite chega, e com ela chega um sentimento carregado de tristeza e saudade.

Não há forma de contornar este obstáculo e eu, sempre disse que contornaria todos os obstáculos de minha vida, sempre com um sorriso nos lábios.

Esse era o lema em que eu acreditava.

Acreditava…

Tenho medo da morte e é por isso que me afasto dela. Interpreto a morte como um lugar escuro, sem energia e nenhuma beleza a contemplar.

Amo a natureza, amo deslumbrar-me com uma linda teia no mato, amo deslumbrar uma flor silvestre que capta a minha atenção, ou um cogumelo com uma forma menos normal do que estou habituada a contemplar.

Vivo rodeada pela natureza, mas confesso que desde que o meu filho passou para o outro lado, nunca mais voltei a passear no meio dela. Tenho contemplado somente o céu, as nuvens, a lua, as estrelas e o sol.

Hoje quando acordei, a primeira coisa que pensei foi a de que tinha de voltar a exercitar-me, manter o corpo físico activo enquanto a mente está parada. Mas eu tenho que começar por algum lado e não fazer nada, só me vai fazer mal. Mas falta-me a energia para tal.

Detesto viver assim, em marés altas e marés baixas, onde a energia vem e vai e chega-me a deixar tonta e angustiada. Mas depois com tudo o que leio, acordo para a realidade que o processo de luto é mesmo assim. E este não é um luto qualquer, é a perda de um filho, é a perda de uma parte da tua existência, da tua essência, do teu “eu”.

Meu Deus como é difícil suportar esta dor, esta angustia, este vazio.

Ontem mesmo o meu Kiko mexendo numa estante na sala, depara-se com um álbum de fotografias. Talvez porque a capa tenha o ursinho pooh, ele julgasse ser outra coisa.

Quando vejo o meu filho agarrar aquele álbum, disse aos gritos só para o meu coração ouvir.

“Rute prepara o teu coração”

Quando o Francisco abre a primeira página, só encontra fotografias do irmão, todas detalhadas com legendas de todos os momentos. E a reacção do Francisco foi a de começar a gemer e a querer chorar.

-“São só fotografias do mano Pedro, mamã”

-“Sim meu amor, nessa altura o pai e a mãe, só tinham o mano Pedro. Esse foi o seu primeiro Natal, tinha 7 meses.”

E lá de vez em quando sorria, vendo o Pedrocas nas suas posições de bebé, brincado com a nossa bolinhas, uma cadelinha que tínhamos na altura.

Entretanto porque o álbum é pesado, o Kiko sem querer, deixa-o cair no chão. Fica meio atrapalhado e o pai e eu parámos a respiração.

A única coisa que me ocorreu dizer foi, “Kiko tem cuidado, esse álbum é um tesouro para nós, é a única coisa que nos resta do mano Pedro, que é a sua imagem e os momentos em papel do que ele foi e viveu.”

E o Kiko com cuidado, guardou o álbum no lugar onde o encontrou.

A minha noite mudou logo naquele momento. Ainda não consigo abrir álbuns de fotografias que pertencem ao Pedro. Todos os que fiz, foram para ficarem para eles, para quando fossem para suas próprias casas, levassem recordações de como eram em bebés, e o Pedro como primeiro filho e numa época em que ainda não existia a fotografia digital, tinha vários álbuns para poder levar consigo e comparar com os seus filhos os traços e características do seu corpo quando eles fossem pequenos.

Filhos Pedro! Netos meus! Algo que nunca irei ter da tua parte porque me negaste tal bênção.

Tudo dói! E não há forma nem maneira de poder ser diferente. Quando se deseja um filho e ele nasce, é para ser para todo o sempre, enquanto tu viveres.

Não colocas de modo nenhum ele não fazer parte da tua vida.

Os filhos são os únicos seres dos quais tu nunca te desligas.

Tenho tantas saudades tuas meu amor.

Amar-te-ei para todo o sempre.

Foto de Rute Reis Figuinha

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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