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O Luto por suicídio é diferente!

O luto por suicídio é diferente!

Este luto é diferente de todas as outras formas de luto, já para não salientar que o luto pode mesmo levar um tempo diferente de pessoa para pessoa.

Cá em casa o nosso luto é todo desigual. Estamos todos em fases diferentes e muitas vezes voltamos atrás. Não existe um guião que nos faça seguir o luto passo a passo.

Umas vezes passo pela fase do choque inicial como se recebesse agora mesmo a terrível noticia e dias depois já estou na fase da raiva em que me recuso aceitar o que aconteceu. Dias depois entro na fase da aceitação e mais tarde volto ao choque, à revolta, à tristeza profunda, à fase da negação.

Momentos em que só estou bem em falar dele em vida e momentos que escutar o que ele era da boca dos que o amavam me dilacera o coração por completo e não aguento.

Momentos em que só falo dele no passado e em que falar nele no agora me parece uma perfeita contradição.

A melhor forma de colocar mesmo tudo isto no preto e branco é aceitar que se vive um dia de cada vez, que tenho que dar passos pequenos no que considero um recomeço de vida, ter de me obrigar a fazer coisas simples do dia-a-dia quase como um desafio.

As minhas emoções parecem uma roda gigante de adrenalina impostas pela vergonha, tristeza, ansiedade, desespero, choque, negação, impotência e solidão.

Sinto-me muitas vezes anestesiada e recuso-me acreditar que o suicídio realmente aconteceu.

Tenho momentos que não sei onde vou colocar toda esta dor que carrego no meu peito, as emoções chegam a ser demasiadas cruéis para conseguir assimilar uma a uma. Mas depois lá me imponho a mim mesma. “Então Rute! Não é hora de desistir! Tu não desistes! Reage Mulher! Tens que viver pelo teu filho e para os teus filhos.

O que levou o meu filho a fazer isto meu Deus? É mesmo uma questão que faço muitas vezes e que dificilmente me será respondida com clareza. Foram várias gotas d’agua que fizeram o copo transbordar, contudo não foi a ultima gota que fez o copo encher sozinho. Leio e relei-o os textos que deixaste e busco por explicações científicas e em tudo o que encontro, é explicado que as pessoas que deixam escritos ou vídeos, pensam que sabem o que está acontecer com elas, mas na realidade vivem uma realidade distorcida durante o período que antecede à sua morte.

Um factor muito importante no nosso luto por suicídio é de lembrar e acreditar que não somos culpados pelo facto de um filho ou familiar se ter matado. A escolha não foi nossa! Foi dele ou dela. Nós não conseguimos controlar todas as acções de nossos filhos ou familiares, por vezes é-nos complicado controlar as nossas próprias. Se tivermos feito tudo o que estava ao nosso alcance para o ajudar ou até mesmo salvar, não temos que nos culpabilizar.

Como tudo na vida vamos ouvir Coisas que não gostamos, vamos ser magoados por pessoas de quem gostamos, e vamos ficar tristes por sonhos e projectos que não se chegam a realizar, mas não é por isso que vamos correr para a morte. Tentar ou conseguir com êxito aniquilar a nossa existência.

Vi recentemente um vídeo que está disponível no youtube, de um jovem de 19 anos que colocou termo à sua vida. Fez três vídeos e publicou-os. No final de 2017 escreve a palavra Adeus em fundo preto e termina tudo ali pelas 08 horas da manhã.

E é aqui que eu quero ficar um pouco a comentar este vídeo.

O jovem diz ter tido uma vida feliz mas que já está cansado de vivê-la! Que já viveu muito e que irá morrer feliz com a sua escolha. Lamenta todo o sofrimento que irá causar aos seus pais e aos seus manos, bem como aos seus amigos verdadeiros.

Diz que não quer nem imaginar o sofrimento que irá ser para eles, mas que tem que ser assim. Pede-lhes que o perdoem.

No vídeo fala ainda dos amigos que se aproveitaram dele para seus benefícios próprios e até dos que lhe fizeram algum mal. Fala do seu presente dia e de como o viveu feliz, aliás, muito feliz, mas que já chega. Que será naquele dia que irá matar-se e nada nem ninguém o poderá deter. Fala inclusive da dificuldade que teve em gravar aqueles três vídeos porque a sua casa estava sempre cheia e ele não tinha hipótese de estar sozinho. Partilha que esta sua última noite irá ser de arrebentar, que vai divertir-se bastante e depois fará o que todos já sabem. Despede-se dizendo, quem sabe não volta ainda nesta vida ou em outra qualquer e reencontra os seus amigos e família que deixou para trás, só Deus é que sabe. Faz questão de não chorar mas suas emoções falam mais alto e ele chora por momentos, em seguida limpa suas lágrimas e sorri despedindo-se com beijos para todo o mundo.

Quando vejo e revejo este tipo de vídeos, busco sim respostas. Os rostos são diferentes mas os discursos, semelhantes todos eles. É aqui que me dou conta do que vos referi ainda há pouco.

As pessoas que deixam escritos ou vídeos, pensam que sabem o que está acontecer com elas, mas na realidade vivem uma realidade distorcida durante o período que antecede à sua morte. Só isto pode justificar tal acto impiedoso consigo mesmo. Encontra-se doente e perde a noção total da realidade.

Como eu lamento meu amor, como eu lamento.

Voltando ao luto por suicídio e a tudo o que ele comporta, é importante não deixarmos de falar. Sei na primeira pessoa o quanto difícil é isto. Difícil de processar, difícil de partilhar a viva voz. Por isso optei pela forma que considero mais fácil para mim e de forma a chegar a mais pessoas que passam pelo mesmo que eu. Tenho muitas vezes vontade de me isolar de todos, mas tenho que evitar. É importante manter-me em contacto com os meus verdadeiros amigos, e pessoas que me fazem bem. É importante falar sobre a dor que sentimos e sobre o suicídio, a causa da morte de quem amávamos e é por isso que o faço na pagina do facebook “O meu filho tem asas”  e “omeufilhotemasas.pt” ou na pagina “Pais e mães em luto” ou na  “A nossa Ancora”.

Nem sempre as pessoas estão dispostas em nos ouvir e não têm que se sentir incomodadas com a nossa partilha de uma forma tão activa, por isso escrevo. Quem quiser saber como dói este luto, basta passarem em alguma destas paginas e lerem o que eu escrevo. Prometo-vos não ser um conto, ou uma história de ficção. É a dura e triste realidade de uma mãe que tem um filho que desistiu da vida.

Com carinho,

Mãe do meu filho tem asas

Foto de ABJ Noticias

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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  1. Livro: “Morrer na Ponte, Como Aceitar o Suicídio de um Filho”
    Carlos Céu e Silva

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