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O luto nunca vem só

Dizem os psicólogos, que perante a morte de alguém que amamos passamos por diversas fases de reacções perante essa perda.

Intitulam como a primeira fase ou estágio se assim preferirem apelidar, de negação e isolamento.

O segundo, dão-lhe o nome de raiva, o Terceiro, o nome de barganha (negociação – tentativa de reverter o acontecido).

Entretanto surge o quarto estágio, apelidado de depressão, o quinto de aceitação e embora não seja atribuído nenhum estágio a este, surge por último o da esperança.

Eu confesso que não sei em que estágio me encontro, mas sei porém que não foram todos seguidos como os psicólogos salientam.

Raiva

Não tenho medo, nem vergonha de assumir que tive imensa raiva e que fiquei imensamente zangada com a decisão do meu filho.

Porque me bateu a sua morte à nossa porta?

Porque nunca me disse nada do que pensava acerca da sua vontade em morrer?

Porque não me pediu ajuda?

Porque me disse sempre tratar-se somente de cansaço físico?

Porque não me quis preocupar?

Porque não aceitou ajuda da psicóloga que lhe arranjamos?

Porque desistiu dos seus sonhos?

Porque perdeu ele a esperança?

Porque nos disse ele numa mensagem que nos ama muito e em seguida se mata?

Porquê? Porquê? Porquê?

Muitas delas, mesmo que tentemos arranjar uma resposta, nunca saberemos se seria mesmo isso que sentia. Porque devido à doença que o perseguia, nunca foi capaz de nos dizer a verdade, sobre o que mais desejava.

Tudo isto vai ao encontro do grande estigma da sociedade em que a morte ainda é encarada como tabu e a depressão como uma maldição.

Maldição?

Sim! Porque quem a tem, (depressão) não fala dela, recusa-se a pedir ajuda abertamente e deste modo esconde dos familiares e amigos que precisa de ser ajudado ou ajudada. É como se sofresse de uma maldição onde tivesse que viver para sempre fechado numa masmorra bem no topo de uma torre, tapada pelas nuvens, onde nem o sol entra por serem tão densas.

Se vocês fizessem uma menor ideia da quantidade de pessoas que chegam até mim, referindo que vivem em depressão e que todos os dias se questionam se vale a pena viver. Onde a postura de todas elas, até aqui é de permanecerem invisíveis no sofrimento perante suas famílias. Não as querem preocupar. Não as querem fazer sofrer. Dizem-me todas elas saberem bem o que o meu filho Pedro sentia e porquê fez o que fez.

Negação e isolamento

Negação e isolamento –  A negação esteve lá presente nos primeiros trinta minutos, de pés juntos fazendo força para a olhar de frente. E De súbito apoderou-se de mim a raiva. Se querem mesmo saber, parecia uma roleta russa sempre a girar e agora é uma a seguir da outra, sem dar descanso. Só depois chegou o isolamento, onde só me apetecia estar fechada num quarto escuro, sem ver ninguém, nem falar com ninguém, gritando e chorando de dor e raiva. Eu tinha de acordar para a nova realidade e encontrar as forças necessárias, somente para querer sair de casa ou simplesmente comer um prato de sopa, que levei alguns dias até conseguir.

Percebem agora porque considero segundo a minha própria experiência que podemos experimentar todas as fases aleatoriamente?

Ainda hoje e perante tudo o que tenho escrito, permanecem os meus momentos de negação, onde chego a questionar se estou mesmo a viver tudo isto, ou se será somente fruto da minha terrível imaginação.

Precisamos de espaço, de tempo para sentir a dor da perda, precisamos de chorar muito de forma a libertarmos esta agonia até nos resignarmos com a partida.

Dizem que a negação é uma defesa temporária. Mas será mesmo? Então o que podemos dizer das pessoas que vivem o resto de suas vidas em modo de negação? Sem nunca aceitarem que um filho pode morrer antes de nós e muito menos que ele morreu. Parece que acabei de dizer o mesmo não foi? Mas não, acreditem que não foi.

Barganha/Negociação

Barganha – Muito sinceramente experimentei muito pouco tempo deste estágio, diria que somente cerca de duas horas e meia em todo o processo, desde que soube que um filho meu, havia tido um acidente e a chegada da sua morte. E é por isso que não o coloco em terceiro lugar no meu processo de luto. Fiz tantos acordos com Deus e tantos pedidos, que depois do Pedro entrar no hospital já só dizia para mim mesma, que iria cuidar dele até ao resto da minha vida, mas que o deixasse viver. Liguei inclusive à minha querida amiga Cláudia Oliveira a pedir-lhe desculpa por não poder mais continuar a minha tarefa em ajudá-la a olhar pelas minhas gémeas, porque o meu filho precisava de mim, e eu iria ficar a cuidar dele para sempre. Mas a barganha não foi estabelecida, nem o acordo fechado. Deste modo não precisei de fazer mais nenhum acordo com Deus em nome do meu filho Pedro.

Depressão

Depressão – Penso ter esta fase presa num colete-de-forças de forma a ela não se manifestar. Reajo a tudo o que posso e recuso-me a desistir. Sei que é natural que aconteçam momentos de mais saudade onde por vezes perco as forças, mas depois penso e acordo para a realidade. Lá fora no mundo, existe uma mãe ainda mais agoniada do que eu. Porquê?

Porque ao invés de ter perdido um filho, perdeu dois ou três. Ou então uma família em que perderam dois ou três elementos no mesmo dia. Não me faz sentir melhor, o sofrimento dos outros, mas faz-me encarar o luto de um modo mais suave. Faz-me encarar a vida de maneira diferente. Dá-me forças para continuar. A dor é muito singular perante a morte de alguém tão importante para nós. E isso faz-me olhar para o outro com respeito pela sua dor, e empurra-me para a realidade de que eu não caminho sozinha e seguramente existe alguém no mundo bem pior do que eu.

E agora vai parecer que me estou a contradizer, quando vos digo que a nossa dor é auto-suficiente mas não é solitária. Sabem porquê?

Porque ela é sim singular e própria no indivíduo enlutado, mas torna-se uníssona porque grita nos quatro cantos do mundo em frequências que nem todos conseguem sentir e ouvir porque não passaram pela mesma perda que nós. Mas para os que vivem essa experiência já é bem diferente.

Aceitação

Aceitação – Esta é uma fase muito singular e particularmente delicada, tendo em conta que a aceitação é mascarada pela impossibilidade de se reverter o estado da morte. Por mais que eu fale em aceitar, é algo que dentro de mim não cabe. Não aceito a sua morte. Não aceito a sua escolha. Não aceito que sou obrigada a aceitar.

Esperança

Esperança – Falo dela porque a esperança pode um dia surgir do meio do nada e quando menos estivermos a contar com ela. Podemos ter esperança que poderemos vir a sorrir de novo, a ter gosto pela vida, que encontremos objectivos que nos obriguem a erguer. Esperança que quando morrermos, nos voltemos a encontrar com quem já partiu antes de nós. Esperança de encontrar de novo o meu Pedro e enche-lo de imensos beijos e abraços. Dar-lhe todos os que me foram privados com a sua morte.

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas.

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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