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O luto no meu filho Francisco

Ultimamente o meu Francisco, tem estado mais em baixo.

Durante o dia é uma criança activa. Mesmo com todas estas regras de confinamento social devido à doença que paira no ar, apelidada de Covid-19.

Tem sido um menino que aceitou muito bem as regras e arranjou formas de se proteger do isolamento, mantendo a sua actividade física e intelectual presente. Mas à noite…

Bem… À noite, tudo desaba na sua cabecinha e arrasta-me com ele num turbilhão de emoções sem fim à vista.

É difícil!

Muito difícil gerir todas as minhas emoções e apaziguar a dor que emana em cada batida do seu enorme coração.

Há dias até o meu filho David teve de intervir, levando um pouco de conforto ao mano, cedendo-lhe a sua Fox, depois de lhe mostrar uma foto onde o nosso Pedro se abraça à mesma. Depois, disso o Francisco, agarrou-se com força nela dizendo que agora tinha dois Pedros para lhe fazer companhia durante a noite e agradeceu o tempo e a calma que lhe transmiti com todas as palavras que lhe disse e o truque de manter viva no seu coração todas as memórias felizes que tem com o mano Pedro.

Mas…Nem sempre funciona do mesmo jeito.

Tem dias que a falta é mais presente e a memória triste do mano Pedro deitado já sem vida lhe rouba o sossego do coração, levando-o novamente a pedir ajuda para o adormecer.

Ontem mesmo foi mais um dia difícil, ou melhor dizendo…Uma noite Terrível!

– (…) “Mãe, ajuda-me por favor a colocar de novo as memórias felizes a trabalhar na minha cabeça.” (…) “Não consigo me concentrar e está difícil de apagar as memórias más do meu pensamento.” (…) “Eu não tenho mais o meu mano Pedro e dói-me muito o coração Mãe.” (…)

Enquanto o meu pequeno Francisco ia libertando a sua dor, eu ia tentando acalma-lo.

Dizendo-lhe para falar com o Pedro como se ele estivesse ali na sua frente…Onde ele, me respondia que não funcionava.

– (…) “Mãe, não consigo. Não é a mesma coisa, o mano não está aqui, e ele não me responde quando eu lhe digo algo ou lhe faço uma questão.” (…)

É tão difícil meu Deus!

Que papel este de mãe que eu tenho de desempenhar.

Dei-lhe outro truque…

Falei-lhe para utilizar a mesma técnica que utiliza enquanto brinca com a Playmobil, onde ele aplica os diálogos dos bonecos uns com os outros e pensar que as respostas que ele verbaliza perante um sentimento, possam ser as do mano Pedro. Mas ele na sua simplicidade respondeu:

– (…) “Mãe, mas eu não tenho aqui os bonecos na hora de me deitar para fazer de conta.”

Fiquei a olhar para ele…De facto, não os tinha porque nos encontrávamos todos a deitar.

Apressei-me logo a pensar em outra maneira de o poder ajudar.

Mas o seu coração fica tão confuso que quando eu o questionei se ele se sentia bem com as fotos do mano Pedro no seu quarto, apesar de ter sido ele a pedir-mas logo bem no inicio da perda do Pedro, ele respondeu-me que não tinha mais a certeza.

– “Se quiseres a mãe, retira-as a todas Kiko, basta que me digas e a mãe faz.”

– “Não Mãe! Eu ainda não me consigo decidir. Olhar para elas entristece-me, mas ficar sem elas fico ainda mais triste. (…) “ Mãe! o mano Pedro jamais será esquecido.”

– Sim filhote, o mano Pedro jamais será esquecido! E chorámos juntos e agarrados, um no outro, eu deitada sobre o seu pequeno peito enquanto ele me abraçava ao mesmo tempo que a Fox.

– “Mãe! Eu vou sofrer toda a minha vida por causa da morte do mano Pedro!”

Esta frase deixou-me com as pernas a cambalear e com um nó maior do que uma melancia, atravessada na minha garganta. Mas o meu amor por ele impeliu-me a tentar novamente.

– “Kiko! Não sabes, meu amor! É tudo muito recente. Só passou um ano e as saudades estão presentes em tudo o que fazemos no nosso dia-a-dia, onde a dor nos marca cada batida do nosso coração. Mas é assim mesmo.”

– “Sim Mãe! Significa que amamos muito o mano Pedro e temos muitas saudades dele.” (Enquanto chorava)

– “Sim Kikuxo! Significa que o mano Pedro foi e será sempre muito importante para todos nós que o amamos. Mas o que a mãe te quer dizer é que todos temos uma forma diferente e muito própria de viver a morte de alguém.

Por exemplo: O Pai, não fala na morte do mano. Ele fica com falta de ar e não consegue processar a sua tristeza. O pai só fala do mano em vida, de tudo o que o mano gostava e não gostava. Já a mãe, fala muito do mano Pedro, escrevo muito sobre ele e sobre tudo o que envolveu a sua morte. Leio muito. Falo muito com o mano. Agradeço e fico atenta a todos os sinais que o mano me envia como que dizendo, “Mãe, amo-te muito e estarei sempre contigo.” Entendes Kiko? Não há um tempo definido, não existe uma forma correcta. Existem pessoas que sofrem a vida toda e deixam de viver com alegria. Existem pessoas que não querem falar e sequer aceitar que a pessoa morreu. Existem pessoas que fazem o luto no primeiro ano e depois a dor vai ficando menos intensa, mantendo-se a saudade de todos os momentos.

Tu ainda és pequenino e quero acreditar que com o passar dos anos e conforme vais crescendo, irás conseguir acalmar essa dor, transformando-a em saudade e memórias do que tu e o mano foram um para o outro e no fim meu amor, vais conseguir sorrir.

A mãe por exemplo, já consegue manter mais viva as memórias felizes que teve com o mano Pedro do que o momento da sua morte.”

Mas o Kiko aumentou a intensidade do choro e pediu-me para ficar com ele mais um pouco, porque não queria ficar sozinho.

Então, foi quando eu me lembrei da t-shirt que havia ido buscar ontem à loja com uma foto do Pedro e minha e perguntei-lhe se queria que lhe emprestasse para dormir.

Ele respondeu-me afirmativamente e juntando-a ao seu corpo, fazia festas no rosto do Pedro enquanto a vestia e abraçava.

Como me apercebi que a sua reacção havia sido positiva, coloquei-lhe uma nova questão. Se ele queria uma para ele e que foto ele escolheria.

Uma só do mano? Uma só do mano e dele?

Ao qual ele me respondeu:

– “Não mãe! Quero aquela foto que tirámos todos juntos no teu aniversário o ano passado”.

– O ano passado não filhote. O mano já não estava connosco em matéria, no seu corpo. Referes-te aos 41 anos da mãe em casa da tia Cila, é isso?

– “Sim, mãe. É essa a foto que eu quero!

– Mas Kiko, nessa foto tens a tia Cila também.

– “Eu sei! A tia Cila é tua mana, logo é minha mana também e eu gosto muito dela. Ela faz parte da nossa família.”

O meu coração aumentou de tamanho com a grandeza do meu filhote e respondi-lhe que ficava escolhida então e que em breve teria a sua T-shirt para poder dormir sempre acompanhado.

Quando me preparava para o deixar, ele pede-me novamente para ficar mais um pouco, porque a sua cabeça, ainda não estava a conseguir manter as memórias felizes mais tempo do que as infelizes. E agarrado às minhas mãos começou novamente a chorar.

– “Mãe! Porque é tão difícil?

Bem…

Era urgente dar-lhe uma nova ferramenta para o ajudar e foi quando me lembrei do exemplo dos nossos gatinhos.

– Kiko, lembras-te do Riscas, não te lembras?

– “Sim mãe!”

– Lembras-te que quando o Riscas morreu, nós ficámos muito tristes, e tínhamos a nossa Pantera connosco, Certo?

– “Sim mãe!”

– Mas, nós não ficámos só com a Pantera pois não? Fomos adoptar o Tigre.

– “Sim mãe! Ai o Tigre, era um traquinas, um malandro, sempre a arranhar-me e a saltar para as minhas costas, para me comer o cabelo depois do meu banho.

– Não Kiko. Ele não queria comer o teu cabelo. Ele lambia-te a água do mesmo e por vezes lá te dava uma trinca.

– “Pois era Mãe!”

E começou uma risota pegada com todas as memórias felizes que tinha com o Tigre. Mas no mesmo momento ficou de cara séria e disse em tom triste.

– “Mas o Tigre Morreu também mamã”.

– É verdade, mas vês como conseguiste viver agora mesmo momentos de alegria só de pensares nele? É isso que tens de tentar fazer com o mano Pedro. Sabes Kiko…

A enorme diferença em todo este processo de perda é que, tu tinhas o Riscas e quando ele morreu, fomos buscar o Tigre para diminuir a nossa dor e a da Pantera. Depois quando o Tigre morreu, Já tínhamos o Ruca na nossa vida e ajudou novamente a minimizar a dor e a saudade da falta do Tigre. Hoje, lembramo-nos com carinho que tivemos o Riscas e o Tigre nas nossas vidas. Mas…Com a morte do mano Pedro não conseguimos fazer o mesmo. É um processo diferente. Ninguém, nem nenhum outro mano substitui ou minimiza a falta do mano Pedro. Ninguém ocupa o seu lugar. Por isso é tão doloroso.

Mas tens a mãe aqui sempre para te ajudar, ou pelo menos tentar. Sempre que quiseres, choramos juntos Kiko.

Neste momento, o Kiko agarrou-me nas mãos e com os olhos cobertos de lágrimas, disse-me:

– “Obrigada Mãe! Por me ajudares sempre! Por me ajudares acalmar a minha cabeça, por me ajudares a adormecer.”

Depois de ele terminar, pedi-lhe que me olhasse nos olhos e disse-lhe:

– Kiko! A mãe ama-te muito e sempre irá estar ao pé de ti para te ajudar. É a minha função enquanto tua mãe. A tua felicidade é muito importante para a mãe e apesar da nossa tristeza, eu irei sempre tentar fazer-te rir. Não tens que me agradecer. A mãe ama-te muito, muito, muito. Agora vamos dormir, pode ser?

– “Pode ser Mãe!”

– Dorme bem filhote.

– “Dorme bem mamã.”

Mais uns quantos beijos e o tão tradicional abraço seguido de um amo-te filhote e apaguei-lhe a luz, enquanto ele se agarrava de novo no Tigre e na Fox.

As crianças, não deviam passar por todo este sofrimento, não deviam ser confrontadas com a morte de maneira nenhuma. É tudo tão atroz, tão cruel que eu tenho muitas vezes que controlar a minha dor para não me despedaçar completamente na frente do meu filho Francisco. Mas não lhe escondo a minha tristeza e choro com ele, porque neste processo, é muito importante as crianças terem a liberdade de expor os seus medos, dificuldades e acima de tudo poderem chorar sem receio.

Como um dia disse ao Kiko, e ainda hoje ele o repete…

“Chorar ajuda a libertar a dor da saudade! Chorar impede que o nosso coração adoeça.”

É por isso que vos partilho este texto. Para que chorem com os vossos filhos! Permitam-se chorar abraçados, ou lado a lado. Não fomos só nós que perdemos, eles também perderam os seus companheiros de vida, os seus fiéis confidentes, os seus melhores amigos.

Não precisamos manter a nossa imagem de fortes o tempo inteiro, até porque deste modo, será muito confuso para eles o porquê de só eles, demonstrarem a tristeza pela morte de um irmão ou de uma irmã. Será muito mais difícil, eles superarem essa perda, porque se sentem sozinhos.

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas.

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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