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O luto mudou-me

Nem sempre me considerei uma pessoa forte e nem sempre fui designada pelos outros como tal. Costumo até ultimamente dizer que antes não fosse nenhuma guerreira e não tivesse nenhuma armadura tornando-me assim em uma mulher tão normal como qualquer outra ou até uma mulher fraca. Talvez deste modo não me acontecessem coisas difíceis de gerir e por consequência, de enfrentar.

Quando era jovem até era muito teimosa, claro que na altura não o admitia, hoje não tenho nenhum problema em dizê-lo, contudo não ligo essa característica a ser forte.

Ideias fixas sim! Teimosia, com certeza, mas forte, nunca me considerei como tal.

Queria muito uma coisa e amava-a com facilidade, hoje, vejo um pouco dessa personalidade nos meus filhos. Mas a humildade também imperava na minha característica, porque se via que tal acontecimento não era passível de acontecer, apesar de me deixar triste, eu compreendia. Facto pelo qual a minha “mãe” tia me dizia que eu não lutava pelo que queria, ao contrário de outra pessoa em questão.

Hoje com o passar do tempo e amadurecimento, vejo a vida de maneira diferente. Embora não faça tudo o que quero ou alcance tudo o que desejo, entendo que nem tudo nos está destinado. A vida tem tido os altos e baixos e hoje deparo-me com a cruel realidade que tudo o que sempre considerei difícil não o era de verdade.

A morte do meu Pedro foi até hoje o choque maior que levei em toda a minha vida no que me tem sido possível viver até ao presente.

Passei a colocar o que considerava como obstáculos, em segundo plano, aprendi a relevar, a não dar demasiado impacto, mais do que se deve na verdade dar. A vida é muito mais do que qualquer “merdinha” a que teimamos a dar imenso valor como se o mundo fosse terminar a qualquer segundo.

A morte de um filho muda a nossa realidade. Pelo menos esse acontecimento mudou a minha. E estou certa que muda a de toda a gente.

É por isso que escrevo hoje este texto.

É necessário e importante aprender a relativizar. Não fazer de algo que tanto queremos e não obtemos, um drama existencial.

A capacidade que temos na nossa mente, o facto de ter aprendido aplicar Reiki em mim mesma com ajuda da minha querida amiga Celestina, num momento difícil mas em nada igual a este, ajudou-me bastante. Apliquei o Reiki após o meu grave acidente e acreditem que me ajudou imenso na recuperação. E todos os ensinamentos que tenho tirado dessa experiência ajuda-me a olhar para o fenómeno da morte com outros olhos, adaptando-me melhor ao meu limite enquanto ser humano e à exigência que nos surge em todos os dias da nossa vida. Tenho tido o privilégio de me cruzar com seres maravilhosos que vão partilhando um pouco do seu conhecimento sem nada me cobrar.

Nada é garantido! Nada é impossível! E somente a morte é permanente! (sendo que não acredito muito na última).

Antigamente usava estas três certezas para acontecimentos, desejos e projectos que tinha. Hoje emprego-os somente e unicamente à vida e à morte.

Mas será a morte mesmo o fim de tudo o que conhecemos? Permitam-me duvidar! Cada vez tenho mais a certeza que não é mesmo.

O luto mudou-me e considero que ainda conheço muito pouco de todo o percurso que me espera durante a minha vida. Tudo muda e nós mudamos também. Embora a morte seja um processo bastante normal tal como a vida, nunca estamos preparados para a mesma.

Porque me morreu a mim um filho? Que fiz eu para merecer tal infortúnio?

Porque morrem filhos todos os dias a tantas famílias?

Ninguém merece passar por este sofrimento. Mas o facto é que acontecem todos os dias e a toda a hora. São questões às quais não tenho respostas lógicas e muito sinceramente já me deixei de questionar. Não quero enlouquecer com respostas que nunca terei, porque não existe uma resposta certa ou errada para a morte surgir na vida de uma pessoa tão jovem. Acontece e pronto! E cá ficamos nós a tentar levantar dia após dia com uma nova expectativa e definição de vida que pretendemos alcançar. Coisa que tenho aprendido presentemente com tantos testemunhos que chegam até mim de mães, pais, irmãos e irmãs, é que o modo como encaramos a morte da pessoa amada evolui com a experiência de vida.

Não acreditei logo no inicio! Estava zangada e revoltada! Mas hoje, acredito. O sentimento perante a morte vai alterando-se conforme o tempo vai passando e nós nos vamos permitindo a olhar em frente.

Ninguém espera que a vida venha a ser curta, todos de uma maneira geral desejamos ter uma vida longa, feliz e com muitas realizações pessoais. Mas isso nem sempre acontece. Infelizmente! E é aqui que somos obrigados a enfrentar a morte de frente.

No inicio da nossa vida enquanto somos crianças nem sabemos do que se trata a morte e muitas das crianças nem sabem que ela existe e felizmente. Vamos crescendo e na adolescência podemos conviver de perto com a morte, ora porque nos morre um amigo, um avô, um pai ou alguém que nos era conhecido. Aqui surgem as primeiras dificuldades e tentamos entender o porquê e o que é de uma certa forma a morte. Mais tarde enquanto adultos passamos o tempo todo a desejar não viver esse dia seja de que forma for. E quando chegamos à nossa velhice, por vezes já estamos cientes que é o que mais temos certo e nos casos de sofrimento chegamos a desejar que ela venha rápido para nos levar.

A nossa opinião sobre a morte, vai alterando-se gradualmente conforme vamos vivendo, e isso é perfeitamente normal.

Contudo e principalmente perante a morte de um filho, surge o rompimento dos afectos, desaparecem os sonhos e os desejos e todas as expectativas que tínhamos em relação ao nosso filho e aos que nos rodeiam.

Rompemos a relação que temos com o mundo e nós próprios. Porém o inverso pode acontecer também. Onde surge uma vontade enorme de realizar o máximo que conseguirmos e prosperar em relação ao futuro.

É por isso que todo o processo é delicado e muito individual.

Com saudades tuas meu amor, mas impelindo-me a continuar, envolta num amor que nunca terminará.

A mãe do meu filho tem asas.

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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