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O luto e a barreira que o cerca.

Deparo-me todos os dias desde a partida do meu filhote Pedro com uma luta interna, externa e intemporal. É certo que todos nós vivemos o luto de maneira diferente, e já por diversas vezes o tenho referido nos textos que escrevo.

As pessoas de uma maneira de geral, recusam-se a falar da morte e quem realmente precisa de ser ouvido e compreendido em todo o processo do luto, não encontra o apoio certo, nem sequer um ombro para chorar em muitas das vezes.

Mas é aqui que eu surjo e vos digo pedindo para mudarem essa forma de pensar. Aos que se fecham ao sofrimento dos pais defilhados, oiçam-nos. E aos que se fecham perante a dor, abram o vosso coração.

É agonizante ter que abrir mão de alguém que tanto amamos por imposição da morte. Por isso mesmo se conhecessem de perto essa dor, seriam melhores ouvintes e fariam todo o possível para olhar de maneira diferente para quem sofre com uma perda destas. Eu por exemplo tenho a felicidade de ter embora, muito poucas pessoas, ter quem me ouve e chora comigo.

É importante demais para a pessoa que sofre, falar.

E por acaso vocês sabem porque que é na maioria dos casos as pessoas não libertam o sofrimento, só num simples gesto de falar?

Porque por mais que os ouvintes tentem, é mais forte do que eles, e se o enlutado começa a chorar ou simplesmente dá sinal de que o vai fazer, a maioria das pessoas ouvintes, responde:

“Vá, não chore. Tem que ter força.” Ou então é bloqueado o momento com a normal frase “ Vá, deixemo-nos de tristezas e falemos de coisas boas.” Ou então porque nos damos conta da postura do outro face ao que estamos a dizer, simplesmente nos fechamos, porque quer queiram quer não queiram, sentimos sempre quando a conversa é bem aceite.

Por vezes fico com a sensação que a sociedade não entende mesmo todo o processo de luto. E vivem insatisfeitos com a imagem que idealizam em suas mentes.

Ora vejam!

A sociedade no geral, principalmente a mais idosa, está enraizada numa mentalidade, infelizmente devido um pouco à nossa cultura e à educação religiosa, muito penosa.

Vêem o luto como uma vivência triste e tenebrosa, onde temos que passar horas no cemitério, vestirmos unicamente roupas negras, ou escuras, deixar de usar maquilhagem e a pouco e pouco deixar de viver.

Claro que depende sempre da forma como encaramos a falta. Mas eu defendo particularmente que temos direito de passar pelo processo de forma saudável, sem nos regermos pelo estigma social, ou porque aquele faz assim ou assado.

No processo do luto é importante reorganizarmo-nos emocionalmente. Chorar é necessário, mas sorrir também o é. Com tudo o que tenho lido, tenho aprendido que eu vou amar sempre o meu filho, independentemente da distância temporal entre a minha vida e a sua morte.

Tenho aprendido que eu estou viva e por esse facto não me posso isolar. A própria sociedade, inadvertidamente, já nos vê com um olhar diferente. E é por isso que é mesmo importante estarmos atentos para não deixarmos o luto tornar-se uma doença. Eu tenho evoluído, vejo-o através de tudo o que tenho escrito nestes últimos 5 meses e 5 dias, e fico satisfeita porque me enriqueço gradualmente e cresço espiritualmente.

Deixo-vos um exemplo que agradeço e enalteço, porque são raros de acontecer, mas como vos disse e digo várias vezes, eu tenho amigos que estimo imenso e que cuidam de mim, e nem nos precisamos ver todos os dias ou falar todos os dias. Mas é importante uma mensagem de vez em quando somente para saber que eles estão lá para mim, para nós.

Esta minha amiga, na Feira Alma do Vinho em Alenquer, manda-me uma mensagem indicando que gostava muito de me ver feliz e por isso me oferecia bilhetes para ir ver a Rita Redshoes.

Um convite que me encheu e tocou profundamente com o seu gesto, porque ela lembrou-se de mim. Recusei! Não tenho vontade de grandes multidões e por isso afasto-me. Para já.

Agradeci por se ter lembrado e é aqui que entra o estigma da sociedade. A minha querida amiga ficou incomodada com o facto de me poder ter magoado com a sua oferta. O qual desmistifiquei dizendo-lhe, que nunca poderia ter ficado magoada com alguém que se preocupou em me fazer sentir bem. Não foi desrespeito! Foi amor. Agradeci mais uma vez o gesto. Este é um exemplo que me aconteceu, e que partilho agora convosco.

Querem outro? Vou contar.

O meu filho falece dia 24 de Maio, e a Feira da Ascensão realizou-se no fim-de-semana de 30, 31 de Maio e 1 e 2 de Junho. E mais uma vez entra em acção o estigma da sociedade face ao processo do luto, como deve ser vivido.

Os amigos e a namorada, e volto a referir, os amigos e a namorada do meu filho David, como forma de apoiarem o nosso filho perante a sua dor, convidam-no a ir à feira e a passar a noite em suas casas. E nós como pais, deixámos. A primeira questão colocada por nós, foi a de se ele se sentia com coragem para ir, e depois da resposta afirmativa, autorizámos. Claro está que mais uma vez a sociedade de maneira geral criticou a acção deste irmão e destes pais. “Como é que perante a morte de um filho e de um irmão, se tem vontade de ir para festas.” Eu explico. Afinal o luto é vivido de forma muito própria e isolada.

O irmão não estava mais, os pais estavam de rastos, mal conseguindo respirar. Então porque razão, haveríamos de fazer passar o nosso filho por toda esta degradação visual? Só lhe iria fazer mal, muito mal. Nem dormir no seu quarto que era partilhado com o irmão, ele conseguia. E desculpem que vos diga, mas quem ama cuida. E isto foi um gesto de amor da parte daqueles jovens todos que têm sido como irmãos para ele.  E quem falou o que falou, é seguramente desconhecedora de tal dor, de tal privação, que julga o outro perante a sua forma de viver o luto, ou de imaginá-lo, novamente alimentados com o estigma social acerca da vivência do luto.

Já vos tenho dito e repito. A forma como me dirijo a vocês é igualmente um meio de chorar, de sentir, e acima de tudo, manter-me viva! A vossa forma de viver o luto deve ser encarada por vós como o vosso meio de salvação sim. Se quiserem ir beber um café, ir a uma festa, aniversários, feiras, cinema, teatro, sair com uma amiga. Devem fazê-lo sim!

A verdade é que iremos ser sempre criticados pela nossa forma de encararmos a dor. O estigma do luto assim o obriga.

Quer fiquemos numa cama enchendo-nos de comprimidos, quer aceitemos um convite para sair e espairecer. Na mentalidade das pessoas só vai pairar o seguinte:

Se ficamos em casa, temos que reagir e sair.

Se escolhemos sair e reagir, é porque não o amávamos o suficiente para ficarmos tristes e a chorar o dia todo.

Então Faz o que tens vontade! Ama-te e o resto…O resto não interessa para nada.

Contudo mesmo assim ainda tens a sorte de ter amigos que entendem a tua dor e te metem para cima e puxam por ti e não te abandonam. A todos eles que sabem quem são, o meu muito obrigada.

A realidade é que a dor pela perda de um filho pode demorar anos e até mesmo o resto de nossa vida, contudo é um período que temos que viver, para que nos seja possível suavizar de alguma forma a saudade, mantendo os nossos filhos vivos em todos os momentos que partilhámos com eles, Saborear um beijo e chorar se necessário. Não há, nem temos que ter vergonha de chorar, mas principalmente, tentar retomar as nossas vidas.

Sei e tenho consciência, que só alguns de vós irão entender, o que vos quero dizer, e é por isso que eu não me canso de escrever sobre o modo de caminhar no luto. Para que ganhem força e quando se sentirem fortes o suficiente, reagirem e sorrirem das lembranças de vossos filhos em vez de só chorarem. Eu já vou sorrindo.

Ele queria uma festa e não um funeral!

Com carinho, amor e muita saudade,

A mãe do meu filho tem asas.

 

 

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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