Saudade

Não me sinto mais gente

Não me sinto mais gente, não me sinto mais nada.
É como se tivesse sido atropelada por um camião e não sobrasse nada.
Ontem tive mais uma consulta de psicologia, onde chorei e me indignei com a tua morte.
Foi a primeira vez em que me senti bem a chorar com a Dra Marlene.
“Hoje sinto-a mais deprimida, mais em baixo”, proferiu a Dra.
– Isso Dra, porque você não está comigo todos os dias.
“A dor que a Rute sente vai acompanha-la para sempre e não há nada que possa fazer para amenizar”.
– Eu sei Dra “Ajude-me, como é que eu faço?”
“Rute, nada podia prever que a escolha do Pedro viria a ser esta, mas é uma escolha que infelizmente a Rute terá mais dia menos dia, que aceitar”.
– Como? Como posso eu aceitar?
Por mais que leia, que escreva, não parece tranquilizar o meu coração. Não encontro motivo nem explicação!
“As respostas que a Rute procura nunca as terá, elas foram com o Pedro naquele dia.”
Pois é filhote!
Elas voaram contigo daquele maldito prédio embatendo com violência naquele chão dissipando-se por completo no meio da multidão.
Hoje não é mesmo um dia bom. Hoje sinto-me mais pequena que uma partícula de pó.
Todas as mulheres são preparadas para a dor do parto. Nasce com elas, mesmo para aquelas que dizem não aguentar, mas é uma dor física.
Agora…Nenhuma mulher está preparada nem física nem psicologicamente para a dor da perda de um filho. É absolutamente uma dor que não se explica, somente se sente.
De forma alguma coloco o pai de fora da equação, mas com a mãe é diferente. A nossa ligação é absolutamente, maravilhosamente, fantástica desde o primeiro segundo que sabemos que carregamos amor no nosso ventre, passando por todos os momentos mágicos que comporta uma gravidez.
E isso é algo que o Pai não tem, nem pode sentir. Mais uma vez não coloco o pai de lado, porque existem pais que “engravidam” também com as suas esposas, e que criam laços mais fortes que certas mães, mas ao que me refiro realmente é o de não sentirem o milagre a crescer dentro deles.
Amo-te filhote e jamais em tempo algum deixarei de te amar.

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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