Depressão Esperança Gratidão Morte Suicídio Tristeza

Não me julgue!

No outro dia alguém muito querido partilhava o seu testemunho comigo sem me conhecer de nenhum lado. Como já devem ter reparado não enumero nomes. Respeito a sua privacidade. No meio do seu discurso pedia-me para não a julgar.

Não o fiz, não o faço e não o farei. Há que tentar entender e de alguma forma chegar até a quem se sente perdido, mas não com a postura de julgar.

Respeito os vossos testemunhos acreditem. São eles, para alem do que aconteceu com o meu filho, que me fazem ler, pesquisar, estudar. Sou solidária com a vossa dor. Quanto muito posso enumerar alguns exercícios que eu mesma aplico em mim quando me sinto amargurada perante a dor de ter perdido o meu filho de uma forma tão cruel.

Sou mesmo da opinião que devem partilhar com alguém que vos possa ajudar, sem julgar. Não carreguem esse peso sozinhos porque o mais recorrente é afundar. A nossa mente é muito complexa e deixam-nos frustrados na maior parte das vezes porque nem sempre as nossas vontades ou ambições são alcançadas.

No outro dia depois de ter partilhado um texto que publiquei escrito por mim, outra pessoa muito querida e importante para mim partilhou comigo o peso que traz em cima dela, a falta de vontade em continuar a lutar, mas a forma como ela mesma me colocou as questões, fez-me sentir a pessoa mais pequena  ao cimo da terra. Porque é mesmo aniquilador a forma como estas pessoas sobreviventes vivem com elas mesmas e com os outros.

É tão difícil de arranjar argumentos que justifiquem o sentimento que as perturba. Elas sofrem mesmo.

Elas identificam os seus medos, mas não têm força. Elas tomam medicação, mas só as deixa anestesiadas, não resolve os seus problemas mentais. Aqueles que as perseguem até nos sonhos. Digo mentais porque muitas são mães e tentam que os seus filhos se tornem em justificação para as manter vivas, mas nem isso as ajuda. Falta-lhes a energia. E para cada lado que se viram só recebem juízos de valor e julgamentos como se fossem aberrações da natureza.

Todos descrevem o mesmo. “Ninguém nos entende. Só mesmo quem se sente como nós.”

E é por isso que eu leio tanto sobre depressão e suicídio. Se existe alguma maneira de conseguir chegar ao coração delas sem me sentir como elas, eu só tenho que tentar.

Porque se só me for possível entender quando pensar como elas, aí já estarei demasiado doente para reagir e tornar-me-ei num numero. Mais um para a estatística Social e Mundial.

Se houve alguma coisa que aprendi com a morte do meu filho, foi de que não há salvação possível para a pessoa que já se auto-condenou. Seja como for! Considero-me uma pessoa teimosa e irei continuar a tentar. Enquanto chegarem até mim com os vossos tormentos e angustias, medos e incógnitas, tentarei ter sempre uma palavra, um gesto para vos ajudar sem que vos tenha que julgar, porque significa que vocês ainda não desistiram. Significa que ainda vos resta um pouco de força. Então vamos aproveitar.

Enquanto houver vida, há um motivo para se lutar.

Amo-te muito Pedrocas!

Com carinho e um pedido especial para que não desistam.

A mãe do meu filho tem asas.

Foto ilustrativa, a frase não define o estado da autora do texto.
Foto de Rute Reis Figuinha

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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