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Não desvalorize a tristeza do outro

Muitas são as pessoas pelo mundo fora que desvalorizam a depressão e os seus sintomas. Muitas são as pessoas que ridicularizam e destratam as pessoas que já tentaram contra a sua própria vida com tristes frases como estas:

– Nem para morrer foste competente.

– Estás triste, mata-te!

– Não fazes cá falta nenhuma, mata-te mas é.

– Ainda não morreste desta?

– Vê lá se desta vez escolhes um método mais eficaz. O anterior não foi o melhor.

– Vai morrer longe! Ninguém vai sentir a tua falta.

– Que vergonha, desgraças o nome da família. Não tens vergonha?

– Cobarde. Não prestas mesmo para nada.

Podia ficar aqui a escrever imensas frases que podemos ler e ouvir muitas vezes da boca de pessoas que o dizem só por dizer. O problema é a quem se diz. Para além de ser imensamente errado fazê-lo, é pior ainda dizê-lo a quem já luta diariamente para se manter vivo interiormente.

Eu mesma, confesso que se tivesse sido confrontada com essa possibilidade, a de ouvir o meu filho dizer-me que queria morrer, ou que não via sentido nenhum em continuar vivo, talvez não tivesse a capacidade para ir ao encontro das palavras certas.

Muito provavelmente desvalorizaria o seu sentimento, dizendo-lhe para não ser “tonto“, ou ficaria demasiada assustada que tentaria mostrar-lhe todas as razões pelas quais ele deveria esforçar-se por viver. É demasiado complexo este sentimento de impotência dos pais que têm que viver com esta realidade.

E questionam-se vocês. Quais são afinal as palavras certas para este problema cada vez mais social e que por incrível que pareça, a sociedade continua a fechar os olhos e a fazer do problema um verdadeiro tabu.

Não existem palavras certas. Mas é fundamental não tentar desqualificar a dor do outro. Porque o que para nós pode não ser um problema, para quem sofre pode mesmo ser como o “fim do mundo”.

Quem tem vontade de se matar, não tem força para reagir. Não pode, nem consegue voltar a ser feliz só por querer. A pessoa tem que sentir isso vindo de dentro.

Não podemos tratar os sinais de tristeza e desvalorização sobre o viver, sem importância.

Capacitem-se do que aqui vos escrevo. Apesar de ser cruel e duro as minhas próximas palavras, são a realidade e acreditem que com o meu filho foi o que realmente se passou.

Apesar dos nossos esforços em levá-lo a uma psicóloga em Março de 2019 e depois de ter sido identificado por mim a sua tristeza em Fevereiro, o Pedro não quis a nossa ajuda. O Pedro não quis a ajuda de ninguém. Quando decidiu morrer, ele já se sentia morto e recusou toda a ajuda prestada.

Lamentavelmente, são raras as pessoas que sobrevivem à vontade de morrer depois de interiorizarem isso em elas. Tem que nascer delas a vontade de continuarem vivas.

Não existem “chamadas de atenção” com as tentativas de morte.

Se a pessoa tentou e não conseguiu foi porque por momentos a única coisa que lhe passou pelo pensamento foi parar de sofrer. E não é o nosso amor que lhe falta, é na verdade o amor-próprio. Amarem-se mais do que a qualquer sonho, desejo, bem material ou ao próximo.

Estas pessoas em causa, precisam realmente de ser salvas e não serem maltratadas nos hospitais, pela família, ou pela sociedade em geral.

Acreditem que elas não precisam de mais ninguém apontar-lhes o dedo. Eles mesmo conseguem-no fazer com distinção e não é somente um com que se apontam, são com os 10 das mãos.

Como vos disse anteriormente, eu não sei se iria ter conseguido salvar o meu filho porque como ele mesmo escreveu, a opinião da mãe e do pai não contam. Porque são seres que irão ter sempre uma palavra de incentivo e esperança para filho. Nem sempre os pais vão concordar com tudo, por isso temos os papéis mais difíceis, os de pais, mas uma coisa posso-vos garantir, a minha vida teria dado em troca da dele, se isso evitasse todo o seu sofrimento e me garantisse que ele iria viver até ser bem velhinho.

Amo-te muito Pedrocas.

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas.

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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