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Meu Deus! Que saudades tenho do meu filho!

Sabe quem me conhece que eu não sou pessoa de andar sempre a lamentar-me, mas há dias em que a saudade custa tanto a atenuar.

Há dias, que apesar da minha boa disposição me custa sorrir.

Há dias, em que o que eu somente preciso é de um abraço como de hoje. Um abraço que me permitiu chorar e dizer alto, que tenho muitas saudades do meu filho. Obrigada querida Patrícia.

Diria que ultimamente sinto-me mais assim, frágil e muitas vezes sem chão. Os pensamentos absorvem-me a mente e fico sem conseguir aguentar mais e desato a chorar.

Choro compulsivamente e grito de forma atenuada para que me oiças e as pessoas à minha volta não dêem por nada.

Meu Deus! Que saudades tenho do meu filho!

Meu Deus Pedro! que falta que tu me fazes.

Como eu queria que nada disto tivesse acontecido!

Como eu desejo que tudo não passe de um grande pesadelo, em que um dia destes vou acordar e tu vais estar ali com o teu lindo sorriso à espera do meu abraço.

Mas não! Todos os dias cai a ficha! Todos os dias me desligo da ilusão e passo bruscamente para uma realidade que me corrói por dentro e por fora.

E todos os dias quase sempre o mesmo diálogo com a minha alma, um diálogo ao qual questiono e respondo numa só voz, num só eco dentro do meu coração.

Acorda! E cai na realidade Rute!

Quem estás tu a enganar?

– O teu filho morreu e pronto!

Um ponto final sem hipótese nenhuma de recomeçar. Pelo menos não para ele!

Somente para ti, isso é possível!

Só a tua história não acabou e sim tens de recomeçar.

– Quase um Ano!

Um ano de tanta saudade em que eu penso tantas vezes que se não tivesse os meus pimpolhos mais novos, eu dizia-te o que fazia!

– Não fazes nada! Tens medo! e acima de tudo amas a vida, sentes-te viva enquanto respiras!

– Tanto sofrimento para uma só pessoa carregar no peito, meu Deus! Tanto sofrimento para digerir cá dentro.

Um dilema diário entre a razão e o egoísmo, entre a esperança e a perda total de sonhos.

Um dilema e uma luta diária entre me sentir triste e amargurada e ter que estar bem para os que me rodeiam.

No outro dia, uma colega minha me dizia que tinha a noção do meu sofrimento, mas que não sabia ao certo o que custava, porque nunca fora privada dos seus filhos. Contudo o que me queria dizer era que me admirava, pela pessoa que eu sou.

Que apesar de todo o sofrimento que carrego no peito, na mente e na alma, consigo manter-me sã.

Que continuo divertida, simpática e que consigo cantar e ainda dançar quando uma canção toca na radio.

A minha resposta perante esta descrição da minha pessoa, foi de que, os que me rodeiam não têm culpa do meu sofrimento. Eu escolhi a vida e apesar de parte da luz me ter abandonado, eu amo viver.

Gosto de estar viva!

Gosto de ouvir o chilrar dos pássaros. Gosto de deslumbrar as cores do céu. Gosto dos vários formatos das nuvens. Gosto do som da chuva e do trovejar dos trovões, Gosto dos raios que clareiam o céu negro da noite. Gosto do som do mar. Gosto do cheiro a relva cortada, do cheiro a terra molhada. E muito mais podia eu ficar aqui a escrever.

É por tudo isto e muito mais que não abandono a minha essência e me entrego somente ao sofrimento.

Não!

No inicio não pensava assim, e se me lerem desde o inicio, irão ver que eu evolui. Evolui na dor e como pessoa.

Não!

Jamais em tempo algum voltarei a estar a 100%, mas posso tentar um 80.

Como?

Sendo grata por ter tido o privilégio de ter tido o meu filho Pedro na minha vida!

Sendo grata por ele me ter escolhido para sua mãe!

Sendo grata por ter tido ele na minha vida por 18 anos e 364 dias da sua vida.

Amo-te Pedro!

Haaaaa Morte! vais ter que esperar por mim uns bons anos, porque eu não te vou entregar os pontos. Não te vou dar esse gosto que é o de ceifares as vidas dos que andam por cá.

Tenho constado que a saudade não atenua com o passar do tempo, mas a realidade é que passamos a não dar tanto valor a certos pormenores, como logo no inicio da perda.

Eu já me acostumei a não esperar pelo meu Pedro. Já não o vejo a entrar pela minha porta. Já não procuro por ele no quarto e raramente me engano na contagem do numero de pratos, talheres e copos na hora de se colocar a mesa para as refeições.

O numero quatro já não custa tanto dizê-lo nem escrevê-lo, porque o que é certo é que não voltaremos a ser cinco, e nada nem ninguém o pode mudar.

Contudo há coisas que eu ainda faço, procuro abrir a gaveta no wc onde ele deixou os seus pertences de higiene. Pertences que não usamos para não se gastar. Pertences que foram usados pela ultima vez tendo sido o meu Pedro a usá-los. De tempos em tempos cheiro a roupa dele que não lavei e que guardo como se de um tesouro se tratasse.

Ontem mesmo entrei no seu quarto e desabei. Uma cama vazia, o seu saco desportivo com o qual ele deu o salto, lavado aos pés da cama. Os seus ténis dentro de um saco, ainda com o seu cheiro. a roupa do treino assinada pelos seus amigos do futebol. As suas luvas desgastadas pelo uso que ele lhes dava. Duravam muito pouco as luvas, e eu costumava ralhar com ele porque as rasgava em menos de duas semanas. Ai Pedro! Compraria todos os dias um par de luvas se isso me desse a mínima hipótese de te reaver. Os seus livros da colecção que ele tanto gostava na estante já cobertos pelo pó. O seu auto-retrato desenhado por ele. Doeu! meu Deus como doeu! Doeu demais, porque me dei conta que nada tinha mudado. Só o tempo tinha passado e eu envelhecido com o passar do mesmo.

Com uma terrível saudade tua filho e com uma promessa para a vida que eu não vou desistir de melhorar enquanto pessoa, onde o amor será o ar que eu respiro.

A tua mãe,

A mãe do meu filho tem asas.

 

 

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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