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Luto! Força ou fraqueza?

Pensei que nunca iria estar preparada para ouvir outros pais a falarem da dor e agonia de perderem seus filhos de forma trágica ou por doença. Pensei que a minha dor me bastava e que chegava para atormentar o mundo inteiro, com a simples e confusa ao mesmo tempo decisão de um filho que quis simplesmente desistir de seguir por uma estrada com diversos obstáculos, escolhendo no final um grande atalho direito a um precipício com um desfecho de uma morte inimaginável.

Quando a minha querida Sílvia Russo me falou do grupo de luto que frequenta, lembro-me de lhe ter dito que não iria aguentar ouvir só mães e pais a chorarem a perda de seus filhos. Lembro-me de lhe responder que a minha dor me chegava. Ao qual a Sílvia me respondeu que nos grupos de luto também se ri e acima de tudo nos tentamos tranquilizar.

Falam de tudo o que lhes acalma o coração.

Foi perante um chamamento da Sílvia, que despertei para a missão que me abraça no momento. A de tentar chegar a outros pais, de forma a tentar aliviar o sofrimento, nem que seja através de uma presença por escrito ou através da minha voz, onde podemos chorar juntos. Onde os nossos corações gritam ao mundo que não estamos sozinhos nesta dura caminhada.

Eu não conhecia a Sílvia pessoalmente, mas ela precisava de mim e eu fui. Hoje sou grata por a Sílvia ter entrado na minha vida. Hoje também ela acalma a minha dor.

Experimentei com o grupo que criei dos “pais e mães em luto”, onde nos reunimos pela primeira vez dia 31 de Agosto no parque Tejo. Foi libertador, aconchegante, carinhoso, todas as partilhas que lá deixámos. Nunca fui a outra espécie de encontro, fica tudo muito longe do local onde resido.

Sou uma mãe que é obrigada a reagir a todos os estímulos, não me posso esquecer que tenho outros dois filhos que tanto amo e por quem tenho que fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que levem uma vida o mais tranquila possível dentro de toda a desgraça.

Mas não posso simplesmente omitir que é difícil demais.

Oiço mães que me dizem que nunca mais conseguiram cozinhar, outras que nunca mais conseguiram entrar dentro dos quartos de seus filhos, outras que só se sentem bem junto das coisas dos mesmos, outras ainda que nunca mais conseguiram lavar roupa ou estar em espaços muito movimentados.

A mim tudo me foi negado!

Tenho que cozinhar todos os dias mais do que uma vez.

O quarto que havia do meu Pedro, tive que desmanchar para que o seu irmão David pudesse descansar. As coisas que eram do Pedro, tivemos que as guardar, longe dos olhos, sofrimento atenuado.

A roupa do meu Pedro, vou tratando conforme tenho força, algumas de suas calças visto-as e blusas também, mesmo com o meu David a dizer-me, “mãe essas roupas fazem-te parecer machorra”. Não me importa, sinto-me bem. Sinto-me confortável dentro delas, o Pedro vestia o mesmo numero que eu, só era um pouco mais alto. É como se ele estivesse fundido em mim no momento em que as uso.

Quanto aos espaços movimentados, esses sim, são os que me fazem confusão. Muita gente e muito alarido não conjugam bem com o verbo sofrer que vivo no presente.

Quando cozinho alguns dos pratos, a minha mente é assaltada por memórias de que ele não gostava deste ou daquele alimento, ou então pelo contrário, gostava imenso e iria ouvir da boca dele, como frequentemente oiço da boca do David e do Francisco Daniel, “hum, mãe, adoro, que bom”, ou então seguida de uma frase cada vez mais comum.

-“Mãe, o Pedro adorava isto” ou “Mãe, o Pedro não gostava nada disto”. E limito-me a encolher os ombros. E constato, no final de tudo isto, que sou uma mãe que não lhe é possível colocar uma pausa no tempo.

Nem no meu luto, posso fazer ou adoptar costumes como quase todas as mães desfilhadas adoptaram.

Tenho obrigatoriamente que reagir, porque não vivo sozinha e há que manter o equilíbrio das nossas vidas.

Existem os assuntos sociais, assuntos familiares, assuntos escolares, assuntos do coração para manter em ordem e só eu me sinto perdida de mim mesma. Tenho que ter força para todos e no final de tudo não tenho força para mim mesma.

É irónico pensar que no meio de tanto sofrimento como o nosso, o assunto “morte” seja um assunto proibido na nossa casa, pelo arrasar que ele nos causa a todo o instante.

Com carinho,

A mãe do meu filho tem asas.

Foto de Rute Reis Figuinha

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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