Amor, Depressão, Esperança, Irmãos, Luto, Morte, Pais, Pedro, Saudade, Tristeza

Levanto a cabeça e percebo que o universo é pleno de possibilidades e que um dia voltarei a estar contigo no reino dos céus.

Penso e repenso no teu ato e não consigo compreender, aceitar, acreditar, que te foste embora assim de nossas vidas como o vento num dia de tempestade que tudo arranca pela raiz e deixando somente destruição.

Olhos os jovens na rua e as crianças a brincar e recordo com saudade tudo o que presenciei na tua vida e tudo o que ambicionei para ti sem hipótese de retorno.

Tem momentos do meu dia que penso que isto não passa somente de um mal entendido e que de facto tu não te foste.

Vejo de longe os teus amigos e amigas a sorrirem e a curtirem a vida, amigos esses, que partilhavas muitas das vezes seus medos e fobias. Seriam deles? Ou seriam tuas?

Nunca saberei de verdade.

A única verdade que conheço, é que estás morto e todos eles seguiram com suas vidas assim como eu, o pai e os manos seguem as suas.

Por vezes o medo assola-me o peito e o meu coração aperta de tanta dor só de pensar que eles nem mais se lembrarão de ti. Serás um dia o nome de um jovem que tudo tinha para ser feliz e não foi. Não conseguiu. Não deixou que o ajudassem quando ele mais precisava e sucumbiu a uma dor que somente ele tinha presente e sabia a verdade sobre a mesma.

Ou pensarias que sabias? Nunca saberei. Nunca!

Tenho momentos do meu dia, que tento desligar-me de ti para conseguir viver. Tem momentos que eu preciso parar de pensar em ti e dar um basta no meu sofrimento. Preciso de pensar em mim e na força que preciso para continuar a viver de bem com a vida.

A vida a mim não me fez mal nenhum!

A única culpada é essa maldita depressão que te arrastou com ela para aquele maldito salto.

Uma mãe tem o poder de tudo perdoar e o poder de tudo esquecer, mas e em relação à morte de um filho? Terá ela de facto assim tanto poder que possa perdoar a falta que ele lhe faz e o destino que deu à sua vida?

Todos os dias enquanto mãe, luto por me manter em pé. Luto por me manter lúcida e convicta dos meus actos. Luto pelos teus irmãos e lado a lado com o teu pai. Uma mãe tem mesmo o poder de ser aquilo que ela quiser, mas terá o poder suficiente para ser uma mãe defilhada? Terá ela mesmo o poder de viver esta dor até ao final dos seus dias?

Tem que ter não é? Tem que ela mesma se tornar num exemplo a seguir pelos teus irmãos, tem que ter forças para levantar de novo os alicerces da família que já foi um dia, uma família feliz. Tem que ter forças para acalmar o coração dos teus manos e do teu pai, quando tudo parece ruir.

Uma mãe tem mesmo que ser uma Deusa no seu reino e não deixar que mais nenhuma vez, tristeza alguma se abata sobre a mesma.

Mas terá ela mesma esse poder? Duvido!

Mas vou tentando! Nenhum de nós tem culpa da tua decisão. A verdadeira culpada morreu contigo e alguém no mundo fora premiu esse maldito gatilho que fez o teu mundo desabar.

Como eu gostaria que te tivesses agarrado a mim e nos teus últimos vinte minutos de decisão, me tivesses pedido socorro.

– «Ajuda-me mãe! Ajuda-me mamã!»

E é por isso que choro o que ninguém vê, sofro o que ninguém sente, e oiço o que o meu coração grita de solidão e desespero por me faltares tu todos os dias na minha vida.

É por isso que todos os dias me olho ao espelho e penso que vou conseguir viver mais este dia com toda a energia que for ganhando a cada minuto que respiro.

É por isso que continuo escrevendo, porque de uma forma de outra, deixarei um pouco de compaixão e empatia na vida de alguém que se cruzou comigo neste imensa solidão.

Levanto a cabeça e percebo que o universo é pleno de possibilidades e que um dia voltarei a estar contigo no reino dos céus.

Com amor,

A mãe do meu filho tem asas.

Foto de Rute Reis Figuinha

Rute Reis Figuinha

O meu nome, Mãe.
Sou uma mãe de três filhos em que dois vivem comigo no plano terrestre e o mais velho de apenas 18 anos e 364 dias resolveu ir viver para o plano espiritual o resto da minha vida.
Somos uma família de cinco e seremos para todo o sempre.

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